quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Evangelho da Infância segundo um Ateu

«É por estes miseráveis que vais morrer?»


(Excerto)
Era uma criança. Os dentes de leite há pouco tempo tinham caído e o corpo magricela ainda só agora começava a ganhar algum músculo. A proteção zelosa do pai irritava-o, o carinho da Mãe enternecia-o e os mestres deixavam-no impaciente, porque sabiam juntar as letras para formar palavras mas não lhe conseguiam explicar o seu significado profundo e mágico, como ele achava que devia ser. O Rapaz caminhava como uma criança, mas falava como um Homem, e quando os olhos se transformavam em buracos negros, com uma profundidade hipnótica, crescia à sua volta uma aura aterrorizante.

(Indeterminadamente indisponível no blog. Texto incluído na compilação "o enforcado de cabeça para baixo - e outros contos moribundos", o novo livro do blogger, disponível a partir de 1 de julho de 2026.)

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

DSBM: oito passos (e mais alguns) para a depressão

depressive
suicidal
black
metal

um resumo


Shining
«Sou bipolar e esquizofrénico e, infelizmente para mim, tenho que viver constantemente sob um stress enorme devido ao meu trabalho intenso», contava Niklas Kvarforth à extinta Ultraje Magazine em 2017.
Fundador e mentor dos suecos Shining, Niklas é tido como pioneiro do black metal depressivo e suicida, sobre o qual também se pronunciou em 2017: «Primeiramente, é óbvio que desprezo o que a maioria das bandas faz e nenhuma da sua música proclamada depressiva me diz alguma coisa, o que me leva a arrepender ter cunhado o termo “suicide black metal” em 1996. Por outro lado, ao longo dos anos tenho visto pessoal completamente normal e estável a tocar em temas de loucura e comportamentos suicidas, e, no fim, acabaram, eles próprios, suicidas. Enoja-me ouvir bandas destas e faz-me querer perder contacto com o resto do mundo para evitar ser insultado por tamanha merda quase-intelectual e chorosa.»
Conhecido pelo seu lendário comportamento obsceno e violento, Niklas é uma força autodestrutiva tanto em palco como fora dele: automutilação, agressões, insultos, vómitos, masturbação – há de tudo para todos os gostos.
Em julho de 2006, o sueco havia desaparecido, correndo o rumor de que se teria suicidado. Em agosto seguinte, os Shining anunciavam um novo vocalista que dava pelo nome de Ghoul, alguém que tinha sido expressamente requisitado por Niklas como um dos seus últimos desejos. A 3 de fevereiro de 2007 realizava-se um concerto de Shining na cidade sueca de Halmstad e o público acabaria por descobrir que Ghoul se tratava verdadeiramente de Niklas, incarnando uma personagem decrépita que parecia ter retornado do mundo dos mortos. Escusado será dizer que o espetáculo – que contou com a participação de Atilla Csihar (Mayhem), Maniac (ex-Mayhem) e Nattefrost (Carpathian Forest) – foi de uma natureza violenta à moda de Shining.
Outro momento memorável, desta vez fora de palco, é o trailer do álbum “Redefining Darkness” (2012), em que o sueco elabora uma performance decadente num quarto de banho. Completamente nu e dentro da banheira, Niklas está coberto de sangue, ou pelo menos de um líquido vermelho, que vai bebendo de uma caveira. Vê-se também “I wish you were here” escrito na parede e uma faca é, por momentos, vislumbrada na sua mão. Há música de fundo, murmúrios impercetíveis e tosse agonizante, mas é a vertente sexual que surge com maior evidência ao observarmos Niklas a apalpar-se a si próprio, a manusear dildos e a envolver-se em sexo oral com uma genitália feminina artificial.

Inverno Eterno
Em Portugal, durante nove anos, esta banda deixou uma marca e um legado incontornável na cena depressiva com os álbuns “Póstumo” (2008) e o de título homónimo (2011).
Cessaram atividades em 2014 e, no ano seguinte, o vocalista Nada prestava declarações à Ultraje Magazine sobre esse fim: «A honestidade com que as coisas eram feitas requereu demasiada energia empregue e bastante tempo despendido, e tudo isso, pelo menos para mim, estava a ser excessivamente desgastante e esgotante.»
Três anos depois, a banda reunia-se para celebrar os 10 anos de “Póstumo” num concerto em Lisboa com Black Howling e Gaerea, para, segundo o artista, «fechar um capítulo de forma condigna, pois ao longo destes anos sentia sempre algo incompleto, por encerrar e ficar em paz».
Nesse ano de 2018, Nada contava ainda como se sentia em relação à necessidade de se desligar: «Não sei qual a palavra que posso aplicar, pois dizer que tenho saudades não será o mais sensato para mim, tendo em conta onde fui dar – foi um período de tempo ao qual a maior surpresa foi continuar neste mundo. Cheguei ao estado em que nem a ideia de morrer me dava esperança de coisa alguma; aí começou, literalmente, a viagem ao inferno e lentamente o ponto de viragem. Algo tinha imperativamente de mudar, então afastei-me e desliguei-me de tudo. Teve de ser, não havia outra opção senão aquela. Escrevo isto de forma um pouco abreviada e, possivelmente, pouco ilustrativa ou explícita, porém, foi o âmago de todo o processo de mudança.»

Lifelover
Fundada em 2005, a banda sueca cedo angariou muita fama no panorama depressivo, e, ao longo de seis anos, foram editados quatro álbuns de considerável preponderância no meio, nomeadamente “Pulver” (2006) e “Konkurs” (2008).
Inseridos na cena DSBM, os Lifelover viam-se como narcotic metal assente numa base black metal trespassada por melodias alegres, a fazer lembrar pop e post-punk, deixando quem ouve num estado de confusão e perplexidade. A ideia era muito simples: mais do que possivelmente ridicularizar o estilo musical, era objetivo suavizar, ridicularizando também, problemas do foro mental, como a depressão, com as letras a funcionarem como um tratado à depravação sexual, à decadência urbana, ao suicídio, aos medicamentos, ao álcool e às drogas.
Com origem nas mentes de Jonas Bergqvist e Kim Carlsson (Hypothermia, Kall, Ritualmord), a banda terminou abruptamente em setembro de 2011 quando o primeiro, com 25 anos, foi encontrado morto. Bergqvist, também conhecido por B, morreu durante o sono devido a uma overdose acidental provocada por medicamentos prescritos. Pontualmente, os membros sobreviventes reúnem-se para concertos comemorativos.

Hypothermia
Antes de Lifelover, Kim Carlsson já tinha iniciado a sua negra aventura nas artes performativas e sonoras com o gelado projeto Hypothermia.
Kim foi, em tempos, conhecido pela sua performance autodestrutiva e sanguinária – as cicatrizes nos braços não enganam –, e é a mente de uma sonoridade repetitiva mas envolvente e hipnótica, como se pode verificar em “Skogens hjärta” (2010), uma demo de uma só faixa que se alonga até aos 68 minutos de duração. “Rakbladsvalsen” (2007) deverá ser considerada a obra-prima da fase mais diretamente relacionada ao DSBM, tendo em conta que a banda evoluiu para uma sonoridade mais post-rock/metal, ainda que sempre muito crua, honesta, melancólica e soturna.

Xasthur
Considerado o mais proeminente projeto DSBM oriundo dos EUA, Xasthur foi criado por Scott Conner em 1995. Inspirado musicalmente por nomes como Burzum, a estética e sonoridade podia ser igual à do restante black metal, mas destacava-se, ainda assim, com temáticas que andavam à volta da escuridão, solidão, desespero e suicídio. A intenção de levar uma vida solitária e pouco dada às luzes da ribalta e da sociedade em geral é mostrada no documentário “One Man Metal” (Noisey, 2012), em que, para além de Scott Conner, participam também Jeff Whitehead (Leviathan) e Russel Menzies (Striborg).
Em 2010, o norte-americano anunciava que “Portal of Sorrow” seria o oitavo e último álbum de Xasthur, dedicando-se depois a um rumo acústico e folclórico que deu pelo nome de Nocturnal Poisoning. Cinco anos depois, Conner alterava o nome do projeto para a nomenclatura seminal Xasthur, escrevendo no Facebook: «Trabalhei arduamente na construção de ambos os projetos, iniciando ambos do nada e de lado nenhum, mas estou a recuperar o que é meu. Xasthur não pertence aos hipsters gananciosos que ordenham o negócio do metal; pertence a mim (...).»

Dødsferd
Fundada em 2001, esta banda grega vai do black metal mais cru ao mais punk, mas também tem enveredado por ambiências depressivas, como se testemunhou em álbuns como “Wastes of Life” (2015) e “Diseased Remnants of a Dying World” (2018).
«Dødsferd é o diário de toda a minha vida. A minha maior inspiração é a estupidez humana e o fracasso da humanidade. Com [esses] dois álbuns quis expressar novamente o meu ódio e nojo através de uma atmosfera mais depressiva», contou o mentor dos helénicos à Ultraje em 2018. Para o compositor é «como um funeral para o fim da humanidade». «Este mundo está morto para mim», afirmou, pois «não há futuro e podemos ver todos os dias como é que esses parasitas corrompidos evoluíram».
Sobre as relações com o rótulo DSBM, Nikos Spanakis comentou: «Nunca segui qualquer tipo de tendência, nem nunca vendi as minhas crenças para fazer parte das massas e ser apreciado por elas. Estes dois trabalhos são genuínos álbuns de Dødsferd – não pertencem a lugar nenhum, nem mesmo à tendência do DSBM. Os meus verdadeiros seguidores sabem disso e respeitam.» «Este mundo deveria sufocar e afogar-se no sofrimento eterno», referiu ainda durante a entrevista.

Nocturnal Depression
Nome relevante da ala mais obscura do black metal francês, Nocturnal Depression tem deixado a sua pegada ruinosa por toda a Europa com uma sonoridade envolta em tristeza, mágoa e nostalgia com títulos e letras que fazem constante referência a sepulturas, pulsos cortados, solidão, suicídio e despedida.
Grupo fundado em 2004 por Lord Lokhraed e Herr Suizid, somos expostos à particularidade do primeiro ligar-se fisicamente à decadência da sua música devido à ectrodactilia, uma deformação manifestada na sua mão esquerda, e do segundo nunca ter atuado ao vivo.
Ao longo da carreira, a banda nunca abandonou a inclinação óbvia ao DSBM mas foi evoluindo no que à produção dos seus discos diz respeito.

