sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Manifesto Anti Portugalidade

Somos pacóvios, pategos, provincianos, individualistas, ignorantes e atrasados. E não vou em busca de eloquência, estou em piloto automático.

Defendemos o rico com todas as forças, cheios de erros ortográficos nas redes sociais e perdigotos ao balcão do café quando pobres somos e como pobres nada temos, porque a criatura intocável que é o rico subiu a pulso e ai de quem ousar beliscar o que ele conseguiu – sabe-se lá como conseguiu. Ou sabe-se: a sugar o pobre de carteira e de espírito, porque foi um espertalhão. A carteira vazia de uns é o caviar de outros, o espírito bajulador de uns é o prazer em espezinhar de outros. E o pobre adora glorificar o rico, e o pobre adora maldizer o outro pobre. Se eu for pobre, tu tens de ser mais pobre ainda! Menos o senhor doutor fulano de tal ou o caralho que o foda, que abre e fecha empresas como quem troca de cuecas (se for gente limpa, e essa gente é pouco limpa), que aplica o teu dinheiro às escuras e de repente lá se foi o banco, que compra ruas inteiras e tira de lá a tua avó à força para um lar, para a casa da neta ou para a morgue.

Beijamos os pés do turista que paga três euros por um bolo de bacalhau mal feito, cheio de batata e duas espinhas. Viva o pastel de nata! E se comessem merda? Ah não! Isso é para o pobre. Há que dormir cinco horas, apanhar o comboio ou o autocarro ainda de noite (quando há autocarro), levar oito horas com um chefe maluco que acha que é dono daquilo e que nunca sairá da cepa torta (porque é pobre e sempre será), comer um arroz desenxabido em meia hora, voltar a casa de noite, levar com os filhos e discutir com toda a gente, especialmente se a aplicação pirata do futebol não estiver a funcionar. Mas já não há lares felizes? Nunca houve. E está cada vez pior.

Está pior porque ninguém se emancipa – porque ninguém consegue! Quarenta anos e a viver com os pais reformados, não é? Não há salário que aguente uma renda enquanto mandas um pontapé numa pedra e sai de lá um alojamento local. E cuidado aí com o dói-dói que queres fazer à propriedade privada, ôvistes? É só escolher: independência, com silêncio e fome, ou um teto e aturar os velhotes. Mas se poupares muito, vais ser como o senhor doutor! E é acabar já com esse egoísmo de te quereres manifestar pelo direito à habitação, porque a cidade não pode parar – o Mercedes tem de descer a avenida, o amaricano tem de comer a sua francesinha falsa e a praça tem de estar a brilhar para aquele self-made man estrangeiro que se filma a si próprio a dizer ao mundo quão maravilhoso é este país. Gravatinha e lá vai o Senhor Presidente da Câmara cumprimentar o ilustre nómada digital da piça! Mas para ti, pobre que já estás farto de ser pobre, está reservada uma bastonada no lombo. E pianinho! Não faças os ratings de popularidade da cidade caírem a pique... Não pode ser! Não criem turbulência onde não há, ou lá como dizia o outro com intelecto de uma batata que aparenta ser primeiro-ministro.

Ou então, porque somos todos uns alhos chochos, não sabemos é fazer as coisas. Poderemos sair de casa dos pais se aplicarmos um salário em material de vídeo e começarmos a streamar merdas misóginas e a promover casinos. É disso que as marcas gostam, pá! Olha aí: FilhoDaPuta10 ou Otário15 e tens desconto no lixo menos necessário que possas imaginar, porque aquilo entra-te pelos olhos a toda a hora e já queres muito. A tua prima também pode sair de casa dos teus tios se vender as mamas na internet. Mas não... Não temos a mentalidade daquele artista da bola. Só queremos um emprego com salário digno, uma casa e três refeições por dia – é poucochinho. Não há cá cinema, concertos ou jantar fora… Até a praia já querem privatizar. O pobre não merece um desafogo, o pobre merece definhar – e quanto mais pobre for o vizinho, melhor para mim. Ou achas que o senhor doutor chegou onde chegou sem sacrifícios?

E o nepalês que vive com a mulher e um filho pequeno na casa mais podre da rua? Era mandá-los para a terra deles! Já ontem era tarde! Eu aqui a trabalhar para pagar a renda e estes gajos a roubarem o trabalho que era para o meu cunhado, pá! Só nos esquecemos de dizer que o cunhado é um bêbado que bate na mulher e que não quer fazer nada da vida – ali a mamar do RSI. Ai o RSI, o pior mal do mundo! Até me dá um piripaque... Mas alto! Isso é só nas outras famílias, na nossa não!

