álcool
e medicamentos
depravação
sexual e ansiedade
sangue
e cicatrizes
Lifelover veio ao mundo em junho de 2005. O vocalista
Kim “( )” Carlsson e o guitarrista Jonas “B” Bergqvist
conheceram-se, embebedaram-se, começaram a compor música, gravaram
e divulgaram imediatamente material de promoção repleto de sons
ambiente e guitarras soltas –
a miséria improvisada que lhes toldava as mentes.
O primeiro
álbum “Pulver”, gravado entre abril e maio de 2006 e lançado
logo em julho seguinte, seria tido posteriormente como um disco
pioneiro. Ainda que o estatuto de criadores do black metal depressivo
possa estar reservado aos também suecos Shining, fundados por Niklas
Kvarforth em 1996, não é de somenos sublinhar a importância dos
Lifelover neste campo mais obscuro de um subgénero musical já de si
negro, pois a base black metal era trespassada por melodias alegres,
a fazer lembrar pop, deixando quem ouve num estado de confusão e
perplexidade. A ideia era muito simples: mais do que possivelmente
ridicularizar o estilo musical, era objetivo suavizar,
ridicularizando – passo a redundância –, problemas do foro
mental, como a depressão. E embora algumas músicas, como a famosa
“M/S Salmonella”, tivessem essa tal toada (pseudo)alegre, as
letras eram um tratado à depravação sexual, à decadência urbana,
ao suicídio, aos medicamentos, ao álcool e às drogas – daí ter
surgido o termo “narcotic metal”. Depois há ainda a icónica
capa: a mulher, Eleanor, nua e ensanguentada, rodeada por primaveris
anémonas-dos-bosques.
A sátira –
que começava logo no nome, com B a revelar que a ideia surgiu de um
homem que lhe chamou «amante da vida», possivelmente devido às
aventuras alcoólatras e medicamentosas – prosseguia e passava
eficazmente dos discos para os palcos, com Kim Carlsson, banhado em
sangue e cravado de cicatrizes, a fazer danças inocentes e joviais,
ou com o uso de chapéus de cowboy adornados por pelinhos e luzes a
contrastar de maneira alarmante com a negritude sonora.
Na
discografia seguir-se-ia “Erotik” (2007), “Konkurs” (2008), o
EP “Dekadens” (2009) e “Sjukdom” (2011), até que, sem
saberem, deram o último verdadeiro concerto a 26 de agosto de 2011,
no restaurante Boules & Tapas, em Estocolmo. «Por que é que um
restaurante que tinha um estranho nicho de boule e tapas recebeu a
maior banda de desajustados do mundo, nunca saberemos», escreveu o
guitarrista Henrik “H.” Huldtgren, dez anos depois.
Cerca de
duas semanas após essa noite, os Lifelover anunciavam pela internet
que «na sexta-feira de manhã, 9 de setembro, B não acordou do seu
sono». Dado que se sabia que B sofria gravemente de ansiedade, tudo
aliado à galvanização da morte, os fãs suspeitaram de overdose
acidental ou até mesmo de suicídio. Não estavam completamente
errados: se por um lado foi provado que B não tirou a própria vida
de forma violenta, por outro a autópsia revelou «envenenamento e
overdose».
Falecido
aos 25 anos, foi também partilhado numa rede social que B tomava
Benzodiazepinas desde os 18, sendo a teoria da família a seguinte:
«Acreditamos que uma vez que o corpo se adaptou à medicação, ele
tomou doses cada vez mais altas e talvez tenha tomado um ou dois
comprimidos a mais. O corpo também piora no processamento dos
medicamentos com o tempo, então a “dose normal” pode ser mortal
quando tomada durante muitos anos.»
Nesse mês
de setembro, os restantes membros de Lifelover puseram fim à banda,
porque era «o correto a fazer-se, considerando que B era o principal
compositor» e que «estes últimos dias têm sido muito difíceis
para nós e para toda a gente que conhecia o B».
A editora
alemã Prophecy Productions também se juntou às vozes enlutadas ao
deixar claro que «Jonas não era apenas um artista muito criativo,
mas também uma pessoa simpática e entusiástica», sublinhando
ainda a «sua paixão e a sua linguagem musical única».
Em
oposição, a Avantgarde Music utilizou o momento penoso para lançar
farpas menos positivas. Apesar da maioria das memórias ser «boa»,
a editora italiana classificou os Lifelover como «irrequietos,
frustrados e insatisfeitos». Terem lançado cinco trabalhos através
de cinco editoras foi para a Avantgarde Music algo que «significa
não terem planos, não terem direções e não terem expetativas
objetivas».
Falar dos
mortos é fácil, e para algumas culturas é até desrespeitoso, mas
a editora não se deixou ficar ao escrever que os «Lifelover eram
demasiado inconsistentes quando se tratava de todas as atividades
para além de compor e gravar música: queixavam-se da falta de
promoção, mas não eram capazes de responder a três entrevistas em
três meses... Ou a história engraçada sobre a t-shirt de
“Konkurs”: exigiram merchandise e depois queixaram-se que
tínhamos lançado uma t-shirt falsificada – a t-shirt sobre a qual
assinaram um contrato e que o próprio B tinha concebido, e cujos
ficheiros de Photoshop ele me tinha enviado pessoalmente por e-mail
umas semanas antes. Isto diz muito do mundo ideal/irreal –
fantástico/caótico de Lifelover. Tão verdadeiro na sua
incongruente existência».
E quando
podemos ainda esperar por uma palavra mais amigável naquela hora de
perda, já que algumas memórias até eram boas, a editora revela que
sempre achou que «eles não iriam longe com a sua carreira»,
terminando com: «Triste, mas verdade. Tão verdade que esta morte
não me surpreendeu de todo. Parece-me que estava tudo escrito nas
estrelas, desde o início... Bon voyage B e respeito pelo Kim
e pelos outros rapazes se realmente acabarem com a banda.»
Os membros
sobreviventes viriam a formar Kall em 2012. Kim Carlsson também
continuaria em paralelo com Hypothermia, formados em 2001, que até
já passaram por Portugal. Voltariam a reunir-se em palco como
Lifelover em 2015, de modo a assinalarem os 10 anos da sua primordial
fundação, com concertos no conceituado Prophecy Fest na Alemanha,
depois nos Países Baixos, em Inglaterra e, por fim, no Canadá.
À data da
publicação deste texto, durante o ano de 2025, os Kall subiram a
vários palcos europeus para interpretarem músicas de Lifelover –
uma exigência constante dos fãs e que a banda tem, pontualmente,
garantido.