Ofdrykkja
Nascidos do caos em 2012, os membros deste coletivo sueco são consumidos por uma dor aparentemente interminável, procurando ventilar a sua condição através da música.
Décadas de dependência e doença mental foram esculpidas no primeiro álbum “A Life Worth Losing” (2014). Desesperados por escapar da agonia que era aquele estilo de vida destrutivo, compor música tornou-se uma terapia.
Detido pela polícia em 2014 devido a um tumulto público, Drabbad passou três anos na prisão e a base para a maioria das músicas do segundo álbum “Irrfärd” (2017) foi escrita dentro dos muros da cadeia. Atingindo o fundo do poço, a banda estava pronta para encontrar uma saída do deserto escuro em que se perdeu. Após a gravação do álbum, o vocalista Pessimisten (ex-Apati), também conhecido por enfrentar dificuldades mentais e de dependência, deixou a Suécia para se aventurar numa jornada pessoal que o levou a conhecer o mundo durante três anos.
Para trás fica ainda na História do DSBM um episódio com Drabbad e Bödeln (falecido em 2020) que envolve escarificação. Alterados, os dois amigos queriam cravar na carne as palavras “griftefrid” e “jordfäst” o resultado foi um apartamento alagado de sangue, presença da polícia e uma ida ao hospital.
Depois de lançamentos associados a um DSBM urbano, narcótico e notívago, os suecos modificaram o seu som para ambiências mais bucólicas e folclóricas em trabalhos como “Gryningsvisor” (2019).


Menções honrosas:
Apati (Suécia)
Ars Diavoli (Portugal)
Austere (Austrália)
Defuntos (Portugal)
Forgotten Tomb (Itália)
Ghost Bath (EUA)
Gris (Canadá)
Happy Days (EUA)
Harakiri for the Sky (Áustria)
Lyrinx (Reino Unido)
Make a Change... Kill Yourself (Dinamarca)
Mortualia (Finlândia)
None (EUA)
Psychonaut 4 (Geórgia)
Silencer (Suécia)
Thy Light (Brasil)
Todeskult (Alemanha)
Trist (Chéquia)
Vanhelga (Suécia)
Woods of Desolation (Austrália)


(Nota: estes meus textos foram originalmente escritos e publicados na extinta Metal Hammer Portugal em 2019, recorrendo aos arquivos da também extinta Ultraje Magazine. Uma pequena parte dos textos originais foi revista e levemente alterada em 2025 para este post.)

terça-feira, 25 de novembro de 2025

Lista de tarefas

Vamos viver juntos.

Vamos a concertos para andarmos aos beijos e amassos.

Comprar discos e livros.

Mandar 1kg de arroz todas as semanas para Gaza ou mandamos já 52kg e fica o ano feito.

Ia para dizer que podíamos adotar um sudanês que já saiba falar português e que consiga mandar vir comida pelo Uber Eats, mas prefiro gatos.

Foder à canzana, fazer amor em missionário.

Vamos jantar a tascas, comer grelhados e beber vinho tinto.

Visitar sítios novos.

Ver filmes e comer pipocas.

Mantas e chá no inverno, esplanadas e cerveja no verão.

Jogar Totoloto de vez em quando.

Aprender a fazer arroz de miúdos.

sábado, 1 de novembro de 2025

Terramoto de Lisboa, 1755: o abalo também foi filosófico

Em todas as cruzes
Tábuas partidas
Quarenta igrejas
Caídas
E dos conventos
Nem um lamento
Nem um sinal de vida
Todos os santos não chegaram
Faz dia em Portugal!*


Na manhã de 1 de novembro de 1755, Lisboa foi arrasada por um terramoto, seguido de um maremoto. Sendo o Dia de Todos-os-Santos, as ruas e as igrejas estavam cheias de fiéis, o que contribuiu para o elevado número de mortos, que varia entre 10 e 50 mil. Cerca de 10 mil edifícios ficaram reduzidos a escombros. Lisboa tremeu, ardeu, inundou e ruiu.

Portugal podia já ser falado por toda a Europa desde pelo menos o Séc. XV, devido à expansão para o Norte de África e pela descoberta de novos mundos a oriente e a sul, mas nunca fora tão discutido como a partir daquele fatídico 1º de Novembro. Para além de se considerar que a data marca o nascimento da sismologia moderna, os debates filosóficos foram o regalo dos grandes pensadores da época, como Voltaire, Jean-Jacques Rousseau e Immanuel Kant. É que até então, a Humanidade, a viver sob o jugo da Inquisição, relacionava este tipo de desastres à causa divina, mas o Iluminismo ia mudar a Europa.

Voltaire, um defensor da liberdade de expressão e duro crítico da Igreja Católica, utilizou esta catástrofe para atacar um alvo específico: a filosofia otimista de Leibniz e Alexander Pope, em que se defendia que este é o melhor dos mundos possíveis e que não nos podemos queixar dos males porque desconhecemos os grandes desígnios de deus, não havendo, portanto, maldade. Ora, no seu magnum opus “Cândido, ou o Otimismo” (1759), Voltaire, mestre da ironia, dedicou-se a desbaratar tais conceitos, ridicularizando sociedades, governos, teólogos e filósofos. E onde é que Lisboa entra nisto tudo? Logo no início do conto, quando Cândido chega a Lisboa no dia do terramoto. Crente de que a criação do universo foi operada por uma inteligência superior que pode ser conhecida através da Razão, Voltaire fere a Inquisição e a Igreja Católica com grande ironia e sentido cómico, escrevendo: «(…) Os sábios do país não encontraram meio mais eficaz, para prevenir uma ruína total, do que oferecer ao povo um belo auto-de-fé; pois a Universidade de Coimbra tinha decidido que o espetáculo de queimar a fogo lento algumas pessoas, com as cerimónias e formalidades do estilo, era o segredo infalível para impedir a terra de tremer.»

Antes, em 1756, Voltaire já tinha atacado o otimismo com “Poema sobre o desastre de Lisboa”, em que pergunta, ironicamente, como é que a bondade de deus permitiu tal tragédia, rejeitando a ideia de que o mal não existe na governação divina. Escreveu: «Lisboa, que não é mais, teve ela mais vícios / Que Londres, que Paris, mergulhadas nas delícias? / Lisboa está arruinada e dança-se em Paris.» Mais à frente aponta diretamente aos seus adversários: «“Um dia tudo estará bem”, eis aí a nossa esperança; / “Tudo está bem hoje em dia”, eis aqui a ilusão.»

Sabido que Voltaire angariava algumas amizades - como a imperatriz russa Catarina, a Grande -, era mais propenso a ter inimigos. Um desses rivais era Rousseau, cujas ideias influenciaram profundamente o Direito e conceitos como Estado, poder e soberania, que nos chegam até à atualidade. Rousseau escreveu a Voltaire a “Carta sobre a Providência”, em que defende o otimismo, sem propriamente defender o mote de que este é o melhor dos mundos possíveis e dando um novo tratamento à questão do mal, deslocando-o de deus para o homem. Rousseau chega ainda a entrar em território pessoal, ao referir a suposta hipocrisia de Voltaire por este se preocupar com um terramoto numa cidade como Lisboa, onde vivem as pessoas pelas quais temos consideração, e não querer saber dos tremores que ocorrem em África.

Tentativas de explicação divina à parte, Kant, que nos deu o imperativo categórico (algo como: realiza contigo mesmo antes de impor um princípio aos outros), pretende ser mais empírico e científico em vários textos que desenvolveu sobre o terramoto de Lisboa. Achando que o subsolo era oco, tamanha a facilidade com que tudo tendia a desabar, Kant aconselha a não se construir mais ao longo do rio Tejo, já que é esse curso de água que dita a direção dos tremores em Lisboa, não nos esquecendo que, e auxiliando-nos em registos, a cidade já tinha sofrido quase uma dezena de abalos nos últimos quatro séculos. Para Kant, a Humanidade deve adaptar-se à Natureza e não o contrário. E sublinha também a falta de racionalidade: «Como o terror lhes rouba a reflexão, julgam que estas grandes desgraças são das tais que não se podem minorar por qualquer precaução e supõem que a dureza do destino só pode ser abrandada por uma submissão cega e entregam-se completamente à misericórdia ou à cólera divina.»

Recorde-se ainda as palavras de Johann Wolfgang von Goethe, nome maior da literatura alemã, que, crescido numa família luterana, escreveu em adulto que a sua fé foi abalada quando, logo aos seis anos de idade, soube dos acontecimentos em Lisboa: «Talvez o Demónio do Medo nunca tivesse difundido tão rápida e poderosamente o seu terror sobre a Terra.» De facto, o medo instalou-se, com sermões fanáticos por toda a Europa e com discursos inflamados sobre a ira e a vingança de deus a abaterem-se sobre os pecadores. Contudo, a Ciência e o novo pensamento prevaleceram, despertando nos mais iluminados uma viragem no seu raciocínio outrora limitado por deus.

De 1 de novembro de 1755 ficam os mortos, o apocalipse anunciado como inevitável ou as ruínas do Convento do Carmo, mas também o renascimento da Lisboa pensada por Marquês de Pombal, que ainda hoje se vislumbra, e o início da ideia de que a Ciência se sobrepõe à Religião. E no passado dia 26 de agosto [de 2024], a Terra lembrou-nos que aquele Dia de Todos-os-Santos, agora tão longínquo, pode voltar a acontecer.