E os nossos? Primeiro os nossos na saúde e na educação! Somos uns atrasados mentais, é o que somos. Olha aí que agora não podes usar esses termos... Eh pá, vai p’ró caralho!

E em França? Aquilo é que é bater na bófia. Mais nada, é assim mesmo! Mas cá... ai cá... Força senhores polícias! Só se perderam as que caíram no chão. Ai abriram-te a cabeça com um bastão? Se estivesses a trabalhar em vez de estares aí a defender os teus direitos básicos, não te acontecia nada de mal. Isto é malta desocupada, uma enxada na mão é que te fazia bem, diz o pobre ignorante que faz mamadas aos senhores doutores e acredita naquele artolas que tem ataques de refluxo. E choram a cantar o hino com um rosário enrolado no punho fechado fervorosamente encostado ao peito... Uma parolada!

Temos o que merecemos.

Deus, Pátria e Família minou-nos por dentro, qual sabotador implantado à nascença. Às vezes até parece que ainda não saímos de mil nove e cinquenta e cinco. O fantasma paira. Somos xoninhas, constantemente rebaixados e gostamos, felizes com a infelicidade do outro e está tudo nos trinques se me tirarem direitos para foder o outro de quem não gosto, somos invejosos, sem empatia e apaticamente serenos – uns pobres de espírito (outra e outra vez, as vezes que forem precisas ser ditas), uns retrógrados habituados a levar no rabo, porque não há outra maneira. Há outra maneira, sim! As guilhotinas são outra maneira. Ei, olha aí a apologia à violência!

De 50 em 50 euros lá nos vão aumentando o salário mínimo todos os anos. Não estás contente? Mas quanto sobem os ovos, o leite, o pão e a gasolina? E as rendas? Eh pá, que chato, sempre com a porcaria das rendas… Pois. É isso e que a Lei é igual para todos. Vê-se!

Paga e não bufa. IVA aqui, Volta acolá, tudo para pagar a dívida e as PPPs. E o SNS? O SNS está entupido pelos imigrantes que nos estão a ficar com tudo. Vêm para cá e dão-lhes logo uma casa, é só regalias. O senhor doutor é que tem razão, gosto tanto de o ouvir, só diz verdades, aquelas que doem. Somos ou não somos uns labregos? Se tens um furúnculo no olho do cu, vai ao privado. Se não tens dinheiro para ir ao privado, vive com o furúnculo no olho do cu. Simples.

Grupos de extrema-direita espancam, invadem casas de migrantes e fazem ataques em plena rua. E a violência da extrema-esquerda? Inserir aqui sons de animais de quatro patas incivilizados a fuçar na lavagem dos porcos, porque o fascista racista (passo a redundância) tem várias micro-tromboses sempre que é confrontado com alguma coisa que é demais para a sua inteligência do tamanho de um grão de areia. Ah, mas cada um tem direito à sua opinião. E desde quando racismo é opinião, ó conas de sabão?

Queres uma casa? Vai trabalhar! Sim, mas eu trabalho. Então trabalha mais! Sim, mas metem-me sempre tudo num banco de horas. Então arranja um trabalho melhor! Sim, mas este trabalho é porreiro e estou efetivo, só queria poder alugar um quarto pelo menos. Eh pá, não tens mindset! Pois, não tenho, porque eu só quero trabalhar para viver e não viver para trabalhar. Porque só quero um emprego com salário digno, um teto, três refeições por dia e ir a um concerto ou beber uns copos. Somos culpados por isso? Claro que somos. Uns piegas! Vade retro, careca! Tu e o fantoche de Espinho.

Estou a odiar-te, Portugal. Acho que te vou odiar cada vez mais até poder voltar a gostar de ti – se ainda formos a tempo. Já gostei muito de ti, cheio de promessas, que íamos alcançar a prosperidade, mas há um velho fascista dentro de ti, de quem não te livras por nada. Portugal começa a ser, novamente, o país da velhota com pentelhos no queixo e com um buço de fazer inveja a muito adolescente. Portugal macho, de bigode e palito na boca – que visão! Cuidado com o que vestes, óbistes? Portugal é uma tasca a céu aberto, mesmo com fancy diners, ginásios de última geração e sunset parties muito in. Vómito! Porto Morto, Lixoboa, Aveiro fossa de Portugal.

Não há turbulência nenhuma, não vamos importar estas coisas, essas manifestações, que andam a fazer lá fora. Portugal é a melhor economia do mundo, disse uma revista. Vitória para Portugal! E tu vives onde? Na rua ou em casa dos teus pais. Chupa!

