quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Valfar, ein Windir - Filho de Sogndal

Terje “Valfar” Bakken
03/09/1978 – 14/01/2004


«Crescemos perto um do outro, éramos os melhores amigos, fazíamos tudo em conjunto para além da música. Éramos muito próximos», recordou Jarle Kvåle, baixista de Windir e Vreid. Falava, portanto, de Valfar, nascido Terje Bakken em 1978, no município de Sogndal, Noruega.

Profundamente apaixonado por música – com gostos que iam do heavy metal ao folclore, passando por eletrónica –, pela tradição da sua terra e pelas sagas heroicas dos seus antepassados, fez nascer, ainda na adolescência, a sua banda black/folk metal de um homem só: Windir.

Apesar de rodeado por amigos, com quem tocava versões de Metallica e Slayer e com quem ouvia as novidades da época, como Darkthrone e Enslaved, Valfar preferia mais o seu quarto, o seu computador e as suas composições do que a sala de ensaio, onde se encontravam os companheiros, que, na altura, tinham a sua banda Ulcus. Nem mesmo as notícias alarmantes que chegavam de Oslo e de outras partes da Noruega, como os incêndios de igrejas e homicídios, lhes tirava o foco, conforme assinalou Jarle: «Nunca fizemos parte de uma cena, nem estávamos em grande contacto com outras bandas, éramos mais fechados.» E foi assim que, no seu território inviolável, com um programa de computador primitivo, Valfar compôs os dois primeiros álbuns de Windir: “Sóknardalr” (1997) e “Arntor” (1999).

«O Valfar cansou-se do metal durante uns tempos», revelou Jarle, «fez música eletrónica, mas depois voltou a sentir a necessidade. Falámos em sair das duas bandas para criarmos algo novo. Pensámos nisso durante um tempo, mas depois decidimos que fazia mais sentido se uníssemos forças em Windir». Assim, seguiu-se “1184” (2001) e “Likferd” (2003), sendo este o último trabalho do grupo.

A 14 de janeiro de 2004, Valfar foi a pé até à cabana da família, em Fagereggi, e nunca mais regressou. Três dias depois, o seu corpo foi encontrado em Reppastølen, no vale de Sogndal. Nessa caminhada, o jovem pioneiro, que cunhou o seu estilo de música como sognametal, foi surpreendido por um clima adverso e o seu corpo não resistiu – a hipotermia levou a melhor. Tinha 25 anos. Sepultado a 27 desse mês, os Windir terminaram oficialmente em março. «Foi um choque total e fomos parar a um sítio completamente negro. Perdemos o nosso melhor amigo, foi como perder um familiar. Decidimos imediatamente que não podíamos continuar Windir sem ele, não fazia sentido», confessou Jarle.

A derradeira aparição da banda aconteceu a 3 de setembro de 2004, dia do aniversário de Valfar, num concerto de homenagem ao amigo, com a participação do irmão Vegard como vocalista em alguns temas e de bandas como Enslaved, Finntroll, Notodden All Stars, Weh, E-Head e Mindgrinder. Para além do DVD “Sognametal”, que eterniza esse último espetáculo, o legado de Valfar pode ser também encontrado na compilação “Valfar, ein Windir”, que inclui uma seleção de músicas suas e versões interpretadas pelas bandas que lhe prestaram tributo pela última vez naquele concerto em Oslo.

Jarle Kvåle, Sture Dingsøyr e Jørn Holen continuaram as suas carreiras, tendo fundado Vreid em 2004. Stian Bakketeig só se juntaria à nova banda em 2010. À data, os Vreid continuam no ativo, têm vindo a lançar discos desde a sua fundação e nunca esqueceram o amigo Valfar: no tema “Into the Mountains”, do álbum “Wild North West” (2021), pode ouvir-se um trecho em teclado gravado por Valfar em 2002.


(As citações foram recolhidas do meu arquivo pessoal, sendo originais de uma entrevista antológica publicada na Metal Hammer Portugal em 2021.)

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Evangelho da Infância segundo um Ateu

«É por estes miseráveis que vais morrer?»


Era uma criança. Os dentes de leite há pouco tempo tinham caído e o corpo magricela ainda só agora começava a ganhar algum músculo. A proteção zelosa do pai irritava-o, o carinho da Mãe enternecia-o e os mestres deixavam-o impaciente, porque sabiam juntar as letras para formar palavras mas não lhe conseguiam explicar o seu significado profundo e mágico, como ele achava que devia ser. O Rapaz caminhava como uma criança, mas falava como um Homem, e quando os olhos se transformavam em buracos negros, com uma profundidade hipnótica, crescia à sua volta uma aura aterrorizante.

