sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Laibach: transgressão, um Estado Abstrato, um suicídio ritualista e Coreia do Norte

Banda de rock industrial e eletrónico, os Laibach fundaram-se em junho de 1980.

Laibach é, antes de tudo, o nome ancestral de Ljubljana, a capital da Eslovénia, e por mais antigo que seja, remontando à Idade Média, a designação da banda está ligada à ocupação nazi do país durante a II Guerra Mundial. Em 1980, a Eslovénia ainda fazia parte da Jugoslávia, um super-estado comunista, e o nome da banda aliada à sua postura militarista e autoritária não conjugava muito bem com aquela sociedade. «Escolhemos esse nome exatamente pelo seu conteúdo problemático, explosivo e conflituoso», disseram numa entrevista.

A postura e a atitude ainda atiçava mais a fogueira. Ambiguamente, os Laibach sempre se rodearam de parafernália militarista e autoritária, nunca se sabendo ao certo que tipo de ideologia defendem. O truque está aí: a banda defende a sua própria ideologia, criada artisticamente para subverter o país de origem e depois o mundo. O seu Estado ficou conhecido como Neue Slowenische Kunst (NSK), uma soberania abstrata com o seu próprio manifesto e passaportes, uma região intelectual que justapõe música rock, industrial e hínica, arte Dada e Suprematista (movimento fundado pelo russo Kazimir Malevich), e imagética da Alemanha nazi misturada com a da Jugoslávia comunista. Confuso? Imagine-se então na década de 1980... Para o célebre filósofo marxista Slavoj Žižek, «a singularidade do NSK é a ideia do ‘Estado sem Estado’», disse à BBC em 2017.

As letras, essas não vão por um caminho diferente. Uma das suas músicas mais famosas intitula-se “Tanz mit Laibach” (“Dança com Laibach”), do álbum “WAT” (2003), e numa das estrofes pode ouvir-se: «Dançamos com Ado Hinkel / Benzino Napoloni / Dançamos com Schiekelgrüber / E dançamos com Maitreya / Com totalitarismo / E com democracia / Dançamos com fascismo / E anarquia vermelha». Tão específico como, novamente, ambíguo. Anos mais tarde, em 2014, lançaram o fabuloso “Spectre”, um álbum em que aprimoraram a sua ala pop e em que, outra vez, deixaram ao sabor da maré aquilo que defendem politicamente ao criarem um conceito estatal anticapitalista que tanto pode apelar a comunistas como a nacionalistas – o que irrita toda a gente, de um lado e do outro. Ainda assim, no website oficial da banda, na secção Volkskunst, onde é partilhada a arte dos fãs, encontra-se uma peça com símbolos antifascistas em que se pode ler “Antifascist Action – Laibach”.

Mas regressemos aos anos 1980. Milan Fras pode ser a cara mais reconhecida em Laibach pela sua pose reta e voz profunda, mas, e antes de ser quem é, houve alguém ainda mais extremo: Tomaž Hostnik. Co-autor do manifesto e escritor da “Apologia Laibach” (uma versão poética do referido documento), Tomaž (ou Ivo Saliger quando sob pseudónimo) teve uma das mais memoráveis atuações no festival Novi Rock, em Ljubljana, em setembro de 1982, quando surgiu a envergar um uniforme do exército jugoslavo e com grandes parecenças a Slobodan Milošević, que ascendeu ao poder anos mais tarde. Durante o concerto, uma garrafa foi-lhe arremessada, cortando-lhe a face, mas foi até ao fim.

O seu último concerto aconteceu a 11 de dezembro, em Zagreb, Croácia. A 21 de dezembro, Tomaž suicidou-se num ato ritualista, enforcando-se num dos mais poderosos símbolos nacionais eslovenos, o kozolec (uma espécie de palheiro facilmente encontrado na Eslovénia). Entretanto retirado, no website da banda esteve escrito: «Laibach reprovou o seu ato de suicídio e postumamente expulsou Hostnik do grupo, fazendo-o regressar à sua identidade privada.» Os Laibach continuam a referir Hostnik, que, imutavelmente, faz parte da sua história.

Em abril de 1983, os Laibach recomeçaram as atividades e, com isso, mais uma tempestade de polémicas. Depois da cobertura mediática aos concertos com os ingleses Last Few Days e 23 Skidoo, os Laibach sabiam que tinham de elevar a fasquia. Mais uma vez em Zagreb, numa atuação que ficou conhecida como “Mi kujemo bodočnost” (“Nós construímos o futuro”), a banda projetou simultaneamente pornografia e o filme “Revolucija še traja” (“A revolução continua”). Pior: o grupo acabou por ter que sair do palco quando um pénis foi projetado ao mesmo tempo que o falecido líder da Jugoslávia, Josip Broz Tito. Os Laibach seriam banidos.