Odeio-te, Portugal. Odeio as tuas elites e os teus ignorantes. Odeio as tuas mentiras e as tuas promessas. Odeio o teu patriotismo bacoco e o teu nacionalismo delirante. Odeio os novos velhos com bigodinho e fato alugado. Odeio os bem-falantes que te comem de cebolada. Odeio quem não nos deixa ser felizes e livres.

Odiar-te é uma tortura, mas agora odeio-te. E tenho medo de começar a gostar disso, porque vão continuar a tirar-nos mais do que nos dão por mais que façamos tudo certo – e não há esperança.

E arrepender-te-ás quando as forcas saírem à rua para pendurar quem antes nos odiou quando só queríamos uma vida digna. Quero ver-te a arder, Portugal – não aguentamos mais!

Que um dia volte a poder amar-te. Hoje não é esse dia.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Os sonhos e a inexplicável obsessão por uma mochila

Sonhar é incrível. Até pesadelos valem a pena. Gostava de uma de duas coisas, ou mesmo as duas: ter talento para desenhar e assim trazer para este lado o que vejo nos sonhos ou que existisse uma máquina que extraísse os sonhos para um ecrã.

Tenho memórias de sonhos de quando era mesmo muito criança e tenho pena de ter esquecido milhares de outros sonhos – mas já aí volto.

Sonho fértil e abundantemente, mas nunca usei essas experiências nos meus contos e livros – e não percebo porquê. Nunca calhou. E esqueço-me da maioria dos sonhos e pesadelos. Sim, porque a imagem vívida que tenho dum sonho ou pesadelo ao acordar no momento esfumou-se de manhã quando acordo de vez. E também não estou para apontar tudo às 2 ou 3 ou 4 da manhã – quero é voltar a dormir com a esperança de que me vou lembrar daquilo horas depois. Pois, não resulta...

Música e outros autores são o que me inspira e influencia diariamente. Os Vulture Industries abriram-me o portal para escrever sobre um inferno que se repete todos os dias, os At the Gates puseram-me a escrever sobre a futilidade da nossa existência, os Katatonia auxiliaram-me na ideia de um desaparecimento, Bernardo Santareno deu-me relatos para escrever sobre a vida no mar, “Bartleby” de Herman Melville desbloqueou-me a trama da imagem que me pairava na cabeça para o meu “o enforcado de cabeça para baixo”, Miguel Torga convida-me a um soturno mundo rural, Kafka inspira-me a escrever sobre o sofrimento e Voltaire ensina-me ironia e sarcasmo.

Conversas também me inspiram. Por exemplo, no outro dia – e falha-me o contexto –, uma amiga com espírito revolucionário mandou-me uma mensagem a dizer “bring guilhotinas back”. Escrevi de volta: “Fazia um date contigo numa execução por guilhotina. Duas pessoas à procura do amor enquanto um capitalista crápula perde a cabeça, literalmente.” Ao que me respondeu: “Ou public hanging de milionários, sei lá.” Bem, se isto um dia não for amor, o que será? Pelo menos, uma boa história.

E os sonhos? Dali não tiro nada, apesar de algumas lembranças. Lembro-me de sonhar com estátuas de pedra que tinham cara humana, uma grande quantidade de mel a escorrer por um armário, uma bruxa com maquilhagem e penteado à The Cure a fazer-me poses shakespearianas, ser sugado por um túnel e pensar que estava a entrar no inferno, descobrir que eu próprio era o diabo depois de um rapaz ter assassinado o tio (paralítico, viciado em pornografia, fechado num sótão) à pancada com uma frigideira. Em criança, lembro-me de sonhar que a minha mãe tinha morrido. Aquilo chocou-me! Recordo-me que sempre que sonhava que alguém tinha morrido e contava ao meu pai, ele dizia-me que estava a dar anos de vida a essa pessoa. Ainda hoje acredito nisso inocentemente.

Com isto tudo, quero chegar às três mais recentes noites da minha vida.

Há três noites sonhei que estava deitado com ela (e ela sabe quem é, porque eu conto-lhe tudo). Apalpava-lhe as mamas e apertava-lhe o pescoço levemente enquanto ela se masturbava e gemia baixinho. Sexy.

Na segunda noite, o cenário mudou. Sonhei que estava a enfiar um gajo meio morto num caixote de madeira, seguidamente embrulhado num saco-cama, pronto a ser expedido sabe-se lá para onde. Não faço ideia do que nos fez, mas não deve ter feito coisa boa para acabar meio morto num caixote. Sabia que a polícia estava no nosso encalço, mas não havia retorno possível.

