sábado, 21 de fevereiro de 2026

Lifelover: ridicularização em estado puro

álcool e medicamentos

depravação sexual e ansiedade
sangue e cicatrizes


Lifelover veio ao mundo em junho de 2005. O vocalista Kim “( )” Carlsson e o guitarrista Jonas “B” Bergqvist conheceram-se, embebedaram-se, começaram a compor música, gravaram e divulgaram imediatamente material de promoção repleto de sons ambiente e guitarras soltas – a miséria improvisada que lhes toldava as mentes.

O primeiro álbum “Pulver”, gravado entre abril e maio de 2006 e lançado logo em julho seguinte, seria tido posteriormente como um disco pioneiro. Ainda que o estatuto de criadores do black metal depressivo possa estar reservado aos também suecos Shining, fundados por Niklas Kvarforth em 1996, não é de somenos sublinhar a importância dos Lifelover neste campo mais obscuro de um subgénero musical já de si negro, pois a base black metal era trespassada por melodias alegres, a fazer lembrar pop, deixando quem ouve num estado de confusão e perplexidade. A ideia era muito simples: mais do que possivelmente ridicularizar o estilo musical, era objetivo suavizar, ridicularizando – passo a redundância –, problemas do foro mental, como a depressão. E embora algumas músicas, como a famosa “M/S Salmonella”, tivessem essa tal toada (pseudo)alegre, as letras eram um tratado à depravação sexual, à decadência urbana, ao suicídio, aos medicamentos, ao álcool e às drogas – daí ter surgido o termo “narcotic metal”. Depois há ainda a icónica capa: a mulher, Eleanor, nua e ensanguentada, rodeada por primaveris anémonas-dos-bosques.

A sátira – que começava logo no nome, com B a revelar que a ideia surgiu de um homem que lhe chamou «amante da vida», possivelmente devido às aventuras alcoólatras e medicamentosas – prosseguia e passava eficazmente dos discos para os palcos, com Kim Carlsson, banhado em sangue e cravado de cicatrizes, a fazer danças inocentes e joviais, ou com o uso de chapéus de cowboy adornados por pelinhos e luzes a contrastar de maneira alarmante com a negritude sonora.

Na discografia seguir-se-ia “Erotik” (2007), “Konkurs” (2008), o EP “Dekadens” (2009) e “Sjukdom” (2011), até que, sem saberem, deram o último verdadeiro concerto a 26 de agosto de 2011, no restaurante Boules & Tapas, em Estocolmo. «Por que é que um restaurante que tinha um estranho nicho de boule e tapas recebeu a maior banda de desajustados do mundo, nunca saberemos», escreveu o guitarrista Henrik “H.” Huldtgren, dez anos depois.

Cerca de duas semanas após essa noite, os Lifelover anunciavam pela internet que «na sexta-feira de manhã, 9 de setembro, B não acordou do seu sono». Dado que se sabia que B sofria gravemente de ansiedade, tudo aliado à galvanização da morte, os fãs suspeitaram de overdose acidental ou até mesmo de suicídio. Não estavam completamente errados: se por um lado foi provado que B não tirou a própria vida de forma violenta, por outro a autópsia revelou «envenenamento e overdose».

Falecido aos 25 anos, foi também partilhado numa rede social que B tomava Benzodiazepinas desde os 18, sendo a teoria da família a seguinte: «Acreditamos que uma vez que o corpo se adaptou à medicação, ele tomou doses cada vez mais altas e talvez tenha tomado um ou dois comprimidos a mais. O corpo também piora no processamento dos medicamentos com o tempo, então a “dose normal” pode ser mortal quando tomada durante muitos anos.»

Nesse mês de setembro, os restantes membros de Lifelover puseram fim à banda, porque era «o correto a fazer-se, considerando que B era o principal compositor» e que «estes últimos dias têm sido muito difíceis para nós e para toda a gente que conhecia o B».

A editora alemã Prophecy Productions também se juntou às vozes enlutadas ao deixar claro que «Jonas não era apenas um artista muito criativo, mas também uma pessoa simpática e entusiástica», sublinhando ainda a «sua paixão e a sua linguagem musical única».

Em oposição, a Avantgarde Music utilizou o momento penoso para lançar farpas menos positivas. Apesar da maioria das memórias ser «boa», a editora italiana classificou os Lifelover como «irrequietos, frustrados e insatisfeitos». Terem lançado cinco trabalhos através de cinco editoras foi para a Avantgarde Music algo que «significa não terem planos, não terem direções e não terem expetativas objetivas».