Esse desterro fez com que se fixassem noutras zonas, como o Reino Unido, onde, para além de trabalharem em tudo o que desse para trabalhar, começaram a conquistar o submundo global. Participaram no filme “Full Metal Jacket” de Stanley Kubrick, gravaram para John Peel, assinaram pela Mute Records e galvanizaram-se com versões – ou subversões – de temas como “Life is Life” (Opus), “Let It Be” (The Beatles) ou “Sympathy for the Devil” (The Rolling Stones).

Super-estrelas do submundo, os Laibach, que já passaram várias vezes por Portugal, foram parar à Coreia do Norte em 2015, para participarem nas comemorações dos 70 anos da libertação do poder japonês. Isto resultou em dois concertos, numa menção no mundialmente famoso “Last Week Tonight with John Oliver” e no alucinado documentário “Liberation Day”.

A banda comentou: «Os norte-coreanos não sabiam nada sobre nós até a algumas semanas antes de chegarmos, quando alguém da Europa os informou sobre todas as controvérsias que Laibach é capaz e que estava a produzir. Mas já era tarde para cancelar o convite – já estávamos praticamente no país. Talvez por causa de todo aquele rebuliço, eles receberam-nos até com mais cuidado e bondade, e até com um pouco de humor.»

Sobre a atuação, explicaram: «A Coreia do Norte é um lugar muito diferente do resto do mundo. A receção do público ao nosso concerto (...) foi muito ‘cultural’. Os norte-coreanos, aparentemente, nunca ouviram tal música (como Laibach) antes, então não sabiam mesmo o que pensar sobre aquilo, mas reagiram educadamente, aplaudindo após cada música, e no final do concertos aplaudiram-nos de pé (ou talvez estivessem apenas felizes por ter acabado; o embaixador da Síria estava certamente – ele não gostou muito do programa –, comentando que ‘estava muito alto, quase como uma tortura’). Choe Jong-Hwan, um visitante coreano mais velho, fez uma declaração após o concerto, dizendo: ‘Não sabia que esta música existia no mundo e agora sei.’»

Criadores de música, iconógrafos, explícitos, transgressores, semeadores da discórdia – os Laibach são tudo isso em nome do Neue Slowenische Kunst, só e apenas. «Analisamos a relação entre ideologia e cultura e entre arte e política, a nossa linguagem é política, mas não somos ativistas políticos e não lidamos com a política diária.» Para a história fica uma célebre frase que lhes és atribuída: «Somos tão fascistas como Hitler era pintor.»

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

O Parto do Fim do Mundo

Em nome da Mãe, do Filho e da Destruição.


Numa cave profunda, sozinha, sentada numa poltrona quase a desfazer-se e alumiada por uma fraca lamparina alimentada a azeite, estava a Mãe a contorcer-se com inimagináveis dores – prestes a parir.

Só e assustada, ali estava a Mãe, aprisionada num subterrâneo cubo de cimento com as paredes decoradas por bolor e rachas irregulares que previam a ruína. No chão, por entre os pés descalços e feridos, sujos de sangue e lama, com os dedinhos a encarquilhar, moviam-se todo o tipo de insetos rastejantes com centenas de pernas e antenas, revestidos por microscópicos pêlos que deixavam vermelhidão onde quer que tocassem na carne humana e com incontáveis minúsculos olhos que miravam independentes uns dos outros. Dos cantos ouviam-se guinchos de ratos e o sibilar de serpentes que se enrolavam em si mesmas, e via-se, com muita dificuldade, as reluzentes línguas bifurcadas a inspecionar o ambiente húmido e mal cheiroso.

Na poltrona velha, a Mãe estava coberta por um lençol branco e limpo a contrastar com as dores terríveis e o corpo imundo. Com as mãos livres, tocou-se e sentiu a barriga enorme e inchada – algo estava dentro dela e tinha de sair. Mais acima, as mãos pararam nos seios que, fartos e saudáveis, despontavam por dois rasgões no lençol. Aos mamilos estavam agarradas duas mangueiras que, ligadas a uma máquina, sugavam o leite materno para um balde. Mais acima ainda, quando as mãos chegaram à cara, percebeu que a boca, que mal conseguia abrir, estava trancada num açaime de ferro áspero que, com o suor que descia das têmporas, lhe pintava o pescoço e o peito com ferrugem.

As dores e as contrações no ventre eram tão intensas que não a deixavam levantar-se. Ao arrancar as mangueiras, os mamilos foram dilacerados e o lençol tingido de vermelho. Sem possibilidade de abrir a boca, gritou por dentro. A boca encheu-se de vómito, que acabou por ser expulso em finos jatos pelas abertas do açaime. Massajou a barriga freneticamente. As veias, como varizes salientes, latejavam e as contrações percorriam-lhe o corpo todo. Tremia, transpirava profusamente, os pés esmagavam os insetos com tanto bater no chão e ficavam cada vez mais magoados.

