«É por estes miseráveis que vais
morrer?»
Era uma criança. Os dentes de leite há
pouco tempo tinham caído e o corpo magricela ainda só agora
começava a ganhar algum músculo. A proteção zelosa do pai
irritava-o, o carinho da Mãe enternecia-o e os mestres deixavam-o
impaciente, porque sabiam juntar as letras para formar palavras mas
não lhe conseguiam explicar o seu significado profundo e mágico,
como ele achava que devia ser. O Rapaz caminhava como uma criança,
mas falava como um Homem, e quando os olhos se transformavam em
buracos negros, com uma profundidade hipnótica, crescia à sua volta
uma aura aterrorizante.
A sua melhor amiga era a Rapariga com
cabelo de menino, voz grave, corpo sujo e maltrapilha. Ninguém fazia
caso de si, movendo-se silenciosamente e com olhares de soslaio por
entre as pessoas. Tinha cicatrizes finas, mas salientes, nas
bochechas e na testa, que lhe davam um ar reptiliano. Também tinha
algumas no pescoço, que se mexiam furtivamente como parasitas sob a
pele emporcalhada. O Rapaz e a Rapariga estavam pouco tempo juntos e
mal falavam, mas encontravam-se todos os dias. Num desses momentos,
ela disse que queria mostrar-lhe uma coisa. Caminharam e caminharam,
afastaram-se da aldeia em direção a um vale atulhado de leprosos. O
ar tresandava a dor e doença. O Rapaz nunca ali tinha estado. Não
desceram as ribanceiras, apenas ficaram no topo a observar. Várias
vezes, a Rapariga olhou lá para baixo e depois para o Rapaz. Um
sorriso malicioso para os leprosos, um olhar inquisitivo para o
Rapaz. «O que farias a toda esta gente?», perguntou a Rapariga. O
Rapaz manteve o silêncio e a contemplação.
No regresso, a poucos metros de onde
estavam antes, depararam-se com um leproso a dormir à sombra.
Agacharam-se para ver de perto as gretas com pus e a carne podre do
moribundo. Devagarinho, a Rapariga aproximou a sua mão à cara do
doente, mas sem nunca lhe chegar a tocar. Uma e outra vez, e ria-se,
a fazer troça. O Rapaz não percebia a intenção. «É um jogo. É
para vermos o quanto nos conseguimos aproximar sem lhe tocar.
Experimenta!», incentivou a Rapariga. O Rapaz, a medo, experimentou.
Uma e outra vez. À terceira, a Rapariga empurrou-o para cima do
leproso, gargalhou muito alto e fugiu a correr.
Quando o Rapaz retornou à aldeia, já
toda a gente sabia que ele tinha tocado num leproso. Tornar-se-ia
maculado, ou assim vaticinaram. O pai arrastou-o à força até ao
rio e lavou-o durante horas.
O pai não permitiu que o Filho
dormisse em casa, no quarto partilhado também com a Mãe, e
trancou-o num casebre de madeira a cair aos bocados. «Não me deixes
aqui!», suplicou o Rapaz, mas sem efeito.
Já noite, sentado em palha, no centro
do casebre, enquanto olhava para a porta trancada, sentiu uma mão
tocar-lhe no ombro e deu um salto assustado, colocando-se
imediatamente de pé. «Curaste-me! És divino! És divino!
Curaste-me!», disse-lhe um homem ininterruptamente, baixinho e com
urgência. Eis o leproso, que já não o era.
O Rapaz e a Rapariga continuaram a
fazer outros jogos. Ela esmagava grilos e ele voltava a dar-lhes
vida, ela arrancava as asas das abelhas e ele voltava a fazê-las
voar, ela fazia com que víboras mordessem as ovelhas e ele depurava
os animais que voltavam ao rebanho depois do atordoamento.
Ainda assim, a benevolência do Rapaz
tinha limites.
Mestre atrás de mestre expulsava o
Rapaz da sua escola, pois perdiam a paciência com ele. Mestre atrás
de mestre simplesmente desaparecia. Um deles morreu mesmo sobre a
mesa onde ensinava depois de ter dado um tabefe ao Rapaz quando este
recusou ler a mesma coisa pela terceira vez consecutiva. O mais
paciente de todos também acabou por perder a compostura, arrastando
o Rapaz por uma orelha até à sua casa. «Não consigo mais! Põe em
causa tudo o que lhe ensino! Faz perguntas que não deve fazer e que
os mortais não sabem responder!», gritava o educador enquanto
entregava o Rapaz ao pai.
Na manhã seguinte, aquele mestre
apareceu à porta da casa do Rapaz. Movendo-se de quatro, a arfar
como um cão, com a língua de fora, a transpirar profusamente e com
uma mão agarrada à barriga, implorava: «Liberta-me desta aflição!
Não quero mais aqueles pesadelos! Salva-me!» Apenas com um
pestanejar do Rapaz, o professor voltou ao normal. Foi embora, nunca
mais ninguém o viu, e tanto o pai como a Mãe não souberam deste
episódio.
Certo dia, o Rapaz abriu pequenos
canais à volta de um riacho e encarreirou as águas pelas suas
pequenas e toscas construções com o poder da voz, falando baixinho
sem mais ninguém o ouvir. Um outro menino da mesma idade, com um
espírito inclinado à traquinice com laivos de inveja, decidiu
destruir os canais de água com pontapés e saltos. Os olhos do Rapaz
transformaram-se naqueles buracos negros sem fundo e falou: «Como
uma árvore velha, vais murchar e secar.» O peito do menino travesso
implodiu como se todo o ar lhe tivesse sido sugado dos pulmões, o
corpo emagreceu instantaneamente até ao ponto de ficar a pele colada
ao osso, e tombou. O Rapaz restaurou os canais e, novamente com a
força da palavra, as águas pelos canais se moveram.