Sexo e mortes violentas – nada que já não tenha abordado nas histórias que escrevo. Nada de novo...

E agora a terceira noite e o terceiro sonho...

Fui parar a uma festa numa propriedade que supostamente ficava em Ílhavo, mas, na ideia geral do grupo, aquilo ficava realmente em Aveiro. No edifício principal estava o Presidente da Câmara a discursar e a condecorar pessoas num corredor cada vez menos iluminado, ao ponto de ficar mesmo escuro. Saído dali, comecei a dizer que ia escrever no jornal sobre esta pouca vergonha.

À medida que ia anoitecendo, o pátio, antes vazio, foi-se transformando numa feira com venda de roupa e com fornalhas de metalurgia. Aproximámo-nos de uma dessas fornalhas, que estava a ser lavada, e dela surgiu um abundante jato de água na nossa direção. Fugimos a correr e perseguiu-nos uma espumosa e flutuante matéria amarela que se desfazia no ar em pedaços gelatinosos. Uns bocados pegaram-se à minha barba e fiquei pegajoso, até que desapareceu definitivamente depois de tanto tentar arrancar a gosma com as unhas e os dedos.

Perdi o casaco várias vezes, perdi a mochila e andei muito tempo com uma que não era minha. Percebi que aquela mochila não era minha porque me assentava mal nas costas e estava mais pesada do que devia. Comecei a tentar mentalizar-me de que se calhar nem sequer tinha trazido uma mochila e, assim, não a havia perdido. Entrei em alguns compartimentos cheios de mochilas guardadas, mas nenhuma era a minha. Fartei-me de perguntar aqui e ali pela minha mochila, mas ninguém queria saber.

No pátio, cada vez mais gigante, havia um bairro. Fiz sons agressivos e provocadores a um cãozito que veio direito a mim e acompanhado de uma criatura com corpo de bebé e cara de homem adulto, mesmo rufia. Vinham ferozes – o cão era pequeno, preto, quase sem pêlo e com um dente canino de fora, a criança-homem era mulata e vinha com um cigarro no canto da boca, e ambos tinham piercing no septo. A mãe, cabo-verdiana, apareceu muito bem vestida, com trajes tradicionais daquelas ilhas africanas, e achou que o cão e o filho é que tentaram armar confusão comigo e não eu com eles – safei-me de boa. Tentou vender-me uma bebida alcoólica transparente – provei e gostei, mas não tinha dinheiro. Uma pena.

Ainda pensava na mochila, e nem sabia ao certo o que tinha nela. Decidimos ir embora quando estava imensa gente a chegar à festa – amigos e ex-namoradas, do bom e do reles, portanto; mas ignorei tudo e todos. Queria a minha mochila e ir embora, era tarde e tinha de ir trabalhar de manhã.

Como, na minha ideia, a festa era em Ílhavo, sabia que estava perto de casa – era só subir a ladeira e virar à esquerda. Mas não, era em Aveiro e, por conseguinte, mais longe de casa – tinha de arranjar boleia para regressar.

Demos umas voltas por umas ruas e alguns dos meus companheiros ainda entraram num carro, mas dei por mim a tocar uma campainha e a entrar sorrateiramente. Quem me abriu a porta foi a minha vizinha que só sabe gritar com o marido demente, e de repente estávamos nas traseiras da festa donde tínhamos saído.

Procurei outra vez pela mochila e nada. Perguntaram-me se queria erva, ao que respondi: “Só se for para comer...!” De facto, tinham-me acabado de enfiar na boca um bolo que se desfazia em finas espigas de trigo tão reais que até as cuspia e espetavam-se na porta de madeira, como flechas.

Estava meio deitado num sofá e rodeado de pessoas. Estávamos a cantar, aos berros, uma música de Dragon Ball, que estava a dar na televisão. Era uma música que nem existe e o refrão era “Sofrerei! Sofrerei!” com ritmo e melodia a fazer lembrar a “Jerusalem” do Bruce Dickinson, quando ele canta “Let it rain! Let it rain!”.

Um som de vibração fez-me despertar dali, e despertei também neste lado da realidade. Acordado, perguntei-me logo pela mochila e por onde tinha andado naquela noite. Liguei o ecrã do telemóvel e nada de notificações – não sei donde veio aquela vibração. Pelo relógio, estava a dormir há apenas uma hora... e já tinha sonhado isto tudo...

...depois como é que uma pessoa pode ser normal e ciente, não é?