Dentro da barriga remexia sabe-se lá o quê, a comprimir os órgãos da Mãe. O umbigo todo metido para fora ameaçava explodir com a pressão e a zona lombar não aguentava mais os espasmos lancinantes.

Olhando para o lado, a Mãe viu um carrinho com várias ferramentas: facas com gumes por afiar, tesouras perras e bisturis com pontas quebradas. Em pânico e com as mãos trémulas, revirou as ferramentas e pegou no que sobrou – uma longa tesoura de costureira. Levantou o lençol pegajoso de sangue e espetou a tesoura uma, duas, três na barriga. Fez o mesmo na cara, na tentativa de se soltar do açaime, mas sem sucesso. Desorientada e sem forças, deixou cair a tesoura. O que estava dentro de si continuou a mexer-se com mais vigor, a querer sair a todo o custo. Eis os bisturis que ainda sobravam no carrinho à sua beira. A suas partes íntimas palpitavam furiosamente. Delirante, com um bisturi praticamente inútil, despedaçou a vulva outrora magnífica. No chão, uma abundante poça de sangue misturava-se com restos viscosos de insetos espalmados.

Depois de horas impossíveis de contar, do nada, instantaneamente, saiu de dentro da Mãe, de uma só golfada, um pequeno corpo envolvido numa pez negra que emanava pérfidos odores. A cabeça desproporcionalmente maior do que o resto do corpo impelia ao movimento, rastejando lentamente. Chios em surdina eram expelidos da boquinha daquele ser, a suplicar por mama.

A Mãe, prostrada e esvaída, sucumbira enquanto o Filho serpeava até uma portinhola rasa. Do outro lado, um sem fim de corredores labirínticos.

Sozinho, aquele Filho foi alimentado pelo veneno das serpentes que lhe mordiam as pernas mirradas e aquecido por ratazanas que se aninhavam com ele, bicando aqui e acolá o corpo indefeso. Quando começou a conseguir mexer as mãos, alimentou-se de insalubres baratas e besouros. Cresceu muito devagar, com um corpo deficiente e desproporcional, e durante largos séculos percorreu aqueles corredores sem destino, amparando-se nas paredes escorregadias. O seu pensamento nunca evoluiu e nem tinha noção da própria existência.

Certa vez, deu com um caminho sem saída, olhou para cima e vislumbrou luz. Uma grade deixava trespassar cores. Depois de tantos séculos na penumbra, algo novo e indescritível tocava-lhe os olhos atrofiados. Durante anos não saiu dali, sempre a olhar para cima, sem questionar, apenas petrificado e surpreendido, a habituar-se àquela nova sensação. Até que alguém deixou cair um novo tipo de alimento muito mais saboroso do que os bichos insípidos que comia como um autómato. Daquela grade, que lhe permitia ver o céu, começaram a cair guerras, doenças, crises económicas, ódio e cadáveres aos milhões. E este sustento cheio de sadios nutrientes transformou o Filho, dia após dia, num esbelto homem, orgulhoso de si mesmo e imponente, que urrava para sair daquele labirinto.

Os séculos passavam e tanto a sua beleza hipnotizante como a sua urgência alarmante aumentavam. Os insetos, os répteis e os roedores abriam caminho à sua passagem no infinito labirinto. Outrora um atrasado mental e motor, o Filho exibia-se agora, ainda que na escuridão, como um dominador, com muita sofreguidão por mais – mais guerras, mais calamidade e mais espaço para se exibir sem ponta de timidez.

Orientado por odores de enfermidade, continuou a deambular pelo labirinto até que encontrou um portão entreaberto que deixava passar feixes luminosos. Devagar, com muita curiosidade, aproximou-se do portão e abriu-o completamente. Um passo em frente e a liberdade.

Belo como nenhum outro ser, com olhos cor de ameixa, cabelo negro que deslizava até aos ombros, com tronco robusto e pernas definidas, viu-se rodeado por arvoredos repletos de frutos, ouviu pela primeira vez o canto harmonioso das aves que desconhecia e sentiu-se aquecido pelo Sol. Durante algumas décadas, daí em diante, esqueceu os séculos de clausura e comeu morangos, maçãs, laranjas, e até os limões ácidos lhe sabiam bem. As ratazanas foram substituídas por dóceis raposas e a noite passou a ser de deslumbramento, a observar as estrelas, em vez de solidão, medo e revolta.

Contudo, numa manhã inesperada, o cheiro da guerra subiu-lhe pelas narinas. E seguiram-se mais odores pestilentos que julgava nunca mais vir a sentir – pandemias, epidemias, abandono, desprezo, desleixo, antipatia. Enfim, mortandade.

Horrorizado e rancoroso, ereto e mais altivo como nunca antes, o Filho cerrou as sobrancelhas com aversão e esboçou um breve e desafiador sorriso, tornando-se, durante um segundo, Pai – da Destruição – e tudo murchou e escureceu. Ali mesmo, sem hipótese de redenção, o mundo morreu.