Numa outra tarde solarenga, o Rapaz e
os vizinhos andavam em frenética correria. Os dias eram longos e as
brincadeiras prolongavam-se. Uma das crianças, pouco mais velha,
achava que comandava o grupo e tinha propensão a pregar rasteiras
aos mais indefesos. O Rapaz não estava a gostar da brincadeira, mas
por ali se mantinha a correr com os outros, até que ele próprio foi
posto ao chão. Quando o Sol começou a querer ir embora, o
adolescente opressor afastou-se para também ir embora. O Rapaz nunca
tirou o seu olhar das costas do rival. Um, dois, três passos e caiu.
Inocentes e de memória curta, os
outros meninos acudiram, colocando-se à volta do inanimado. Correram
dali para fora a chamar ajuda, deixando-o sozinho no meio da erva. O
Rapaz nunca abandonou a sua posição. O crepúsculo já se acentuava
quando os pais do menino desmaiado se acercaram dele. Pálido, cheio
de sede e com expressões faciais transtornadas, regressou do
inexplicável esmorecimento. Nunca mais falou e nunca mais caminhou.
Em segredo, o Rapaz escapava-se do
olhar severo do pai e do abraço quente da Mãe para, durante longas
manhãs, se distanciar do aldeamento. Por outras bandas, reavivou as
terras inférteis de um pobre agricultor, pôs um cego a ver e
libertou um coxo da sua bengala.
Num daqueles dias da semana em que é
proibido executar tarefas, em que somente é permitido orar e jejuar,
o Rapaz foi apanhado a moldar pequenos pássaros em barro junto ao
riacho. No preciso momento em que os dois idosos, que o apanharam a
fazer aquilo, viraram costas para irem informar o pai daquele
desrespeito, o Rapaz disse: «Voem!» E os pássaros de barro
ganharam vida. Chilreantes e irrequietos, voaram.
Quando o pai chegou ao pé
do Filho, nada vira do que lhe contaram. As mãos do Rapaz estavam
enlameadas e os passarinhos voavam à sua volta. Temente, apreensivo
e sem saber no que acreditar, o pai aprisionou o Rapaz no casebre
como castigo. Naquela noite não iria dormir em casa e teria
compridas horas para orar e pedir perdão fosse pelo que fosse.
«Já acreditas?», perguntou a Mãe ao
marido. O homem retorquiu: «Cuidado, mulher! Criei-o como se fosse
meu, sabendo que não é! Protejo-o desde sempre! E partilho este
teto com uma impura!» «Acredita! Por uma vez na vida, acredita!
Foi-nos enviado!», chorou a Mãe.
Durante a madrugada, a Rapariga
destrancou a porta do rudimentar casebre e levou o amigo pela mão.
Caminharam noite dentro, sem ponta de luar, e adormeceram entre
arbustos, sem nunca terem trocado uma palavra.
Quando as primeiras luzes começaram a
despontar, a trespassar as copas das árvores, ambos acordaram e o
Rapaz disse: «Estou farto do meu pai.» A Rapariga, sem demora ou
prevenção, atirou: «Aquele não é o teu pai. O teu verdadeiro Pai
está ali.» Apontou para o céu. E acrescentou: «Tu sabes quem é o
teu Pai desde que nos conhecemos, soubeste-o quando começámos a
fazer aqueles jogos.» O Rapaz assentiu com humildade.
«Reinemos juntos», pediu a Rapariga.
De seguida olhou para o céu, ergueu os braços e as suas cicatrizes
moveram-se incessantemente, em rodopio por todo o corpo. Naquele
firmamento abriu-se uma brecha e de lá caíram, para um outro buraco feito no chão, seres pestilentos e
infelizes de todas as maneiras e feitios: paralíticos, cancerosos,
cegos, mudos, surdos, loucos, ladrões, assassinos, pobres ignorantes
e ricos gananciosos. Aos milhares, no chão contorciam-se entre si,
como insetos desorientados, uns em cima dos outros.
«Tens medo do que te vai acontecer
quando chegar a hora?»,
questionou a Rapariga.
«Não», respondeu o Rapaz.
A Rapariga fez nova pergunta: «É por
estes miseráveis que vais morrer?»
«Assim quer o meu Pai», disse o Rapaz
serenamente.
A Rapariga rogou:
«Liberta-te!
Povoemos a Terra com a nossa força e grandeza!
Eu tiro, tu dás, eu
destruo, tu renovas!»
«Não cairei em tentação.
Vaguearás
por este mundo eternamente.
Com essas cicatrizes, todos saberão quem
és
e quanto pavor espalhas sem misericórdia.
Eu passarei a existir
nos corações dos bem-aventurados,
uma porta aberta para os párias
e apátridas,
para os incompreendidos e para os desajustados».
«Não!», gritou a Rapariga enquanto
puxava o braço do Rapaz
entre lágrimas de soberba e revolta.
O Rapaz levantou-se e falou:
«Sofrerei.
Se eu não morresse como vou morrer,
quem vos crucificava era eu.»
E foi embora.