Falar dos mortos é fácil, e para algumas culturas é até desrespeitoso, mas a editora não se deixou ficar ao escrever que os «Lifelover eram demasiado inconsistentes quando se tratava de todas as atividades para além de compor e gravar música: queixavam-se da falta de promoção, mas não eram capazes de responder a três entrevistas em três meses... Ou a história engraçada sobre a t-shirt de “Konkurs”: exigiram merchandise e depois queixaram-se que tínhamos lançado uma t-shirt falsificada – a t-shirt sobre a qual assinaram um contrato e que o próprio B tinha concebido, e cujos ficheiros de Photoshop ele me tinha enviado pessoalmente por e-mail umas semanas antes. Isto diz muito do mundo ideal/irreal – fantástico/caótico de Lifelover. Tão verdadeiro na sua incongruente existência».

E quando podemos ainda esperar por uma palavra mais amigável naquela hora de perda, já que algumas memórias até eram boas, a editora revela que sempre achou que «eles não iriam longe com a sua carreira», terminando com: «Triste, mas verdade. Tão verdade que esta morte não me surpreendeu de todo. Parece-me que estava tudo escrito nas estrelas, desde o início... Bon voyage B e respeito pelo Kim e pelos outros rapazes se realmente acabarem com a banda.»

Os membros sobreviventes viriam a formar Kall em 2012. Kim Carlsson também continuaria em paralelo com Hypothermia, formados em 2001, que até já passaram por Portugal. Voltariam a reunir-se em palco como Lifelover em 2015, de modo a assinalarem os 10 anos da sua primordial fundação, com concertos no conceituado Prophecy Fest na Alemanha, depois nos Países Baixos, em Inglaterra e, por fim, no Canadá.

À data da publicação deste texto, durante o ano de 2025, os Kall subiram a vários palcos europeus para interpretarem músicas de Lifelover – uma exigência constante dos fãs e que a banda tem, pontualmente, garantido.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Laibach: transgressão, um Estado Abstrato, um suicídio ritualista e Coreia do Norte

Banda de rock, industrial e eletrónica, os Laibach fundaram-se em junho de 1980.

Laibach é, antes de tudo, o nome ancestral de Ljubljana, a capital da Eslovénia, e por mais antigo que seja, remontando à Idade Média, a designação da banda está ligada à ocupação nazi do país durante a II Guerra Mundial. Em 1980, a Eslovénia ainda fazia parte da Jugoslávia, um super-estado comunista, e o nome da banda aliada à sua postura militarista e autoritária não conjugava muito bem com aquela sociedade. «Escolhemos esse nome exatamente pelo seu conteúdo problemático, explosivo e conflituoso», disseram numa entrevista.

A postura e a atitude ainda atiçava mais a fogueira. Ambiguamente, os Laibach sempre se rodearam de parafernália militarista e autoritária, nunca se sabendo ao certo que tipo de ideologia defendem. O truque está aí: a banda defende a sua própria ideologia, criada artisticamente para subverter o país de origem e depois o mundo. O seu Estado ficou conhecido como Neue Slowenische Kunst (NSK), uma soberania abstrata com o seu próprio manifesto e passaportes, uma região intelectual que justapõe música rock, industrial e hínica, arte Dada e Suprematista (movimento fundado pelo russo Kazimir Malevich), e imagética da Alemanha nazi misturada com a da Jugoslávia comunista. Confuso? Imagine-se então na década de 1980... Para o célebre filósofo marxista Slavoj Žižek, «a singularidade do NSK é a ideia do ‘Estado sem Estado’», disse à BBC em 2017.

As letras, essas não vão por um caminho diferente. Uma das suas músicas mais famosas intitula-se “Tanz mit Laibach” (“Dança com Laibach”), do álbum “WAT” (2003), e numa das estrofes pode ouvir-se: «Dançamos com Ado Hinkel / Benzino Napoloni / Dançamos com Schiekelgrüber / E dançamos com Maitreya / Com totalitarismo / E com democracia / Dançamos com fascismo / E anarquia vermelha». Tão específico como, novamente, ambíguo. Anos mais tarde, em 2014, lançaram o fabuloso “Spectre”, um álbum em que aprimoraram a sua ala pop e em que, outra vez, deixaram ao sabor da maré aquilo que defendem politicamente ao criarem um conceito estatal anticapitalista que tanto pode apelar a comunistas como a nacionalistas – o que irrita toda a gente, de um lado e do outro. Ainda assim, no website oficial da banda, na secção Volkskunst, onde é partilhada a arte dos fãs, encontra-se uma peça com símbolos antifascistas em que se pode ler “Antifascist Action – Laibach”.