(Publicado originalmente no jornal "O Ilhavense", nº 1360, de 1 de novembro de 2024)
* Moonspell, faixa "Todos os Santos", do álbum "1755" (2017)

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

a música extrema contada em crimes e mitos

suicídios, homicídios,
depressão, ritualismo, fanatismo, raptos
e um eclipse lunar


Gorgoroth, Mayhem, Gaahl e Faust
Em 2004, os Gorgoroth passavam por Cracóvia, na Polónia, para darem um dos concertos mais míticos da história do black metal: arame farpado, figurantes nus pendurados em cruzes e cabeças de ovelha decepadas. Foram acusados de blasfémia e crueldade animal, sendo que a primeira terá tido mais força por algo tão extremo ter acontecido no país natal do papa João Paulo II. Os Mayhem também o fizeram, com cabeças de porco, mas isso é um pormenor ao lado dos homicídios e suicídios. Dead (vocalista) suicidou-se em 1991 - primeiro cortou os pulsos e a garganta, depois disparou um tiro na cabeça. Euronymous (guitarrista), ao encontrar o cadáver, tirou fotos ao corpo do colega, originando a famigerada capa da bootleg "The Dawn of Black Hearts" (1995) - nada disto com o consentimento de Necrobutcher (baixista), que saiu dos Mayhem temporariamente. Varg Vikernes, de Burzum e por pouco tempo em Mayhem, também envolvido nos incêndios das igrejas norueguesas, assassinou Euronymous, à facada, em 1993, depois de um desentendimento no apartamento da vítima. Voltando a Gorgoroth, o ex-vocalista Gaahl ficou igualmente conhecido por torturar um homem durante várias horas. A vítima chegou a afirmar que o músico começou, a certa altura, a coletar o sangue num copo. De outra banda seminal do black metal, Faust (Emperor) não gostou de ser assediado por um homossexual, de nome Magne Andreassen, acabando por matá-lo em 1992.

Jon Nödtveidt e o suicídio ritualista
Líder dos extintos Dissection, Jon Nödtveidt era mais do que um músico. Após "Storm of the Light’s Bane" (1995), o sueco seria condenado, em 1997, a dez anos de prisão (tendo cumprido apenas sete) por ter participado no homicídio de Josef ben Meddour. De volta à liberdade em 2004, Jon envolver-se-ia com a Misanthropic Luciferian Order, uma seita que, com os seus escritos, influenciou o guitarrista/vocalista a compor "Reinkaos" (2006). Tiraria a própria vida a 13 de agosto de 2006, com um tiro, mas não foi um mero suicídio. O ato terá acontecido dentro de um círculo de velas, e ao lado do corpo foi encontrada uma grimória satânica (considerada a Liber Azerate), cenário que o guitarrista Set Teitan viria a tornar público quando mencionado que se tratava antes da Bíblia Satânica, de Anton LaVey. Provavelmente tratando-se de um ato programado, Jon Nödtveidt considerava que «o satanista decide a sua própria vida e morte, preferindo morrer com um sorriso nos lábios quando atinge o pico da sua vida, quando já realizou tudo (...). O satanista morre forte, não de idade, doença ou depressão, e escolhe a morte em vez da desonra! A morte é o orgasmo da vida!» (in “Metallion: The Slayer Mag Diaries”, de Jon Kristianssen)

Stalaggh usam doentes mentais como vocalistas
Anónimos e passados dos carretos, Stalaggh é dos projetos dark ambient/noise mais interessantes da história da música extrema. Um artigo da Metal Injection, de 2011, até refere que o grupo raptou pacientes mentais para gravar as vozes de "Projekt Misanthropia". Se calhar não foi bem assim, mas mesmo que tudo seja alinhavado com as instituições psiquiátricas, a intenção para o álbum "Vorkuta" continua a não deixar de ser fantástica e horrenda ao mesmo tempo: numa entrevista concedida à Noisey, em 2013, um dos membros conta que decidiram usar os berros/gritos de crianças para o referido disco, porque têm «uma forma fascinante de gritar». Contou ainda que uma das meninas estava em tamanho trance que começou a sangrar dos dedos por raspar com as unhas no chão. Mito urbano? A História também se alimenta de rumores.

Nattramn, o mãos de porco
De mito urbano em mito urbano chegamos a Nattramn, vocalista/letrista dos suecos Silencer. Mesmo que "Death - Pierce Me" (2001) seja um disco muito badalado no nicho do depressive suicidal black metal, é crível que o hype à volta da banda não venha exatamente da música, mas da insanidade (verdadeira ou não) de Nattramn. Encarcerado num hospital psiquiátrico após, alegadamente, ter tentado matar uma menina de cinco anos com um machado, o sueco é conhecido pelas próteses que lhe conferem mãos de porco. A sua paixão por suínos é tanta que, em 2011, lançou o livro "Pig's Heart" (original "Grishjärta"), que consiste em poemas, textos curtos e letras de músicas. As cópias existentes são assinadas pelo próprio, perguntando: com que mãos?

Músico tailandês assassinado por «manchar o satanismo»
Tínhamos acabado de entrar em 2014, mas Samong Traisattha (aka Avaejee) não mais passaria tempo neste mundo. O baixista/vocalista dos tailandeses Surrender of Divinity foi assassinado em janeiro desse ano por um fanático que, para além de detestar budistas, cristãos e muçulmanos, queria pôr termo à vida levando com ele alguém que manchasse o satanismo. O feliz contemplado foi Avaejee, que começou o encontro com umas bebidas e acabou com 30 facadas no corpo. Antes da ocorrência, o criminoso terá escrito no Facebook: «Se não o matar, tenho a certeza que alguém o fará.»

Tafofilia de Macabre
Taphophilia [do grego τάφος (túmulo) + φιλία (amizade)] é uma obsessão por cemitérios e funerais - é isto que Macabre, de Mortis Mutilati, diz sofrer. Recorrendo aos arquivos da extinta Against (predecessora da Ultraje Magazine e da Metal Hammer Portugal), o músico, aquando do lançamento de "Mélopée Funèbre" (2015), foi questionado se esta condição era metafórica ou real. Respondeu: «Tafofilia não é nada metafórica. Passo muito tempo em cemitérios, a olhar para túmulos e a questionar quem eram as pessoas que lá estão e como é que morreram... Principalmente se são crianças ou jovens como eu. É uma obsessão. Sobre Macabre: somos um só. É uma extensão da minha personalidade, a minha parte criativa.» Mas há mais: morte, erotismo e necrofilia andam de mão dada no conceito de Mortis Mutilati - no booklet de “Mélopée Funèbre” até encontramos a Morte a masturbar uma jovem senhora. «Morte e erotismo são dois temas pelos quais tenho obsessão. É como se estivessem a fazer um 69 na minha mente, portanto é claro que não podia evitar o ponto de vista necrófilo. Para mim, arte é a ligação entre morte e erotismo, por isso quis dedicar um álbum a essa trindade.»

Kris Angylus: acne, depressão e uma mão lesionada
Em 2007, Kris Angylus e a sua esposa Monica "Dragynfly" Henson lançavam, com o projeto The Angelic Process, o álbum "Weighing Souls with Sand", um trabalho muito aclamado na cena doom/ambient/drone. Um ano depois, Angylus cometeria suicídio envolto em obscuridade. Numa declaração proferida pela sua companheira (falecida em 2023) podia ler-se que o músico sempre foi considerado clinicamente deprimido e por várias vezes tentou o suicídio. Por outro lado, a medicação que tomava para contrariar a acne causava-lhe dores de estômago, o que não lhe providenciava uma vida serena, e, para piorar, tinha sofrido lesões graves numa mão derivadas de um acidente de viação. A depressão, aliada ao facto de não conseguir tocar guitarra, levou o músico a pôr termo à vida em 2008.

Tójó e o último eclipse lunar do milénio
Meus conterrâneos de Ílhavo, os Agonizing Terror estavam a deixar a sua marca no underground português com as demos "Disharmony in God's Creation" (1995) e "Ways of Existence" (1997). Em agosto de 1999, a cidade ilhavense e o país acordaram em sobressalto com a morte horripilante, à facada, de um casal no lugar de Vale de Ílhavo. Depressa, a Polícia Judiciária ligou o crime ao filho Tójó, de 23 anos. Confessou ter agido sozinho, mas, posteriormente, acusou a companheira Sara, baterista nos Agonizing Terror, de o ter incitado moralmente. Alegadamente, pretendiam herdar a casa e ficar com os seguros de vida do casal. Como se já não bastasse o parricídio hediondo, a comunicação social aproveitou a existência da banda e o eclipse lunar, ocorrido naquela noite, para classificar tudo como um crime satânico. Tójó foi condenado a 25 anos de prisão. Saiu em liberdade, por bom comportamento, em 2017.


(Nota: estes meus textos foram originalmente escritos e publicados na Ultraje Magazine em 2017 e na Metal Hammer Portugal em 2019, tendo sido revistos e levemente alterados em 2025 para este post.)

terça-feira, 21 de outubro de 2025

Bernardo Santareno nos Mares do Fim do Mundo

«fortes, valentes, humildes e maravilhosamente simples»


Há uns meses, já os dias começavam a ser longos, passou pela redação deste jornal um homem de noventas e muitos anos a querer oferecer-me um livro. «É sobre a pesca do bacalhau. O autor foi meu médico e era dramaturgo», disse-me. Livros e discos são sempre bem-vindos! Contudo, sem ser indelicado, a pressa de sair e ir onde tinha de ir fez com que não me prendesse muito à conversa. O homem foi à vida dele – velhote, de bicicleta e com duas muletas presas ao veículo – e eu também fui à minha. Durante o caminho até casa, olhei melhor para a capa, carcomida e com fita-cola a remendar, onde li o título “Nos Mares do Fim do Mundo” e o nome Bernardo Santareno. Por obra da coincidência, veio parar-me às mãos um livro de Bernardo Santareno. Bela prenda!

Sem querer, abri o livro pelo seu fim, onde está o índice das narrativas, e deparei-me com uma nota escrita a esferográfica: “Zé Ramalhete de Ílhavo / Louvado da Murtosa” à frente do título do respetivo texto, “A disputa”. E fiquei a matutar que a pessoa que me ofereceu o livro podia muito bem ser o Zé Ramalhete. Perguntei ao meu pai se conhecia alguém com aquele nome; disse-me que sim e até corroborou a idade e a bicicleta. O assunto esfumou-se da minha mente e, passado um par de semanas, aquele homem reapareceu. «Então, o livro?», perguntou. Ignorando a questão, contrapus com outra: «Você é que é o Zé Ramalhete da disputa?» «Sou eu, sou», devolveu. «Então, o Bernardo Santareno foi mesmo seu médico?», fiz nova pergunta, e aposto que com um brilho nos olhos por estar perante alguém eternizado em livro por um escritor admirável, mas algo obscuro – para não dizer esquecido. «Foi, foi, no bacalhau. Médico e dramaturgo», reafirmou.


