Em nome da Mãe, do Filho e da Destruição.
Numa cave profunda, sozinha, sentada numa poltrona quase a desfazer-se e alumiada por uma fraca lamparina alimentada a azeite, estava a Mãe a contorcer-se com inimagináveis dores – prestes a parir.
Só e assustada, ali estava a Mãe, aprisionada num subterrâneo cubo de cimento com as paredes decoradas por bolor e rachas irregulares que previam a ruína. No chão, por entre os pés descalços e feridos, sujos de sangue e lama, com os dedinhos a encarquilhar, moviam-se todo o tipo de insetos rastejantes com centenas de pernas e antenas, revestidos por microscópicos pêlos que deixavam vermelhidão onde quer que tocassem na carne humana e com incontáveis minúsculos olhos que miravam independentes uns dos outros. Dos cantos ouviam-se guinchos de ratos e o sibilar de serpentes que se enrolavam em si mesmas, e via-se, com muita dificuldade, as reluzentes línguas bifurcadas a inspecionar o ambiente húmido e mal cheiroso.
Na poltrona velha, a Mãe estava coberta por um lençol branco e limpo a contrastar com as dores terríveis e o corpo imundo. Com as mãos livres, tocou-se e sentiu a barriga enorme e inchada – algo estava dentro dela e tinha de sair. Mais acima, as mãos pararam nos seios que, fartos e saudáveis, despontavam por dois rasgões no lençol. Aos mamilos estavam agarradas duas mangueiras que, ligadas a uma máquina, sugavam o leite materno para um balde. Mais acima ainda, quando as mãos chegaram à cara, percebeu que a boca, que mal conseguia abrir, estava trancada num açaime de ferro áspero que, com o suor que descia das têmporas, lhe pintava o pescoço e o peito com ferrugem.
As dores e as contrações no ventre eram tão intensas que não a deixavam levantar-se. Ao arrancar as mangueiras, os mamilos foram dilacerados e o lençol tingido de vermelho. Sem possibilidade de abrir a boca, gritou por dentro. A boca encheu-se de vómito, que acabou por ser expulso em finos jatos pelas abertas do açaime. Massajou a barriga freneticamente. As veias, como varizes salientes, latejavam e as contrações percorriam-lhe o corpo todo. Tremia, transpirava profusamente, os pés esmagavam os insetos com tanto bater no chão e ficavam cada vez mais magoados.
Dentro da barriga remexia sabe-se lá o quê, a comprimir os órgãos da Mãe. O umbigo todo metido para fora ameaçava explodir com a pressão e a zona lombar não aguentava mais os espasmos lancinantes.
Olhando para o lado, a Mãe viu um carrinho com várias ferramentas: facas com gumes por afiar, tesouras perras e bisturis com pontas quebradas. Em pânico e com as mãos trémulas, revirou as ferramentas e pegou no que sobrou – uma longa tesoura de costureira. Levantou o lençol pegajoso de sangue e espetou a tesoura uma, duas, três na barriga. Fez o mesmo na cara, na tentativa de se soltar do açaime, mas sem sucesso. Desorientada e sem forças, deixou cair a tesoura. O que estava dentro de si continuou a mexer-se com mais vigor, a querer sair a todo o custo. Eis os bisturis que ainda sobravam no carrinho à sua beira. A suas partes íntimas palpitavam furiosamente. Delirante, com um bisturi praticamente inútil, despedaçou a vulva outrora magnífica. No chão, uma abundante poça de sangue misturava-se com restos viscosos de insetos espalmados.
Depois de horas impossíveis de contar, do nada, instantaneamente, saiu de dentro da Mãe, de uma só golfada, um pequeno corpo envolvido numa pez negra que emanava pérfidos odores. A cabeça desproporcionalmente maior do que o resto do corpo impelia ao movimento, rastejando lentamente. Chios em surdina eram expelidos da boquinha daquele ser, a suplicar por mama.
A Mãe, prostrada e esvaída, sucumbira enquanto o Filho serpeava até uma portinhola rasa. Do outro lado, um sem fim de corredores labirínticos.
Sozinho, aquele Filho foi alimentado pelo veneno das serpentes que lhe mordiam as pernas mirradas e aquecido por ratazanas que se aninhavam com ele, bicando aqui e acolá o corpo indefeso. Quando começou a conseguir mexer as mãos, alimentou-se de insalubres baratas e besouros. Cresceu muito devagar, com um corpo deficiente e desproporcional, e durante largos séculos percorreu aqueles corredores sem destino, amparando-se nas paredes escorregadias. O seu pensamento nunca evoluiu e nem tinha noção da própria existência.
Certa vez, deu com um caminho sem saída, olhou para cima e vislumbrou luz. Uma grade deixava trespassar cores. Depois de tantos séculos na penumbra, algo novo e indescritível tocava-lhe os olhos atrofiados. Durante anos não saiu dali, sempre a olhar para cima, sem questionar, apenas petrificado e surpreendido, a habituar-se àquela nova sensação. Até que alguém deixou cair um novo tipo de alimento muito mais saboroso do que os bichos insípidos que comia como um autómato. Daquela grade, que lhe permitia ver o céu, começaram a cair guerras, doenças, crises económicas, ódio e cadáveres aos milhões. E este sustento cheio de sadios nutrientes transformou o Filho, dia após dia, num esbelto homem, orgulhoso de si mesmo e imponente, que urrava para sair daquele labirinto.
Os séculos passavam e tanto a sua beleza hipnotizante como a sua urgência alarmante aumentavam. Os insetos, os répteis e os roedores abriam caminho à sua passagem no infinito labirinto. Outrora um atrasado mental e motor, o Filho exibia-se agora, ainda que na escuridão, como um dominador, com muita sofreguidão por mais – mais guerras, mais calamidade e mais espaço para se exibir sem ponta de timidez.
Orientado por odores de enfermidade, continuou a deambular pelo labirinto até que encontrou um portão entreaberto que deixava passar feixes luminosos. Devagar, com muita curiosidade, aproximou-se do portão e abriu-o completamente. Um passo em frente e a liberdade.
Belo como nenhum outro ser, com olhos cor de ameixa, cabelo negro que deslizava até aos ombros, com tronco robusto e pernas definidas, viu-se rodeado por arvoredos repletos de frutos, ouviu pela primeira vez o canto harmonioso das aves que desconhecia e sentiu-se aquecido pelo Sol. Durante algumas décadas, daí em diante, esqueceu os séculos de clausura e comeu morangos, maçãs, laranjas, e até os limões ácidos lhe sabiam bem. As ratazanas foram substituídas por dóceis raposas e a noite passou a ser de deslumbramento, a observar as estrelas, em vez de solidão, medo e revolta.
Contudo, numa manhã inesperada, o cheiro da guerra subiu-lhe pelas narinas. E seguiram-se mais odores pestilentos que julgava nunca mais vir a sentir – pandemias, epidemias, abandono, desprezo, desleixo, antipatia. Enfim, mortandade.
Horrorizado e rancoroso, ereto e mais altivo como nunca antes, o Filho cerrou as sobrancelhas com aversão e esboçou um breve e desafiador sorriso, tornando-se, durante um segundo, Pai – da Destruição – e tudo murchou e escureceu. Ali mesmo, sem hipótese de redenção, o mundo morreu.