Mas regressemos aos anos 1980. Milan Fras pode ser a cara mais reconhecida em Laibach pela sua pose reta e voz profunda, mas, e antes de ser quem é, houve alguém ainda mais extremo: Tomaž Hostnik. Co-autor do manifesto e escritor da “Apologia Laibach” (uma versão poética do referido documento), Tomaž (ou Ivo Saliger quando sob pseudónimo) teve uma das mais memoráveis atuações no festival Novi Rock, em Ljubljana, em setembro de 1982, quando surgiu a envergar um uniforme do exército jugoslavo e com grandes parecenças a Slobodan Milošević, que ascendeu ao poder anos mais tarde. Durante o concerto, uma garrafa foi-lhe arremessada, cortando-lhe a face, mas foi até ao fim.

O seu último concerto aconteceu a 11 de dezembro, em Zagreb, Croácia. A 21 de dezembro, Tomaž suicidou-se num ato ritualista, enforcando-se num dos mais poderosos símbolos nacionais eslovenos, o kozolec (uma espécie de palheiro facilmente encontrado na Eslovénia). Entretanto retirado, no website da banda esteve escrito: «Laibach reprovou o seu ato de suicídio e postumamente expulsou Hostnik do grupo, fazendo-o regressar à sua identidade privada.» Os Laibach continuam a referir Hostnik, que, imutavelmente, faz parte da sua história.

Em abril de 1983, os Laibach recomeçaram as atividades e, com isso, mais uma tempestade de polémicas. Depois da cobertura mediática aos concertos com os ingleses Last Few Days e 23 Skidoo, os Laibach sabiam que tinham de elevar a fasquia. Mais uma vez em Zagreb, numa atuação que ficou conhecida como “Mi kujemo bodočnost” (“Nós construímos o futuro”), a banda projetou simultaneamente pornografia e o filme “Revolucija še traja” (“A revolução continua”). Pior: o grupo acabou por ter que sair do palco quando um pénis foi projetado ao mesmo tempo que o falecido líder da Jugoslávia, Josip Broz Tito. Os Laibach seriam banidos.

Esse desterro fez com que se fixassem noutras zonas, como o Reino Unido, onde, para além de trabalharem em tudo o que desse para trabalhar, começaram a conquistar o submundo global. Participaram no filme “Full Metal Jacket” de Stanley Kubrick, gravaram para John Peel, assinaram pela Mute Records e galvanizaram-se com versões – ou subversões – de temas como “Life is Life” (Opus), “Let It Be” (The Beatles) ou “Sympathy for the Devil” (The Rolling Stones).

Super-estrelas do submundo, os Laibach, que já passaram várias vezes por Portugal, foram parar à Coreia do Norte em 2015, para participarem nas comemorações dos 70 anos da libertação do poder japonês. Isto resultou em dois concertos, numa menção no mundialmente famoso “Last Week Tonight with John Oliver” e no alucinado documentário “Liberation Day”.

A banda comentou: «Os norte-coreanos não sabiam nada sobre nós até a algumas semanas antes de chegarmos, quando alguém da Europa os informou sobre todas as controvérsias que Laibach é capaz e que estava a produzir. Mas já era tarde para cancelar o convite – já estávamos praticamente no país. Talvez por causa de todo aquele rebuliço, eles receberam-nos até com mais cuidado e bondade, e até com um pouco de humor.»

Sobre a atuação, explicaram: «A Coreia do Norte é um lugar muito diferente do resto do mundo. A receção do público ao nosso concerto (...) foi muito ‘cultural’. Os norte-coreanos, aparentemente, nunca ouviram tal música (como Laibach) antes, então não sabiam mesmo o que pensar sobre aquilo, mas reagiram educadamente, aplaudindo após cada música, e no final do concertos aplaudiram-nos de pé (ou talvez estivessem apenas felizes por ter acabado; o embaixador da Síria estava certamente – ele não gostou muito do programa –, comentando que ‘estava muito alto, quase como uma tortura’). Choe Jong-Hwan, um visitante coreano mais velho, fez uma declaração após o concerto, dizendo: ‘Não sabia que esta música existia no mundo e agora sei.’»

Criadores de música, iconógrafos, explícitos, transgressores, semeadores da discórdia – os Laibach são tudo isso em nome do Neue Slowenische Kunst, só e apenas. «Analisamos a relação entre ideologia e cultura e entre arte e política, a nossa linguagem é política, mas não somos ativistas políticos e não lidamos com a política diária.» Para a história fica uma célebre frase que lhes és atribuída: «Somos tão fascistas como Hitler era pintor.»