Zé Ramalhete e Ílhavo

Descritos por Bernardo Santareno na dedicatória inicial como homens «fortes, valentes, humildes e maravilhosamente simples», Zé Ramalhete de Ílhavo e Louvado da Murtosa estavam a discutir, sem nunca pararem de trabalhar, há um bom bocado, seguindo-se uma ida à Casa do Leme para, junto do capitão, porem cobro àquilo. A disputa era simples, mas premente: um achava que era melhor escalador do que o outro, e vice-versa. O líder do navio acabou com a discussão mandando-os porta fora, pois era assim que «resolvia ele, sem parcialidade para qualquer das partes, estas contendas, verdadeiras tempestades em copos de água».

Zé Ramalhete foi ainda descrito desta maneira: «(…) de estatura média, ágil e vivo como um gato, continha gritos de Sol, a rebentarem-lhe nos negros olhos faiscantes, no riso dos dentes perfeitos, na pele crispada de frémitos morenos…» E mais, descobre-se depois que era, de facto, melhor escalador do que o seu rival: «O Ramalhete escala mil e vinte peixes em uma hora; o Louvado apenas… mil!», contou o capitão a Bernardo Santareno.

Desfolhando-se o livro, mais referências se encontram sobre as nossas redondezas, em que o autor escreve que «em todas as Gafanhas de Ílhavo, as mulheres amanham a terra. (…) Elas cavam, semeiam, ceifam e colhem: duramente, com sanha viril.»

Por entre relatos, heroicos ou macabros, sobre homens da Fuseta, da Nazaré, de Vila do Conde ou de Caminha, mais ilhavenses fazem parte das memórias do escritor. Em “O sonho”, é recordado que Zé Pinto, tripulante do “D. Dinis” e oriundo de uma das Gafanhas, desapareceu em dia de mar calmo depois de ter sonhado, como contou a Francisco Urze, que «corria pelo fundo mar, perfeitamente livre». Ou o capitão Cajeira (Caveira para os seus subalternos), que, apesar da sua fama autoritária narrada em “Os fantasmas da Gronelândia”, termina como alguém valoroso a capitanear o bacalhoeiro “Rio Lima”. Contra a vontade da tripulação, que recusava a ir aos mares da Gronelândia por superstições fantasmagóricas e por medo de lá ficarem presos no gelo, tornou-se a primeira embarcação portuguesa a pescar nessa zona.

Por outro lado, em “Antigamente”, surge um capitão sem nome apresentado como «uma peste, uma praga de Deus! Aquilo na era home, era o próprio diabo!…» Tantas fez que, numa das suas últimas viagens, a tripulação revoltou-se. Amarrado, esteve prestes a ser mandado borda fora, mas os revoltosos hesitaram. Em terra, nenhum dos tripulantes fugiu à ira do capitão e, um a um, foram desgraçados. Em alto mar, um pescador contou a Santareno que o dito cujo morreu em Ílhavo «há poucos anos». «Tinha uma nascida ruim, que, palmo a palmo, o foi minando todo… O alma do diabo dava urros que se ouviam lá longe, na estrada de Aveiro! Bem feito, bem feito.» Ato contínuo, um tal Zé da Avó acrescentou que se tratava de «um home mau, um danado», contando ainda que «durante três dias e três noites, antes de ele morrer, os corvos (…) não lhe desampararam a casa (…). Aquele tinha manhas com o demónio, senhor doutor!…»


Bernardo Santareno, o médico escritor

Nascido António Martinho do Rosário, em Marvila, Santarém, em 1920, o heterónimo Bernardo Santareno só surge na década de 1950. Médico formado pela Universidade de Coimbra, foi a bordo do navio “David Melgueiro”, em 1957, que escreveu grande parte de “Nos Mares do Fim do Mundo”. Embarcou ainda no “Senhora do Mar” e no navio-hospital “Gil Eannes” em 1958.

Filho de pai anticlerical e opositor do Estado Novo, Bernardo Santareno ficou no radar da polícia política em 1957, quando a sua peça de teatro “A Promessa” foi retirada de cena após a estreia, face ao escândalo que causa e por pressão da Igreja Católica.

Por entre várias obras, podemos destacar “O Crime de Aldeia Velha” (1959) e “A Traição do Padre Martinho” (1969). A primeira é inspirada num crime ocorrido em 1933, na freguesia de Soalhães, Marco de Canaveses, em que a jovem Arminda foi queimada viva por uma pequena turba que a acusava de estar possuída pelo demónio. A segunda é baseada no Cerco a Lourosa, ocorrido no município de Santa Maria da Feira em 1964, em que o real padre Damião estava em vias de ser transferido pela Igreja, mas o povo mostrou-se contra e um grupo de mulheres montou um sistema de vigias em defesa do sacerdote. A mando de Salazar, centenas de militares da GNR cercaram a localidade e, no processo, foram mortas duas jovens.

Com a PIDE sempre de olho em si, a peça “O Judeu” (uma alegoria à repressão) estreou apenas após a Revolução de 1974.

Homossexual discreto, intelectual de esquerda e afeto ao movimento neorrealista, Bernardo Santareno morreu em 1980, pouco antes de completar 60 anos.


(Publicado originalmente no jornal "O Ilhavense", nº 1358, de 1 de outubro de 2024)

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Stigmata, blood and gasoline

 Assaltámos um banco e vamos pôr o mundo a arder... 

...os dois, juntos.


Sonhei que assaltávamos um banco.

Estávamos de cara tapada com um lenço vermelho como os revolucionários zapatistas. As nossas botas estavam imaculadamente engraxadas. As minhas calças pretas sem um único vinco. As tuas meias semitransparentes que não escondem todas as tatuagens, também pretas, subiam-te pelas pernas saídas do teu vestido curto. A minha camisa, enfiada dentro das calças seguradas por um cinto de couro com fivela prateada, era aquela cinzenta ao xadrez. A tua camisola tinha o nome de uma banda punk. Pus ainda a minha boina quando saímos do carro, e tu não falhaste com o teu longo e solto cabelo negro.

Quando entrámos no edifício atulhado de gente, quis levar tudo à frente, disparar a caçadeira contra tudo e todos, berrar a plenos pulmões, meter medo e impor-me. Mandaste-me um calduço e disseste: «estás parvinho?» Ri, porque imagino-te a fazer isso, e lá fomos roubar.

Saímos dali com sacos de dinheiro ao ombro, sem um único grito e sem um único tiro – e ainda tocámos os lábios numa conversa mais silenciosa, agachados atrás do balcão. Abandonámos cheios de estilo, já sem os lenços na cara, a olhar um para o outro – como um filme, até caminhámos em câmara lenta e ao fundo ouvia-se uma batida sonora que não me era estranha...

Não sei mais. Acordei, esbocei um sorriso e até ri. No meu subconsciente cometemos um crime e soube bem.

Stigmata, blood and gasoline
A thought of you and the fire between

Passado largos minutos, já regressado ao mundo real e à decadência do Oeste, descobri sem querer que aquela batida – a banda-sonora do nosso assalto –, era o acompanhamento destes versos.

Estou a tentar escrever isto o mais natural possível e a tentar encontrar um fio condutor que faça sentido entre nós, o sonho e a música. Está complicado, se calhar devia apagar tudo e esquecer.

Mas porra... Estigma (dito stigmata tem outro impacto, eu sei), sangue, gasolina e fogo... Tudo na mesma frase – como esquecer? E ainda por cima assaltámos um banco!

Pensar que podes ser a minha Bonnie e eu o teu Clyde é tão estúpido quanto bonito e excitante. Só que no fim não somos emboscados e mortos – também não ficamos ricos, mas pelo menos sobrevivemos.

No topo de um dos prédios mais altos de uma das nossas cidades, vimos que incendiámos tudo à nossa volta com rios de gasolina. Não nos importamos, e até gostamos – a paisagem infernal e crepitante é linda e destrutiva. Estou desfeito e a sangrar, levei porrada e um tiro ou outro, mas não me queixo, nem falamos sobre isso – tu estás bem e isso é que importa. Não falamos sobre nada sequer – sentados num parapeito sem grades, só me dás a mão enquanto vislumbramos as gigantescas labaredas a chegar ao mar, enquanto sorrimos a ver arranha-céus a ruir e enquanto não queremos saber da desgraça que acabámos de acometer ao mundo.

As cicatrizes que estas e outras ideias deixam (umas mais verdadeiras e possíveis, outras mais estapafúrdias e insanas) são apenas os estigmas nada religiosos, muito profanos e ímpios que o ofício de imaginar me oferece – e tenho de lidar. Mas não me interessa o apocalipse do mundo e da vida se pudermos continuar a sonhar em roubar bancos e a pôr o mundo a arder – os dois, juntos.

No fim, esteja eu como ou onde estiver, dirás sempre que vai ficar tudo bem. E se houver um dia em que não mo digas, tenho a certeza que aquele teu olhar oculto, que nunca apanho mas conheço, por entre os ombros e as cabeças da multidão à minha procura, vai fazer-te chegar até mim.

E quando nos virmos sozinhos será como se estivéssemos outra vez naquele parapeito alto e perigoso, a ver as cidades a arruinarem-se enquanto sonhamos e não dizemos uma palavra.

Sempre que quiseres voltar a tapar a cara com um lenço vermelho e ir assaltar um banco, serei o primeiro a acompanhar-te. E as manhãs de amanhã serão sempre melhores do que as de ontem.


(08/10/2025)

terça-feira, 30 de setembro de 2025

strepitus mundi

Ter-vos-emos de joelhos perante o barulho do mundo
e as vossas inquietações não serão mais parte de nós.

(Excerto)
Habituamo-nos a que o barulho do mundo ribombe quando tudo rui, quando ficamos debaixo dos escombros, quando não há saída e quando as lágrimas são o único sustento. A derrota pode ser romântica, mas nunca gloriosa – e não nos contentemos com isso. Baixar os braços e os ombros, caminhar a olhar para o chão e empalidecer a cada afronta, tudo isso abafa o verdadeiro barulho do mundo.

(Indeterminadamente indisponível no blog. Texto incluído na compilação "o enforcado de cabeça para baixo - e outros contos moribundos", o novo livro do blogger, disponível a partir de 1 de julho de 2026.)

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Finitude

Antes olvidado do que miserável.


É sob os céus cinzentos da ignorância e do egoísmo que decido ir-me embora. A eletricidade citadina apagou-se em mim.

Num canto da cidade, uma árvore plena e verde – tive de a abandonar. A tristeza era esmagadora demais para me manter protegido pela sombra aconchegante daquele ser magnífico que testemunhou indizíveis alegrias.

