quarta-feira, 22 de julho de 2026

Saudades da Galiza...

...d’A Coruña; de Tebra; da La Gata Manda; d’A Cabana; dos gatos ao pé do aeroporto; da viagem de carro com a Cassie, que ouviu as minhas gotiquices; de termos descoberto a estação de rádio Los 40 Dance e de ficar essa a expressão como mote para tudo e todos os momentos; dos Hazing Lungs; da cara confusa do Bongas quando lhe disse que era o mais bonito da banda e que ia dormir com ele se não encontrasse antes uma galega; da paixão repentina e fugaz pela Bea, que voltei a ver por duas vezes meses mais tarde; dos Cruzeiro, que voltei a ver por uma vez meses mais tarde; das carnes grelhadas na La Gata Manda; dos concertos dos Hazing Lungs e dos Cruzeiro; da Bea começar a falar para mim do nada durante Hazing Lungs e eu não perceber patavina porque barulho e castelhano não conjugam; da música que os Hazing Lungs me dedicaram por eu não gostar dela e que afinal passei a gostar; de quem falava galego; da espanhola que se estava a fazer a mim nas barbas do namorado; da simpatia do namorado dela; dos dez minutos que passei com a Bea, praticamente calados, no banco de trás do carro da Cassie, a pensar que ela vinha passar o resto da noite connosco;

da mansão quasi-abandonada, com salas, salinhas e salonas, onde dormi com o Bongas dum lado e o Abrantes do outro; dos snacks e da cerveja que estavam à nossa espera nessa casa; de dançar Covenant às quatro da manhã; de dizer que não me ia foder todo na primeira noite e afinal era o mais bêbado; de explorar o casarão; de fazer uma tour matinal pela mansão e filmar, para mandar à Ingrid, para ela ver que eu não estava a mentir; da piscina, que com tanto verdete já tinha em si criado um novo microcosmos, e do campo de basket, decrépito e a fazer lembrar filmes de terror; de uma das casas-de-banho da moradia, que era alcatifada e tinha um rádio embutido na parede (que não funcionava) e uma campainha; do pequeno-almoço com bolo doce de Vale de Ílhavo e Um Bongo; do Abrantes se lembrar que queria tomar banho no preciso momento em que estávamos a sair para ir almoçar; do Zé não esperar por nós e arrancar mesmo com a Cassie a ter acabado de dizer para esperar porque eu tinha de fechar o portão da mansão; das selfies com o Coutinho, só por irmos despejar o lixo ao ecoponto mais próximo; das conversas com o Coutinho; do passeio pelo forte militar no meio da água, n’A Coruña; da propaganda anti-regime-central de Madrid colada nas paredes e escrita em galego;

da viagem entre A Coruña e Tebra, confortável no banco de trás do carro da Cassie, meio ressacado, meio relaxado; das estradas no meio do mato a chegar a Tebra, que nem sei como o GPS as reconhece; de ouvir Scooter nessas mesmas recônditas estradas; do cheiro de Tebra; do cheiro do mato que envolvia A Cabana; das flores cor-de-rosa que caíam de uma árvore; de finalmente ter-me reencontrado com a Super Bock; de ter conhecido o Moura; da hospitalidade do Moura; do chavalo chapado dos Deadworms; do outro chavalo dos Deadworms que não viveu o boom do post-hardcore mas adorava a cena e as histórias que lhe contei sobre isso; dos Deadworms; da cara surpreendida do galego quando eu disse que já tinha cagado cinco vezes naquele dia; da decoração da casa-de-banho d’A Cabana, com as paredes vestidas de revistas parolas dos 90s e cartazes de romarias populares; do retrato de Buenaventura Durruti pendurado n’A Cabana; das carcaças de animais a secar, ainda com bocados de carne putrefacta; das conversas sem fim, regadas a álcool e alimentadas por substâncias várias, na esplanada d’A Cabana depois dos concertos de Deadworms, Cruzeiro e Hazing Lungs; do cão muito velhinho que se arrastava com grande dificuldade; do cãozarrão que andava por lá e nos alertava de qualquer barulho no mato, para nos proteger; de me deitar às quatro e tal da manhã e às sete fazer uma curta caminhada com o Coutinho, a levar com a brisa matinal na venta; de voltar a adormecer na tenda, que se sentia tão confortável; de almoçar atum e salsichas com a Cassie à beira da tenda; de fazer palavras-cruzadas e contemplar a paisagem verde; de passar duas ou três horas em silêncio, no meio do monte, sem nada para fazer;

da viagem de volta, sempre nas calmas; de termos encontrado o Red no Porto; de termos jantado todos juntos (eu, Hazing Lungs, Cassie e Red); do Benfica ter ganhado ao Sporting, mesmo que o jogo já não contasse para praticamente nada; de chegar a casa cansado; de tomar banho; de relaxar; de recordar tudo o que se passou naqueles últimos três dias; de me ver ali convosco.

sábado, 18 de julho de 2026

Quem diz a verdade não merece castigo

Já se escreveu ou fizeram filmes sobre sociedades em que não se conhecia o conceito de mentira ou que toda a gente votou em branco ou que a morte tirou férias e ninguém morreu, mas nunca se escreveu ou fizeram filmes - que eu saiba, porque nunca li todos os livros, nem vi todos os filmes, nem nunca lerei, nem nunca verei - sobre a estupidez da verdade e a sua recompensa, qualquer que seja o antecedente.

Pois que haverá uma sociedade em que a honestidade anda de mão dada com a estupidez, e toda a verdade, seja ela qual for, será recompensada.

Um homem saiu de casa todo ensanguentado e com uma enorme faca na mão. A sua família, lá dentro, estava morta. Foi preso e levado a tribunal.

Juiz: Como se declara o réu?
Réu: Culpado.
Juiz: Então, é verdade que matou toda a sua família?
Réu: É verdade.
Juiz: Ilibado. Pode sair em liberdade.