A sua melhor amiga era a Rapariga com cabelo de menino, voz grave, corpo sujo e maltrapilha. Ninguém fazia caso de si, movendo-se silenciosamente e com olhares de soslaio por entre as pessoas. Tinha cicatrizes finas, mas salientes, nas bochechas e na testa, que lhe davam um ar reptiliano. Também tinha algumas no pescoço, que se mexiam furtivamente como parasitas sob a pele emporcalhada. O Rapaz e a Rapariga estavam pouco tempo juntos e mal falavam, mas encontravam-se todos os dias. Num desses momentos, ela disse que queria mostrar-lhe uma coisa. Caminharam e caminharam, afastaram-se da aldeia em direção a um vale atulhado de leprosos. O ar tresandava a dor e doença. O Rapaz nunca ali tinha estado. Não desceram as ribanceiras, apenas ficaram no topo a observar. Várias vezes, a Rapariga olhou lá para baixo e depois para o Rapaz. Um sorriso malicioso para os leprosos, um olhar inquisitivo para o Rapaz. «O que farias a toda esta gente?», perguntou a Rapariga. O Rapaz manteve o silêncio e a contemplação.

No regresso, a poucos metros de onde estavam antes, depararam-se com um leproso a dormir à sombra. Agacharam-se para ver de perto as gretas com pus e a carne podre do moribundo. Devagarinho, a Rapariga aproximou a sua mão à cara do doente, mas sem nunca lhe chegar a tocar. Uma e outra vez, e ria-se, a fazer troça. O Rapaz não percebia a intenção. «É um jogo. É para vermos o quanto nos conseguimos aproximar sem lhe tocar. Experimenta!», incentivou a Rapariga. O Rapaz, a medo, experimentou. Uma e outra vez. À terceira, a Rapariga empurrou-o para cima do leproso, gargalhou muito alto e fugiu a correr.

Quando o Rapaz retornou à aldeia, já toda a gente sabia que ele tinha tocado num leproso. Tornar-se-ia maculado, ou assim vaticinaram. O pai arrastou-o à força até ao rio e lavou-o durante horas.

O pai não permitiu que o Filho dormisse em casa, no quarto partilhado também com a Mãe, e trancou-o num casebre de madeira a cair aos bocados. «Não me deixes aqui!», suplicou o Rapaz, mas sem efeito.

Já noite, sentado em palha, no centro do casebre, enquanto olhava para a porta trancada, sentiu uma mão tocar-lhe no ombro e deu um salto assustado, colocando-se imediatamente de pé. «Curaste-me! És divino! És divino! Curaste-me!», disse-lhe um homem ininterruptamente, baixinho e com urgência. Eis o leproso, que já não o era.

O Rapaz e a Rapariga continuaram a fazer outros jogos. Ela esmagava grilos e ele voltava a dar-lhes vida, ela arrancava as asas das abelhas e ele voltava a fazê-las voar, ela fazia com que víboras mordessem as ovelhas e ele depurava os animais que voltavam ao rebanho depois do atordoamento.

Ainda assim, a benevolência do Rapaz tinha limites.

Mestre atrás de mestre expulsava o Rapaz da sua escola, pois perdiam a paciência com ele. Mestre atrás de mestre simplesmente desaparecia. Um deles morreu mesmo sobre a mesa onde ensinava depois de ter dado um tabefe ao Rapaz quando este recusou ler a mesma coisa pela terceira vez consecutiva. O mais paciente de todos também acabou por perder a compostura, arrastando o Rapaz por uma orelha até à sua casa. «Não consigo mais! Põe em causa tudo o que lhe ensino! Faz perguntas que não deve fazer e que os mortais não sabem responder!», gritava o educador enquanto entregava o Rapaz ao pai.

Na manhã seguinte, aquele mestre apareceu à porta da casa do Rapaz. Movendo-se de quatro, a arfar como um cão, com a língua de fora, a transpirar profusamente e com uma mão agarrada à barriga, implorava: «Liberta-me desta aflição! Não quero mais aqueles pesadelos! Salva-me!» Apenas com um pestanejar do Rapaz, o professor voltou ao normal. Foi embora, nunca mais ninguém o viu, e tanto o pai como a Mãe não souberam deste episódio.

Certo dia, o Rapaz abriu pequenos canais à volta de um riacho e encarreirou as águas pelas suas pequenas e toscas construções com o poder da voz, falando baixinho sem mais ninguém o ouvir. Um outro menino da mesma idade, com um espírito inclinado à traquinice com laivos de inveja, decidiu destruir os canais de água com pontapés e saltos. Os olhos do Rapaz transformaram-se naqueles buracos negros sem fundo e falou: «Como uma árvore velha, vais murchar e secar.» O peito do menino travesso implodiu como se todo o ar lhe tivesse sido sugado dos pulmões, o corpo emagreceu instantaneamente até ao ponto de ficar a pele colada ao osso, e tombou. O Rapaz restaurou os canais e, novamente com a força da palavra, as águas pelos canais se moveram.

