quarta-feira, 28 de maio de 2025

Da noção: más decisões, ou o colapso

Sem inclinação para pontos de vista racionais,
agora estes fragmentos são a razão destruída
em parcelas destituídas de noção.


Prendo a respiração e vejo o tempo. Um minuto, uma hora, uma madrugada – ainda não aconteceu o colapso. Se ao menos soubesses o que podia fazer por ti – mas, depois da madrugada ainda escura e com o céu enegrecido, quando as primeiras luzes começarem a despontar, eis o colapso. Ainda não o previmos, muito menos o sentimos, porque a respiração está presa e bem presa com a segurança de más decisões que são tão boas, mas ele está lá – vamos ficar sem ar quando o ponteiro bater retumbante no momento em que acordamos dos passos cambaleantes, dos embates contra paredes, das mãos sem regras e das bocas molhadas sem atrito.

Mas antes, avançamos. Ninguém nos vai encontrar, nem nós próprios – é a beleza da respiração sustida e das más decisões. A minha promessa, a mais profunda, é que vai ser tão bom agora que vai acabar por ser mau depois quando nos apercebermos do inevitável lapso – e vai acontecer.

Fiquemos quietos – se ficares sem ar, eu também fico.

O colapso. Aí está! Fiquei aqui demasiado tempo, algo não está certo. O que é isto cá dentro que me desorienta? Não prendi a respiração como me tinha garantido que ia fazer. Um minuto, uma hora, uma madrugada. Depois, o dia, a noção do lapso e o colapso.

Eu sou a evidência de que o teste da respiração falhou. E tu – se o passaste, que bom para ti. Será que o vou poder repetir? Será que vais ler as cartas que te vou mandar? Será que me deixas repetir o teste? Será que depois terei a pontuação certa para passar com distinção?

Para trás, já! Ninguém vai sobreviver a isto. Não te sei dizer como ou porquê, mas é isso que vai acontecer. Dentro de pouco tempo mostrar-me-ei menos e entretanto mudo o nome, desapareço da noite, pois é no escuro que me vês. Será na luz que terei um novo nome, sem respirações presas, sem testes, sem pontuações.

Pouco barulho! Não vou tolerar o som dos teus passos e dos teus ruídos. É no silêncio que me ouço a perdoar. Atrás de mim, só o vazio. Se vais ter saudades minhas? Não sei. Vida longa à dúvida!

O que nos irá substituir? Ou quem nos irá substituir? Que memória vamos ter do tempo que passámos sem respirar? Que a dúvida persista – até que ninguém saberá o nosso nome.

Estou melhor sem isto – sem jogos e sem sensações. Mas ainda estou todo partido, porque o meu verdadeiro nome continua a ser dito e pensado. De alguma forma ainda não saí deste matadouro – que és tu. Mas se achas mesmo que me viste, tem de ser provado que não. São os candeeiros da cidade que te ofuscam a visão, que te fazem ver silhuetas suspeitas – e não sou eu. Juro que não sou eu!

Noutro sítio, onde me martirizo, onde procuro os instintos para saber dizer não, parar e ter o discernimento de que é preferível isto do que sofrer quando já for tarde demais, a chuva cai sobre mim. O som da escuridão vem na minha direção – é uma enorme pintura de cinzento decadente. Tão frágil, foda-se! Estou desfeito em bocados. A chuva limpa-me o corpo e borrata-me a alma. Todo eu sou uma pintura de perda e perdição. Está perto de acabar. É o fim da minha vontade. No meio do escuro, feixes de luz que cega vão amparar a queda. Rio-me, porque é tudo mentira – é um engano. As minhas próprias mentiras bem estendidas mesmo à frente dos meus olhos, do meu espírito desfocado, da pintura decrépita que é a paixão.

As emoções fluem num relance de luz e brilham lá no fundo, envoltas em palavras, memórias e decisões pouco aconselháveis. Vou descendo em queda lenta e livre, enquanto me iludo, à espera que a aterragem seja um novo amanhecer, onde a escuridão realmente se transforme em luz, onde as palavras mal percebidas por causa do eco se tornem finalmente percetíveis. Vou aterrar e a repercussão terá uma radiação tão gigante e turbulenta que o meu amanhecer será vasto e duradouro – sem sons desperdiçados, sem visões esgotadas e sem mentiras que embateram em si mesmas durante demasiado tempo. Tudo acabará de vez.