Sem sombra, de beiral em beiral, com um cigarro incandescente entre os dedos, houve dias em que o sol desceu sobre mim quente e agreste. Voltar à frescura da sombra da árvore viva e verde estava fora de questão. Desaparecer era a única maneira de encontrar alívio.

Merecedor de um bom e bonito fato, vejo-me deitado numa caixa estreita onde caibo perfeitamente. Camisa e colete cor de vinho tinto, casaco e calças negras, sapatos pretos engraxados. Enrolado nas mãos sobre o ventre, um prateado relógio de bolso sem ponteiros. Cabelo rapado, barba aparada com o maior dos cuidados.

No início do outono eu já estava desaparecido. Nunca fui encontrado, o meu corpo nunca foi recuperado... até agora.

Fui enterrado num outro sítio que não o meu – sozinho, sem choros e sem cerimónias.

Enterrado numa cova sem nome e sem lápide, entre monumentos e debaixo das copas de árvores tão lindas e verdes como aquela da minha cidade. Entre estátuas e fontes, uma nova vida sem vida podia começar para mim, neste tão exato dia que marca o fim do velho caminho que percorri.

Será que terei saudades vossas? Será que terão saudades minhas, num tempo e espaço em que já ninguém procura nada e onde não há nada para ser procurado? Quando todos tivermos morrido e ido para o silêncio da eternidade, seremos esquecidos e perdidos nas lembranças da Terra. Antes olvidado do que miserável.

Não passámos juntos os anos que devíamos ter passado.

Esperar por algo que nunca chegaria foi uma escolha minha. Extinguir-me também. Embora o mundo tenha ficado completamente desaustinado, creiam que me fui pacífico e calmo, convosco firmes no meu coração.


(24/09/2025)

terça-feira, 16 de setembro de 2025

O pesadelo do Ser e o eterno inverno da Razão

 Cair, levantar, antecipar, alucinar – repetição.
Ninguém quer saber.


(Excerto)
É um horror cerebral pensarmos que não nos lembramos de nada antes de nascermos – nem mesmo dos primeiros anos em que já respirávamos e chorávamos por leite materno enquanto as primeiras cores, agora esquecidas, nos invadem os olhos – e temermos para onde poderemos ir quando cessarmos a nossa existência física. Pois que não tenhamos receio – será igual depois ao que foi antes: oco, vazio, inerte, indolor, nada.

(Indeterminadamente indisponível no blog. Texto incluído na compilação "o enforcado de cabeça para baixo - e outros contos moribundos", o novo livro do blogger, disponível a partir de 1 de julho de 2026.)

quarta-feira, 28 de maio de 2025

Da noção: más decisões, ou o colapso

Sem inclinação para pontos de vista racionais,
agora estes fragmentos são a razão destruída
em parcelas destituídas de noção.


Prendo a respiração e vejo o tempo. Um minuto, uma hora, uma madrugada – ainda não aconteceu o colapso. Se ao menos soubesses o que podia fazer por ti – mas, depois da madrugada ainda escura e com o céu enegrecido, quando as primeiras luzes começarem a despontar, eis o colapso. Ainda não o previmos, muito menos o sentimos, porque a respiração está presa e bem presa com a segurança de más decisões que são tão boas, mas ele está lá – vamos ficar sem ar quando o ponteiro bater retumbante no momento em que acordamos dos passos cambaleantes, dos embates contra paredes, das mãos sem regras e das bocas molhadas sem atrito.

Mas antes, avançamos. Ninguém nos vai encontrar, nem nós próprios – é a beleza da respiração sustida e das más decisões. A minha promessa, a mais profunda, é que vai ser tão bom agora que vai acabar por ser mau depois quando nos apercebermos do inevitável lapso – e vai acontecer.

Fiquemos quietos – se ficares sem ar, eu também fico.

O colapso. Aí está! Fiquei aqui demasiado tempo, algo não está certo. O que é isto cá dentro que me desorienta? Não prendi a respiração como me tinha garantido que ia fazer. Um minuto, uma hora, uma madrugada. Depois, o dia, a noção do lapso e o colapso.

Eu sou a evidência de que o teste da respiração falhou. E tu – se o passaste, que bom para ti. Será que o vou poder repetir? Será que vais ler as cartas que te vou mandar? Será que me deixas repetir o teste? Será que depois terei a pontuação certa para passar com distinção?

Para trás, já! Ninguém vai sobreviver a isto. Não te sei dizer como ou porquê, mas é isso que vai acontecer. Dentro de pouco tempo mostrar-me-ei menos e entretanto mudo o nome, desapareço da noite, pois é no escuro que me vês. Será na luz que terei um novo nome, sem respirações presas, sem testes, sem pontuações.

Pouco barulho! Não vou tolerar o som dos teus passos e dos teus ruídos. É no silêncio que me ouço a perdoar. Atrás de mim, só o vazio. Se vais ter saudades minhas? Não sei. Vida longa à dúvida!

O que nos irá substituir? Ou quem nos irá substituir? Que memória vamos ter do tempo que passámos sem respirar? Que a dúvida persista – até que ninguém saberá o nosso nome.

Estou melhor sem isto – sem jogos e sem sensações. Mas ainda estou todo partido, porque o meu verdadeiro nome continua a ser dito e pensado. De alguma forma ainda não saí deste matadouro – que és tu. Mas se achas mesmo que me viste, tem de ser provado que não. São os candeeiros da cidade que te ofuscam a visão, que te fazem ver silhuetas suspeitas – e não sou eu. Juro que não sou eu!

Noutro sítio, onde me martirizo, onde procuro os instintos para saber dizer não, parar e ter o discernimento de que é preferível isto do que sofrer quando já for tarde demais, a chuva cai sobre mim. O som da escuridão vem na minha direção – é uma enorme pintura de cinzento decadente. Tão frágil, foda-se! Estou desfeito em bocados. A chuva limpa-me o corpo e borrata-me a alma. Todo eu sou uma pintura de perda e perdição. Está perto de acabar. É o fim da minha vontade. No meio do escuro, feixes de luz que cega vão amparar a queda. Rio-me, porque é tudo mentira – é um engano. As minhas próprias mentiras bem estendidas mesmo à frente dos meus olhos, do meu espírito desfocado, da pintura decrépita que é a paixão.

As emoções fluem num relance de luz e brilham lá no fundo, envoltas em palavras, memórias e decisões pouco aconselháveis. Vou descendo em queda lenta e livre, enquanto me iludo, à espera que a aterragem seja um novo amanhecer, onde a escuridão realmente se transforme em luz, onde as palavras mal percebidas por causa do eco se tornem finalmente percetíveis. Vou aterrar e a repercussão terá uma radiação tão gigante e turbulenta que o meu amanhecer será vasto e duradouro – sem sons desperdiçados, sem visões esgotadas e sem mentiras que embateram em si mesmas durante demasiado tempo. Tudo acabará de vez.

Fragmentos espalham-se pelo asfalto – é a morte do tempo e do ser. Menos um dia a ser devorado por ti, menos um momento a tentar abster-me do falhanço e da derrota. Disperso, olho para paredes outrora pálidas, agora pintadas de vermelho, e ainda tremo ao pensar na minha existência sem forma, que se deixou levar por testes de respiração – mesmo com o colapso a ser iminente.

Não houve inclinação para pontos de vista racionais, e agora estes fragmentos são a razão destruída em parcelas destituídas de noção. Incapaz de voltar atrás e guerrear com o que quer que fosse para passar o teste, eu sou a expressão do remorso – a morte do tempo e do ser, tudo numa espiral recessiva que rui infinitamente. Uma explosão de cinzento avermelhado.

E é assim que alguém se torna leve e com o amor arrancado de si: reprovando em testes que se sabem não vir a ter êxito, sair disso com a cabeça levantada, mudando o nome e evaporando-se, deixando-se ir por aí abaixo até se estatelar. E depois voltar ao topo, recomeçar. Repetição. Merda para isto!

E se alguma vez leres isto, não faças perguntas às quais talvez não tenha respostas. Isto é a renúncia ao básico real e explicativo, é a aceitação do aleatório, das más decisões e do colapso.


(26/05/2025)

cada vez mais fundo, este é o meu inferno

Os tiranos choram sozinhos
enquanto as picaretas balançam de cima para baixo.


(Excerto)
Aqui estou, nu e inadequado, um recipiente de carne destinado a apodrecer como tantos antes de mim e como tantos que ainda estão por vir, para tomar o lugar que hei-de deixar vago. Mas antes, onde quer que estejas, deixa-me oferecer-te o meu amor, se é que ainda podemos fazer algo com isso. Que a terra não me consuma já sem antes ouvires esta súplica. Fui orgulhoso, invejoso, egoísta e vil, e banqueteei-me de tudo com mordaz ganância. Mesmo assim, ofereço-te o meu amor, se é que ainda podemos fazer alguma coisa com isso, onde quer que estejas.

(Indeterminadamente indisponível no blog. Texto incluído na compilação "o enforcado de cabeça para baixo - e outros contos moribundos", o novo livro do blogger, disponível a partir de 1 de julho de 2026.)

as ondas que teimam em trazer-me de volta

(Excerto)
Estou velho. Nem sei se estou cansado do corpo ou da vida. Os meus cabelos são brancos e raros, as minhas pernas custam a mexer e os joelhos chiam como dobradiças enguiçadas, os meus braços tornaram-se finos como palitos, as minhas mãos são o dobro do tamanho do que deviam ser, cheias de calos nos dedos e nas palmas, as unhas crescem grossas mas acabam por se partir como palha seca. A minha respiração é calma, mas está longe de me trazer serenidade. Custa-me ter os olhos abertos, mas quando os fecho vejo coisas que não quero recordar. A visão romântica do mar e nele navegar é uma mentira. É uma prisão, uma desgraceira, uma imundice, uma incerteza. A minha pele é tão rija, tão áspera e tão adusta que não há sol que me faça mais enegrecido. Mas não é só por fora que estou chamuscado.

(Indeterminadamente indisponível no blog. Texto incluído na compilação "o enforcado de cabeça para baixo - e outros contos moribundos", o novo livro do blogger, disponível a partir de 1 de julho de 2026.)

