Banda de rock industrial e eletrónico, os Laibach fundaram-se em junho de 1980.
Laibach é, antes de tudo, o nome ancestral de Ljubljana, a capital da Eslovénia, e por mais antigo que seja, remontando à Idade Média, a designação da banda está ligada à ocupação nazi do país durante a II Guerra Mundial. Em 1980, a Eslovénia ainda fazia parte da Jugoslávia, um super-estado comunista, e o nome da banda aliada à sua postura militarista e autoritária não conjugava muito bem com aquela sociedade. «Escolhemos esse nome exatamente pelo seu conteúdo problemático, explosivo e conflituoso», disseram numa entrevista.
A postura e a atitude ainda atiçava mais a fogueira. Ambiguamente, os Laibach sempre se rodearam de parafernália militarista e autoritária, nunca se sabendo ao certo que tipo de ideologia defendem. O truque está aí: a banda defende a sua própria ideologia, criada artisticamente para subverter o país de origem e depois o mundo. O seu Estado ficou conhecido como Neue Slowenische Kunst (NSK), uma soberania abstrata com o seu próprio manifesto e passaportes, uma região intelectual que justapõe música rock, industrial e hínica, arte Dada e Suprematista (movimento fundado pelo russo Kazimir Malevich), e imagética da Alemanha nazi misturada com a da Jugoslávia comunista. Confuso? Imagine-se então na década de 1980... Para o célebre filósofo marxista Slavoj Žižek, «a singularidade do NSK é a ideia do ‘Estado sem Estado’», disse à BBC em 2017.
As letras, essas não vão por um caminho diferente. Uma das suas músicas mais famosas intitula-se “Tanz mit Laibach” (“Dança com Laibach”), do álbum “WAT” (2003), e numa das estrofes pode ouvir-se: «Dançamos com Ado Hinkel / Benzino Napoloni / Dançamos com Schiekelgrüber / E dançamos com Maitreya / Com totalitarismo / E com democracia / Dançamos com fascismo / E anarquia vermelha». Tão específico como, novamente, ambíguo. Anos mais tarde, em 2014, lançaram o fabuloso “Spectre”, um álbum em que aprimoraram a sua ala pop e em que, outra vez, deixaram ao sabor da maré aquilo que defendem politicamente ao criarem um conceito estatal anticapitalista que tanto pode apelar a comunistas como a nacionalistas – o que irrita toda a gente, de um lado e do outro. Ainda assim, no website oficial da banda, na secção Volkskunst, onde é partilhada a arte dos fãs, encontra-se uma peça com símbolos antifascistas em que se pode ler “Antifascist Action – Laibach”.
Mas regressemos aos anos 1980. Milan Fras pode ser a cara mais reconhecida em Laibach pela sua pose reta e voz profunda, mas, e antes de ser quem é, houve alguém ainda mais extremo: Tomaž Hostnik. Co-autor do manifesto e escritor da “Apologia Laibach” (uma versão poética do referido documento), Tomaž (ou Ivo Saliger quando sob pseudónimo) teve uma das mais memoráveis atuações no festival Novi Rock, em Ljubljana, em setembro de 1982, quando surgiu a envergar um uniforme do exército jugoslavo e com grandes parecenças a Slobodan Milošević, que ascendeu ao poder anos mais tarde. Durante o concerto, uma garrafa foi-lhe arremessada, cortando-lhe a face, mas foi até ao fim.
O seu último concerto aconteceu a 11 de dezembro, em Zagreb, Croácia. A 21 de dezembro, Tomaž suicidou-se num ato ritualista, enforcando-se num dos mais poderosos símbolos nacionais eslovenos, o kozolec (uma espécie de palheiro facilmente encontrado na Eslovénia). Entretanto retirado, no website da banda esteve escrito: «Laibach reprovou o seu ato de suicídio e postumamente expulsou Hostnik do grupo, fazendo-o regressar à sua identidade privada.» Os Laibach continuam a referir Hostnik, que, imutavelmente, faz parte da sua história.
Em abril de 1983, os Laibach recomeçaram as atividades e, com isso, mais uma tempestade de polémicas. Depois da cobertura mediática aos concertos com os ingleses Last Few Days e 23 Skidoo, os Laibach sabiam que tinham de elevar a fasquia. Mais uma vez em Zagreb, numa atuação que ficou conhecida como “Mi kujemo bodočnost” (“Nós construímos o futuro”), a banda projetou simultaneamente pornografia e o filme “Revolucija še traja” (“A revolução continua”). Pior: o grupo acabou por ter que sair do palco quando um pénis foi projetado ao mesmo tempo que o falecido líder da Jugoslávia, Josip Broz Tito. Os Laibach seriam banidos.
Esse desterro fez com que se fixassem noutras zonas, como o Reino Unido, onde, para além de trabalharem em tudo o que desse para trabalhar, começaram a conquistar o submundo global. Participaram no filme “Full Metal Jacket” de Stanley Kubrick, gravaram para John Peel, assinaram pela Mute Records e galvanizaram-se com versões – ou subversões – de temas como “Life is Life” (Opus), “Let It Be” (The Beatles) ou “Sympathy for the Devil” (The Rolling Stones).
Super-estrelas do submundo, os Laibach, que já passaram várias vezes por Portugal, foram parar à Coreia do Norte em 2015, para participarem nas comemorações dos 70 anos da libertação do poder japonês. Isto resultou em dois concertos, numa menção no mundialmente famoso “Last Week Tonight with John Oliver” e no alucinado documentário “Liberation Day”.
A banda comentou: «Os norte-coreanos não sabiam nada sobre nós até a algumas semanas antes de chegarmos, quando alguém da Europa os informou sobre todas as controvérsias que Laibach é capaz e que estava a produzir. Mas já era tarde para cancelar o convite – já estávamos praticamente no país. Talvez por causa de todo aquele rebuliço, eles receberam-nos até com mais cuidado e bondade, e até com um pouco de humor.»
Sobre a atuação, explicaram: «A Coreia do Norte é um lugar muito diferente do resto do mundo. A receção do público ao nosso concerto (...) foi muito ‘cultural’. Os norte-coreanos, aparentemente, nunca ouviram tal música (como Laibach) antes, então não sabiam mesmo o que pensar sobre aquilo, mas reagiram educadamente, aplaudindo após cada música, e no final do concertos aplaudiram-nos de pé (ou talvez estivessem apenas felizes por ter acabado; o embaixador da Síria estava certamente – ele não gostou muito do programa –, comentando que ‘estava muito alto, quase como uma tortura’). Choe Jong-Hwan, um visitante coreano mais velho, fez uma declaração após o concerto, dizendo: ‘Não sabia que esta música existia no mundo e agora sei.’»
Criadores de música, iconógrafos, explícitos, transgressores, semeadores da discórdia – os Laibach são tudo isso em nome do Neue Slowenische Kunst, só e apenas. «Analisamos a relação entre ideologia e cultura e entre arte e política, a nossa linguagem é política, mas não somos ativistas políticos e não lidamos com a política diária.» Para a história fica uma célebre frase que lhes és atribuída: «Somos tão fascistas como Hitler era pintor.»