Numa outra tarde solarenga, o Rapaz e os vizinhos andavam em frenética correria. Os dias eram longos e as brincadeiras prolongavam-se. Uma das crianças, pouco mais velha, achava que comandava o grupo e tinha propensão a pregar rasteiras aos mais indefesos. O Rapaz não estava a gostar da brincadeira, mas por ali se mantinha a correr com os outros, até que ele próprio foi posto ao chão. Quando o Sol começou a querer ir embora, o adolescente opressor afastou-se para também ir embora. O Rapaz nunca tirou o seu olhar das costas do rival. Um, dois, três passos e caiu.

Inocentes e de memória curta, os outros meninos acudiram, colocando-se à volta do inanimado. Correram dali para fora a chamar ajuda, deixando-o sozinho no meio da erva. O Rapaz nunca abandonou a sua posição. O crepúsculo já se acentuava quando os pais do menino desmaiado se acercaram dele. Pálido, cheio de sede e com expressões faciais transtornadas, regressou do inexplicável esmorecimento. Nunca mais falou e nunca mais caminhou.

Em segredo, o Rapaz escapava-se do olhar severo do pai e do abraço quente da Mãe para, durante longas manhãs, se distanciar do aldeamento. Por outras bandas, reavivou as terras inférteis de um pobre agricultor, pôs um cego a ver e libertou um coxo da sua bengala.

Num daqueles dias da semana em que é proibido executar tarefas, em que somente é permitido orar e jejuar, o Rapaz foi apanhado a moldar pequenos pássaros em barro junto ao riacho. No preciso momento em que os dois idosos, que o apanharam a fazer aquilo, viraram costas para irem informar o pai daquele desrespeito, o Rapaz disse: «Voem!» E os pássaros de barro ganharam vida. Chilreantes e irrequietos, voaram.

Quando o pai chegou ao pé do Filho, nada vira do que lhe contaram. As mãos do Rapaz estavam enlameadas e os passarinhos voavam à sua volta. Temente, apreensivo e sem saber no que acreditar, o pai aprisionou o Rapaz no casebre como castigo. Naquela noite não iria dormir em casa e teria compridas horas para orar e pedir perdão fosse pelo que fosse.

«Já acreditas?», perguntou a Mãe ao marido. O homem retorquiu: «Cuidado, mulher! Criei-o como se fosse meu, sabendo que não é! Protejo-o desde sempre! E partilho este teto com uma impura!» «Acredita! Por uma vez na vida, acredita! Foi-nos enviado!», chorou a Mãe.

Durante a madrugada, a Rapariga destrancou a porta do rudimentar casebre e levou o amigo pela mão. Caminharam noite dentro, sem ponta de luar, e adormeceram entre arbustos, sem nunca terem trocado uma palavra.

Quando as primeiras luzes começaram a despontar, a trespassar as copas das árvores, ambos acordaram e o Rapaz disse: «Estou farto do meu pai.» A Rapariga, sem demora ou prevenção, atirou: «Aquele não é o teu pai. O teu verdadeiro Pai está ali.» Apontou para o céu. E acrescentou: «Tu sabes quem é o teu Pai desde que nos conhecemos, soubeste-o quando começámos a fazer aqueles jogos.» O Rapaz assentiu com humildade.

«Reinemos juntos», pediu a Rapariga.

De seguida olhou para o céu, ergueu os braços e as suas cicatrizes moveram-se incessantemente, em rodopio por todo o corpo. Naquele firmamento abriu-se uma brecha e de lá caíram, para um outro buraco feito no chão, seres pestilentos e infelizes de todas as maneiras e feitios: paralíticos, cancerosos, cegos, mudos, surdos, loucos, ladrões, assassinos, pobres ignorantes e ricos gananciosos. Aos milhares, no chão contorciam-se entre si, como insetos desorientados, uns em cima dos outros.

«Tens medo do que te vai acontecer quando chegar a hora?»,
questionou a Rapariga.

«Não», respondeu o Rapaz.

A Rapariga fez nova pergunta: «É por estes miseráveis que vais morrer?»

«Assim quer o meu Pai», disse o Rapaz serenamente.

A Rapariga rogou:
«Liberta-te!
Povoemos a Terra com a nossa força e grandeza!
Eu tiro, tu dás, eu destruo, tu renovas!»

«Não cairei em tentação.
Vaguearás por este mundo eternamente.
Com essas cicatrizes, todos saberão quem és
e quanto pavor espalhas sem misericórdia.
Eu passarei a existir nos corações dos bem-aventurados,
uma porta aberta para os párias e apátridas,
para os incompreendidos e para os desajustados».

«Não!», gritou a Rapariga enquanto puxava o braço do Rapaz
entre lágrimas de soberba e revolta.

O Rapaz levantou-se e falou:
«Sofrerei.
Se eu não morresse como vou morrer,
quem vos crucificava era eu.»

E foi embora.