Não sei se consigo voltar para casa...

uma chamada telefónica durante a madrugada


(Excerto)
Quatro e doze da madrugada. Toca o telemóvel. Ela acorda confusa, a pensar que já seria de manhã, que é o despertador. Mas aquele som não é o toque do despertador, é mesmo uma chamada. Enquanto pega no telemóvel, que está em cima da mesinha de cabeceira, estica o outro braço para o lado oposto e percebe que está sozinha na cama. No ecrã do telemóvel, que lhe ilumina a face estremunhada, vê que quem lhe liga é o namorado. Atende, e fala com voz de muito sono: «Estou...» Os primeiros sons que lhe chegam ao ouvido são ruidosos, como um formigueiro da televisão. «Estou...?», repete. «Não sei se...», diz-lhe do outro lado, com a frase a ser cortada por ruídos a fritar a ligação.

(Indeterminadamente indisponível no blog. Texto incluído na compilação "o enforcado de cabeça para baixo - e outros contos moribundos", o novo livro do blogger, disponível a partir de 1 de julho de 2026.)

A carta que nunca vais ler

Quantas e quantos de nós quisemos dizer o que está aqui e não dissemos?
Ou dissemos e rebentámo-nos em pedaços?
É uma carta de amor. Usa-a: fica com ela para ti ou dá-la a alguém.

Esta é a carta que nunca vais ler, porque nunca ta vou enviar, mas vai ser partilhada por aí e mesmo assim não a vais ler. E como não a vais ler, também não saberás que é para ti.

A ingenuidade das primeiras tímidas palavras e o ocultar dos primeiros olhares cruzados, sempre a pensarmos que o outro não percebia, criaram uma fatuidade aparentemente ilógica – isto não estava a acontecer, não podia acontecer e não ia acontecer.

Cheguei a aquecer por dentro e depois a gelar também. Acabaram-se os tempos dos impulsos, das palavras desmedidas, das emoções repentinas e sem filtro. Ganha razão, tem de ganhar a razão. Mas nem sempre foi assim. Voltei a aquecer. O gelo regressou depois. E aqueci novamente. E o meu âmago é uma crise climática constante – todo alterado e adolescente, que, a muito custo, tende a assentar e a ser um adulto racional.

A nossa sorte é que nunca houve promessas, sempre com medo dos estilhaços que nos cortariam os pés se alguns compromissos, inicialmente cheios de empenho, fossem quebrados. Rimos muito, dissemos parvoíces, apanhámos bebedeiras e até tentámos debater filosofia – o que é o estoicismo, o pessimismo e o que somos e andamos a fazer afinal connosco e com os outros nesta curta, preciosa e tão feliz quanto sofredora passagem por este planeta. Somos assim tão únicos no infinito do Universo? Não haverá mais vida complexa na vastidão de milhões e milhões de galáxias? E será que somos assim tão únicos, por cá, que não há mais ninguém por quem nos apaixonarmos?

Vou falar, não vou falar. Vou convidar, não vou convidar. Vou admitir, não vou admitir. O tempo é a resposta: para apagar ou para acicatar ainda mais irresponsavelmente. Quis limpar essa lousa, em que tinha escrito pensamentos, sentimentos e resoluções, e consegui – não durante muito tempo. Ri contigo, ao teu lado ou à distância, enquanto me doía não dizer o que queria – por medo, por respeito, por querer defender a inocência dos risos e das piadas, até dos olhares.

Batemos numa parede quando admitimos, e essa parede ruiu comigo, por uma ribanceira. Não ponderei as minhas hipóteses, aceitei a queda – e lá fui eu por ali abaixo, ao rebolão. E os ossos não seriam o maior problema. A alma é que se partiu toda. Mas também não vamos ser melodramáticos ao ponto de encenarmos uma peça de teatro regada por lágrimas falsas e gritos desesperados que não são mais do que profícua atuação. Isto era só paixão – mas porque não pensar em amor? Não agora, mas depois, talvez um dia destes, pé ante pé, com os mesmos risos, parvoíces, debates filosóficos sobre a música, os filmes, os genocídios e a própria vida, mas com beijos à fugida, apalpões firmes e noites passadas na mesma cama. E se dá merda? Nunca saberemos. Nem estás a ler isto sequer, portanto não importa.

Admitimos, primeiro respirei de alívio e depois, quando acordei, dei por mim espatifado contra um poste de eletricidade que aguenta, intacto, o maior dos camiões – não vai dar, sabemos que é melhor nem irmos por aí. Admitimos, mordemos a língua e vamos sufocar com o nosso próprio sangue. Não é o que te desejo, calma. Mas é o que nos aconteceu. Nem há choradeira, e esse sangue também é só uma metáfora – afinal isto é só uma carta de amor que nunca vais ler, não é um conto de terror sanguinolento.

Se calhar íamos prometer rosas e ficaríamos, pouco depois, com os espinhos cravados nas pontas dos dedos, nas palmas das mãos, nos pescoços, nos lábios, até nos olhos caso nem nos pudéssemos ver à frente. Às tantas íamos achar que conseguiríamos viajar por vários sistemas solares, em movimento de translação à volta de diversos sóis que éramos realmente nós próprios, mas se calhar nunca iríamos sair deste plano terrestre e o primeiro passo dado seria para pisar uma mina e outra e outra, até não haver mais carne e espírito para se ver a despedaçar no ar e a cair desfeito, aos bocados, no chão.

Houve dias em que achei que encaixávamos como puzzles – senti esse fascínio utópico. Mas isso já não é estar-se apaixonado? Não quero. Mas houve desses dias – e alegrei-me, renasci momentaneamente, imaginei cenários, obtive coragem. Só que aterrei, enfim, com o peso da razão que é tão forte como a gravidade. Lá se foram os sistemas solares, as galáxias, os beijos e o arrebatamento, mas ao mesmo tempo também desapareceram as minas e as explosões que nos iam destruir a simplicidade de podermos continuar a ver-nos e a falarmos sem rancor – talvez com alguma tristeza ou passageira relutância, mas nunca com aversão.

Os dias passam e a sagacidade da paixão murcha. E está tudo bem. Tem de estar tudo bem. E não quero voltar a sentir frio na barriga, nem quero ficar com o teu cheiro na minha camisola quando me dás um abraço acompanhado de um sorriso lindo.

E o pior de tudo é que mesmo assim, decididos a não tentarmos nada em nome da paixão, da tesão ou mesmo do amor (porque não?), estilhacei-me como vidro frágil. Acho que vou sangrar mais do que tu. Silêncio.


(31/12/2024)

A Decadência

(Escrito em dezembro de 2022,
reorganizado e livre de heterónimos em dezembro de 2024)
(contém linguagem ofensiva)


Já dizia o poeta que na hora da trova todo o medo estorva. Que poeta? Nenhum poeta, pá! Fui eu quem disse isto, agora mesmo.

Eu, estudioso inveterado da decadência pós-isto, pós-aquilo e do caralho que vos foda, namorado do vernáculo, prometido do álcool e noivo do vínculo à morte certa que me escapa, pelo menos até ontem e até este momento.

Chorem as putas e os pobres, as amantes e as comadres, os snobes dum raio e as elites da merda. Mas riam também, seus burros de carga da sensibilidade oca – riam de quem está ainda mais fodido, não tenham medo de ser cancelados. Até porque cancelados estamos desde que nascemos – a morte é o objetivo da vida.

A decadência não é mais do que rir da desgraça do outro e no fim, sozinhos na cama, à noite, no escuro, choramos como desalmados porque também somos uns desgraçados de merda que nos pavoneamos na rua, mas a sopa é comida na solidão e a punheta não há quem a bata a não ser nós próprios. Ou então choras tu, que eu cá não verto uma lágrima. Que se fodam as lágrimas e a solidão, quero é risota e farra até de manhã! E para quê? Para passado umas horas acordar sozinho, cheio de dores, boca seca como uma cona frígida e ser um roto como qualquer outro sobre quem aqui mal estou a falar.

Ai a decadência, essa mula velha que teima em querer voltar a levantar-se. Chorem para aí, espantalhos esburacados pelos bicos do consumismo, virem até a página e emocionem-se com tristezas bacocas.

Eu cá vou beber até cair, contar histórias aparvalhadas, gozar com os cocainados que já nem têm nariz e rebaixar os ignorantes, esses abençoados do desconhecimento que vão viver mais anos do que eu porque não pensam em lá grande coisa, só nos cinco cêntimos de nada que trazem no bolso sem fundo.

Fodam-se, que eu também me fodo.


(28/12/2024)

Ajuda-me a desaparecer

Escrito em 2021 ou 2022, não sei...
Recuperado no final de 2024.


(Excerto)
«Quem és tu?», perguntou-me um velho que me encontrou a atirar pedras ao rio. Eu não falava com ninguém há meses, até perdi a conta. Aliás, não falo sequer, nem comigo próprio. Por alguma razão que me transcende, decidi falar imediatamente. A minha resposta foi longa e o velho ouviu-me com atenção e aparente carinho.

(Indeterminadamente indisponível no blog. Texto incluído na compilação "o enforcado de cabeça para baixo - e outros contos moribundos", o novo livro do blogger, disponível a partir de 1 de julho de 2026.)

Rosália, a corta-pilas

Spoiler alert:
é o que o título diz

Nunca na Rua de São Lázaro, tendo em conta a ironia do seu nome em relação aos eventos aqui contados, tanta mortandade, e macabra, aconteceu como no ano passado. A velhice colheu uns, o crime ou o acidente colheu outros.

Primeiro o Zé do Assobio, encontrado a boiar num poço. «Então o Zé do Assobio foi encontrado no poço a caminho do ribeiro?», perguntou um homem da rua, na manhã seguinte, enquanto bebericava um café na padaria. «É verdade... Não quero cá pôr culpas em ninguém, e se calhar até caiu com a bebedeira, mas às tantas foi alguma que o atirou dali abaixo», respondeu o empregado. É que o Zé do Assobio, para além de bêbado, tinha a mania de assobiar e mandar umas larachas às mulheres, velhas e novas, que ali passavam, perto do poço, em direção ao ribeiro para irem lavar roupa. «Coitado... Olha, já não assobia mais...»

Uns meses depois, comentava-se na rua que o Tó Crispado, que ninguém lhe podia dirigir a palavra que ele crispava-se logo todo, tinha sido encontrado morto em casa pelo irmão mais novo. «Então o Tó Crispado foi encontrado morto? Envenenado, disseram-me...», cochichou uma velhota. «Pois, parece que sim», respondeu a Rosália. «Olhe menina, também para as coisas que ele dizia às moçoilas quando elas passavam por baixo da janela...» «É assim a vida...», disse a Rosália a afastar-se da coscuvilhice.

A Rosália era uma jovem mulher, solteira, filha única, já sem pais. Vivia sozinha num pequeno apartamento na Rua de São Lázaro, que era a única coisa que os pais lhe tinham deixado – e já não foi mau. Isso e o emprego numa fábrica. «Um teto e um trabalho? Olarilolé!», respondia o vizinho de baixo, um reformado que ainda fazia uns biscastes, quando a velhota de cima lhe sussurrava que só era pena a Rosália estar solteira.

Bonita e sempre bem educada, poucas vezes se via a Rosália. «'Tadita da miúda... Sozinha, é só casa, trabalho, trabalho, casa», também se dizia pela rua. E onde ela mais detestava ir era à loja do Sr. Agostinho. Nunca gostou dele. Desde catraia que ouvia impropérios daquele homem que tinha idade para ser seu pai – tais como: «Olha a Rosália, sempre linda e aperaltada. Se não ficares para o meu filho, quando te fizeres mulher cá te caço!» Rosália sentia nojo desde sempre. O filho do Sr. Agostinho estava emigrado, a mulher tinha morrido com um cancro e a filha tinha-se suicidado, o que não abonava nada em favor dele, porque se apalavrava baixinho pela rua que a menina, acabada de terminar o liceu, se tinha matado por causa do pai. Mas dentro de cada casa, cada um sabe de si.

Certo dia, a Rosália, enquanto pagava as compras, meteu ao bolso um saco de rebuçados, mesmo nas barbas do Sr. Agostinho. «Vá, desta vez escapa. Por seres tão arranjadinha, eu perdoo. Leva lá os rebuçados.» Na semana seguinte, um saco de sal; noutro dia, um pacote de arroz – sempre sem o Sr. Agostinho ver. E noutra ocasião, a Rosália, que já não podia com o cheiro da mercearia e do homem, quis levá-lo ao extremo da paciência e resolveu fazer um número à séria. Entrou com pressa, foi direita à prateleira dos vinhos, pegou em duas garrafas, virou-se e seguiu em direção à saída. «Então até para a semana, Sr. Agostinho!» O homem não queria acreditar naquilo! A menina, a mais educada e airosa da Rua de São Lázaro, tinha acabado de lhe roubar duas das mais caras garrafas de vinho. Não saiu do balcão para correr atrás de Rosália, mas ficou a moer naquilo... «Ai na próxima vez que cá vieres...»

E houve uma próxima vez.

Rosália entrou no estabelecimento, disse boa tarde e dirigiu-se à secção das especiarias como se nada de mal tivesse feito na semana anterior. O Sr. Agostinho foi atrás dela e, encurralada no fundo do corredor, viu o homem a tirar o cinto das calças. «Agora vais aprender a não ser ladra!» Agarrou-a com toda a força, que também não era precisa muita dada a fineza de Rosália, virou-a de peito contra as prateleiras e deu-lhe três chibatadas no rabo. Rosália não só não chorou como ainda gemeu quase sem se ouvir, largando um sorriso maroto e um olhar de soslaio por cima do seu ombro. O Sr. Agostinho não conseguia acreditar naquilo!

Numa insana falta de noção e de pau feito dentro das calças, pegou em Rosália e levou-a para o armazém. De vestidinho cor-de-rosa – leve, curto e com alças finas –, Rosália foi empurrada, com o ventre para cima duns caixotes, e, sem delongas, estava quase a ser penetrada por um velho tresloucado quando lhe disse com voz macia e harmoniosamente sedutora: «Quer comer-me o cuzinho, Sr. Agostinho?» O homem não podia mesmo acreditar no que ouvira! Nem era tarde, nem era cedo! Nunca tinha visto, nem sentido, um rabinho tão redondinho e espichado. «Que ricos vinte aninhos», dizia o homem a arfar. Rosália ria, agora menos inocente. «Quer na boquinha, Sr. Agostinho?» Agora é que o merceeiro se ia mandando ao ar! Nem as mais atrevidas que lhe tinham passado pelas mãos sugeririam tal coisa!

Rosália agachou-se perante um Sr. Agostinho baboso e de olhos a revirar. Agarrou no marsápio enrugado com mais de cinquenta anos, deu-lhe duas, três esgalhadelas e ZAU! Com a outra mão tinha tirado do decote uma faca de ponta e mola bem afiada.

Perplexo, num misto de dor e de espanto, o Sr. Agostinho perdeu as forças nas pernas e caiu, agarrou-se ao que lhe restava da pila, que esguichava sangue a bom esguichar, e berrava de boca bem aberta. Aproveitando isso mesmo, Rosália enfiou-lhe aquele bocado de carne rançosa na boca e espetou-lhe a faca várias vezes numa coxa para o imobilizar o máximo possível. Atirado ao chão, a gritar de agonia, Rosália, com a mesma arma, fez-lhe dois furos na garganta. O hediondo e abusador Sr. Agostinho ali ficaria até ao último gargarejar, afogado com o próprio sangue e sem meio caralho.

Rosália, lançando um último olhar àquela criatura que ela achava imunda e asquerosa, lavou as mãos no lavatório do armazém enquanto ouvia o moribundo a sufocar, arranjou-se como pôde, desamarrotando o vestido cor-de-rosa, e saiu daquele espaço escuro e cheio de humidade, quiçá com ratos e baratas. Depois de ter pegado em mais duas garrafas de vinho, como já tinha feito noutra ocasião, perto da porta de saída deu de caras com uma freguesa que lhe perguntou pelo Sr. Agostinho, pois não era hábito ele não estar junto à caixa registadora.

Rosália respondeu: «Espere um bocadinho. Pode ser que ele (se) venha rápido.»


(29/11/2024)

O morto-vivo de Ílhavo

(adaptação baseada num texto publicado em 1922,
sobre uma estória de 1856)


Corria o ano de 1856, e, reinando D. Pedro V, corria também pelo país a cólera-morbus, que atacava, sem parcialidade, novos, adultos e velhos com cãibras, diarreia e vómitos fortes. Desenvolvendo-se em Lisboa, a região norte e centro virada para o mar também teve a sua quota-parte de pestilência, de Viana do Castelo à Figueira da Foz.

Ílhavo, terra de homens que pescam no mar o sustento ou a morte e de mulheres que amanham em terra o peixe ou a sepultura no peito dos que lá ficam entre ondas e redes, não escapou ao terrível flagelo que dizimou centenas de criaturas. Sem escolher especificamente entre jovens e velhos, ricos e pobres, pescadores e agricultores, a mortandade espalhou-se com um terror e um desânimo profundo que ia, surpreendentemente, abalando as almas fortes dos ílhavos.

À doença, já por si calamitosa, juntou-se a fome que redobrou a aflição e a angústia, causando, nas gentes ribeirinhas, coletivos e abafados suspiros de desalentada esperança. Os barcos-do-mar imobilizaram-se, porque os braços que remavam e puxavam as redes quase não se viam a trabalhar ou a acenar no regresso à praia. Esses braços, fortes e morenos, salpicados pelo salitre, estavam agora pendurados no rebordo de padiolas ou estirados em denegridos caixões. Havia ainda os que, já desolados pelos sintomas, com medo de serem acusados de cobardia, se faziam ao mar na mesma, para, no pico da fraqueza, simplesmente baldearem da embarcação. «Ó Zé, agarra a corda, home!» Muitas vezes, o mar nem estava assustadoramente bravo e salvar-se-ia, com relativa facilidade nessas condições, um pescador forte e obstinado como o Zé, ou outros. O que os companheiros não sabiam é que o Zé – e outros, para não serem enxovalhados pelos veteranos ou ameaçados pelos arrais mais atrozes –, foi ao mar sob agudas fisgadas que lhe perfuravam a barriga sem ferida e sangue aparentes. Caídos às águas, deixavam-se afundar, sem luta. A boina a boiar era o que, por mais uns minutos, sobrava do desafortunado. E depois, só mar. Remava-se de volta ao areal em silêncio sepulcral, ouvindo-se apenas a marejada e o ranger dos remos. Os que o mar não levava, lutavam em terra – e cediam, por fim, estrebuchando até à morte.

Aquele junho, que costumava antever o verão quente de julho e as romarias de todas as Nossas Senhoras de agosto e setembro, era um mês de ceifa humana. As gosmas dos moribundos subiam-lhes pelas gargantas até às bocas em vómitos esverdeados com um cheiro nauseabundo. Quem não sufocava com a lama viscosa vinda das entranhas, sobrevivia mais um bocado com o peito a arder de tanto tossir e escarrar com a ajuda da heroica e magnânima Leocádia Ferraz, que ia auxiliando os atacados com sucessivas abluções de água a ferver.

Na casa que viria a ser do senhor Cartaxo, na Rua Direita, improvisou-se um pequeno e humilde hospital para onde traziam os desgraçados sem família. Muita dor se mitigou ali, muitos doentes morreram a ouvir palavras de esperança e sentido carinho. «O seu filho está a vir do Brasil, tenha calma.» «Claro que vai voltar a ver o mar, agora descanse um pouco.» «Nosso Senhor Jesus dos Navegantes não a vai abandonar.» Havia quem já nem ouvisse a frase completa.

Para os lados da Costa Nova, a noite ia alta, assim como os ais e os roncos de desespero que ecoavam pelas sombrias vielas dos palheiros. Quando não havia berros e choros, de doença ou de perda, ouviam-se vozes mais serenas e passos apressados de pescadores valentes que carregavam para as bateiras os corpos mortos dos flagelados, a fim de os transportar para a outra margem, onde ficam as Gafanhas e o cemitério de Ílhavo. Já indiferentes e automatizados pela tarefa, os homens firmavam os seus pés no ventre dos cadáveres empilhados para a remada ser mais forte. Tamanha era a descarga de força que, várias vezes, os corpos – uns ainda moles, outros mais hirtos – rebolavam para cima dos vivos a remar ou borda fora. Os que estavam mais no fundo da pilha assustavam quando, do nada, esgazeavam os olhos mortiços e nublados.

Com os pés na areia, seja a da Costa Nova ou das Gafanhas, o padre Fernando, tido pela comunidade como um santo levita, há muitos dias que não tirava a sotaina e o sobrepeliz, pois andava de povoação em povoação, fosse dia ou fosse noite, sem descanso, a abeirar-se dos doentes, a confessar este e a consolar aquela.

A 30 de junho, pela meia noite, viu-se a si mesmo no sul da Costa Nova, num miserável palheiro, a afagar com orações um pescador às portas da morte. A hora era já adiantada quando o antigo marítimo, com voz fraca, humildemente balbuciou: «Adeus, senhor padre Fernando...» E morreu.

De pé, no topo das dunas, o padre Fernando era uma estaca. A batina dançava, flutuava, livremente à sua volta por causa da aragem branda que vinha do sul, perfumada de maresia. Virado para o mar – que não não via, mas que sentia através da audição e pelas narinas –, tinha os olhos rasos de água e o coração oprimido. Com tristeza, mas ainda com mais fé, elevava a Deus os seus pensamentos, implorando a misericórdia da Senhora da Saúde, que, como cria o padre Fernando, nos céus velava a sua Costa Nova. E chorava a bom chorar, sozinho e sem timidez.

Subitamente, vindo do fundo, um barulho brusco cortou o silêncio – só ouvir as ondas também é estar em silêncio – e sacudiu a postura estoica do sacerdote. Numa correria trágica e rápida, esquecendo as lágrimas, salgadas como o mar que evaporavam da face, desceu a ladeira e travou à beira da luz duma candeia de azeite. Dois homens rodeavam um pestilento. Um amarelo de bílis escorria-lhe pelos cantos da boca ressequida pela febre. Suava muito. Num último ato de bondade, o padre Fernando sentou-se no chão e colocou a parte superior do corpo do doente no seu regaço, como se de um bebé se tratasse. Depois de ter respirado muito fundo e estremecido, a cabeça do enfermo tombou. «Levem-no, que está morto», disse o padre.

Os outros dois homens pegaram no defunto e levaram-no para a bateira mais próxima. Remaram para o outro lado da margem e, na Gafanha, já na zona da Mota, transladaram o morto para uma padiola. Um à frente e outro atrás, carregaram o corpo pelo antigo caminho de areia em direção a Ílhavo.

Os dois vivos, atrevidos pescadores labregos que pouco conheciam da sua própria terra, caminhavam silenciosos e abatidos em contraste com as extraordinárias façanhas que operavam no mar e que tantas vezes encorajou a ralé. Em cima dos possantes ombros, a maca rudimentar tremia e fez com que o morto se revirasse, descaindo-lhe uma das pernas. Para aliviar o fardo, pararam junto a uma mouteira de tramagueiras. Ambos fizeram um cigarro e, ao acendê-los, iluminaram sem intenção o rosto do morto.

«Parece que o homem abriu os olhos», disse um, ao que o outro respondeu: «Qual abriu nem meio abriu! Tu não ouviste o senhor padre dizer “levem-no, que está morto”? Antão está. Pega que se faz tarde, são duas horas.» «Põe-lhe a perna para cima», ordenou o primeiro.

Ergueram a padiola e continuaram a caminhar, atirando para o ar prolongadas fumaças dos cigarros que ainda duravam. Pesadas nuvens, que pareciam feitas dum negro veludo, encobriam um raquítico luar que, quando aparecia, esbatia a figura do morto na areia branca das dunas. Voavam aves agoirentas, chegavam rumores do mar, como alguém a gemer, mas nem uma casa ou uma luz se via, muito menos gente. Caminharam mais, a modos que sem rumo, pisando o solo, pé ante pé, com temor, através de um carreiro duvidoso até serem primeiro alarmados e depois paralisados pelo sino que dava meia hora para as três da madrugada. Estavam, sem saber, junto à ponte Juncal. Do outro lado, Ílhavo.

Passaram a ponte e seguiram pelo estreito e delgado caminho da Barquinha, descendo depois o pequeno declive do Outeiro. Numa encruzilhada, viram-se novamente indecisos, sem saber por onde ir. «Ó que diacho! Qual será o caminho pró cemitério?»

Erguendo a cabeça na escuridão e apontando com a mão direita, o morto respondeu: «Quando eu era vivo ia por aqui, agora que sou morto, levem-me por onde quiserem!» E levaram, sem ais nem uis, seguindo a indicação do morto com vida…

Encontrado o cemitério, aí se abriam profundas covas, como é costume em tempo de epidemia. Numa espécie de vala comum, sepultavam-se três, quatro ou mais cadáveres. Trabalhava-se todo o dia e toda a noite.

O homem da padiola que os dois pescadores da Costa Nova julgavam morto, mesmo depois de ter falado, foi estendido num robusto caixão de pinho e este lançado para uma sepultura onde já se encontravam outros dois. E nem uma lágrima, nem sequer uma reza. Só trabalho.

O coveiro, um tisnado e forte adulto rapagão, a quem a cólera parece não ter atingido, atirou-se à enxada e começou a lançar pazadas de terra vermelha, em contraste com a areia clara das praias ali tão perto, para cima dos caixões. A manhã rompia quando o coveiro alisava a campa improvisada. Retirou-se. Exausto, atirou-se para cima duma velha lousa, que certamente iria ser usada para tapar uma sepultura mais requintada, e adormeceu.

Tinham passado quinze dias, e a cólera tendia a desaparecer. O povo ilhavense, agora mais animado, juntava-se no adro da igreja a dizer preces e louvores em direção ao céu, agradecendo as melhorias ou a pedir que isto não voltasse a acontecer. Dali seguiam para o cemitério, para se chorar a perda dos entes queridos. Muitas pessoas não encontravam as sepulturas dos que muito amaram devido à quantidade de inumações desorganizadas que tinham acontecido nos últimos tempos, o que redobrava de amargura a sua profunda dor.

Entretanto, o coveiro-vígia, no cemitério em permanência, vinha notando há dias que, da cova onde se enterrou o da padiola, surdia por vezes um ruído vago e estranho, como um som de assobio fraco, à semelhança do sibilar do vento em ciprestes. «Que diabo seria aquilo?», cismava, franzindo a testa.

Certa manhã, a sua curiosidade já demasiado espicaçada, levou-o ao local em concreto. Deitou-se de bruços sobre o coval e colou o ouvido à terra. Agora, depois do cisma, não lhe restavam dúvidas: alguém falava baixinho. E ouvia soquear em tábua.

«Quem quer que seja, está aos murros no caixão», pensou o coveiro-vígia. E, de repente, com vigor, o morto gritou: «Eh gente! Eh de cima!» O coveiro deu um salto, tomou ar com o sobressalto, os cabelos ficaram eriçados como a rama de vassoura e, atirando o chapéu com violência, tornou a deitar-se, encostando o ouvido ao chão e berrando assim:«Eh de baixo! Quem chama é gente, ó quê?!»

«Eh! Jaquim Salimo, sou eu, homem! Então eu fico aqui eternamente?! Olha que já se me acabou hoje a broa de pão que trazia no bolso!», respondeu o morto, que afinal estava vivo.

Sem mais palavras, o de cima, vivaço e com pressa, pegou na enxada e, com a fúria de um leão ferido, começou a cavar até chegar à tábua. Nervosamente, com o olho da enxada deu tamanha pancada no caixão que as tábuas superiores saltaram em bocados.

Vagarosamente, pachorrentamente, o suposto morto esfregou os olhos, saltou dum pulo para cima e, agarrando-se ao Salimo, deu-lhe tal esticão às costelas que este, aflito e sem ar, resmungou: «Eh ti Salvador, parece que nem esteve quinze dias sem comer! Anda daí beber um quarteirão de aguardente, homem!»

E lá foram os dois, de braço dado, para a loja da ti Calçoa.

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Nota

O texto original (que não este – já lá vamos), assinado simplesmente por Jorge Manuel, foi publicado na edição de 14 de maio de 1922 do jornal “O Ilhavense”, sendo escrito em post-scriptum que “correu fama este facto” do morto-vivo e “houve nesse tempo quem risse e quem chorasse”. Sabe-se também que no ano da publicação, 66 anos depois da suposta ressurreição, ainda existia a casa onde habitou o ti Salvador, precisamente na Viela do Salvador, em Ílhavo. Após breve pesquisa toponímica, podemos dizer quase com certeza que o nome da viela, localizada perpendicularmente à Rua Serpa Pinto, nada tem a ver com o ti Salvador, existindo pelo menos desde o Séc. XVIII. Sabe-se ainda que a casa do morto-vivo ficava em frente à antiga habitação das tias Angélicas.

Terra de muitas histórias sobre o mar – umas escritas, outras transmitidas oralmente –, esta do morto-vivo contrasta com essa corrente, sendo uma das poucas lendas, ou estórias para ser mais correto, relacionadas ao terror e que está publicada de qualquer forma, neste caso num jornal.

Amante deste tipo de historietas, usando muito disto como inspiração para os meus livros anteriormente editados, decidi pegar no texto original e, sem mudar o rumo do enredo, dar-lhe mais corpo num formato mais livre que não esteja encurralado no espaço que uma página de jornal permite. Se me julgo no direito de o fazer, esse é outro assunto que penso não arreliar ninguém, muito menos os meus conterrâneos ilhavenses, que são, ainda assim e muitas vezes, propensos a arreliações imaturas.

No fundo, este é um exercício de adaptação que há muito desejava fazer. Tomei a liberdade de adicionar alguns momentos de ação ou de paisagem emocional, assim como também pretendi utilizar expressões e estruturas frásicas presentes no texto original. Pensei até em aumentar o final, deixando no ar, por iniciativa própria, que hoje, em 2024 e nos anos vindouros, ainda se ouve o ti Salvador a andar pela viela, a rir-se da sua ressurreição e talvez a enxotar a morte, a gozar com ela. O que é certo é que, apesar de alguma piada que isso poderia trazer, não é o que se conta por Ílhavo; portanto preferi ser mais tradicional em relação ao escrito de 1922 e deixar como está, com um final infantil e patético, não no sentido da estupidez mas no da inocência e sem maldade – afinal, alguém morreu, ressuscitou ao fim de quinze dias e, sem perguntas, segue-se para a loja da ti Calçoa emborcar uma aguardente.

Por fim, acho também fascinante como o relato começa pesaroso e termina comicamente, como se isto fosse uma alegoria aos tempos conturbados da cólera que atacou no Séc. XIX, como se esta lenda, ou estória, fosse naquela altura o #VaiFicarTudoBem dos nossos tempos.


(19/09/2024)