Fragmentos espalham-se pelo asfalto – é a morte do tempo e do ser. Menos um dia a ser devorado por ti, menos um momento a tentar abster-me do falhanço e da derrota. Disperso, olho para paredes outrora pálidas, agora pintadas de vermelho, e ainda tremo ao pensar na minha existência sem forma, que se deixou levar por testes de respiração – mesmo com o colapso a ser iminente.

Não houve inclinação para pontos de vista racionais, e agora estes fragmentos são a razão destruída em parcelas destituídas de noção. Incapaz de voltar atrás e guerrear com o que quer que fosse para passar o teste, eu sou a expressão do remorso – a morte do tempo e do ser, tudo numa espiral recessiva que rui infinitamente. Uma explosão de cinzento avermelhado.

E é assim que alguém se torna leve e com o amor arrancado de si: reprovando em testes que se sabem não vir a ter êxito, sair disso com a cabeça levantada, mudando o nome e evaporando-se, deixando-se ir por aí abaixo até se estatelar. E depois voltar ao topo, recomeçar. Repetição. Merda para isto!

E se alguma vez leres isto, não faças perguntas às quais talvez não tenha respostas. Isto é a renúncia ao básico real e explicativo, é a aceitação do aleatório, das más decisões e do colapso.


(26/05/2025)

cada vez mais fundo, este é o meu inferno

Os tiranos choram sozinhos
enquanto as picaretas balançam de cima para baixo.


(Excerto)
Aqui estou, nu e inadequado, um recipiente de carne destinado a apodrecer como tantos antes de mim e como tantos que ainda estão por vir, para tomar o lugar que hei-de deixar vago. Mas antes, onde quer que estejas, deixa-me oferecer-te o meu amor, se é que ainda podemos fazer algo com isso. Que a terra não me consuma já sem antes ouvires esta súplica. Fui orgulhoso, invejoso, egoísta e vil, e banqueteei-me de tudo com mordaz ganância. Mesmo assim, ofereço-te o meu amor, se é que ainda podemos fazer alguma coisa com isso, onde quer que estejas.

(Indeterminadamente indisponível no blog. Texto incluído na compilação "o enforcado de cabeça para baixo - e outros contos moribundos", o novo livro do blogger, disponível a partir de 1 de julho de 2026.)

as ondas que teimam em trazer-me de volta

(Excerto)
Estou velho. Nem sei se estou cansado do corpo ou da vida. Os meus cabelos são brancos e raros, as minhas pernas custam a mexer e os joelhos chiam como dobradiças enguiçadas, os meus braços tornaram-se finos como palitos, as minhas mãos são o dobro do tamanho do que deviam ser, cheias de calos nos dedos e nas palmas, as unhas crescem grossas mas acabam por se partir como palha seca. A minha respiração é calma, mas está longe de me trazer serenidade. Custa-me ter os olhos abertos, mas quando os fecho vejo coisas que não quero recordar. A visão romântica do mar e nele navegar é uma mentira. É uma prisão, uma desgraceira, uma imundice, uma incerteza. A minha pele é tão rija, tão áspera e tão adusta que não há sol que me faça mais enegrecido. Mas não é só por fora que estou chamuscado.

(Indeterminadamente indisponível no blog. Texto incluído na compilação "o enforcado de cabeça para baixo - e outros contos moribundos", o novo livro do blogger, disponível a partir de 1 de julho de 2026.)

Não sei se consigo voltar para casa...

uma chamada telefónica durante a madrugada


(Excerto)
Quatro e doze da madrugada. Toca o telemóvel. Ela acorda confusa, a pensar que já seria de manhã, que é o despertador. Mas aquele som não é o toque do despertador, é mesmo uma chamada. Enquanto pega no telemóvel, que está em cima da mesinha de cabeceira, estica o outro braço para o lado oposto e percebe que está sozinha na cama. No ecrã do telemóvel, que lhe ilumina a face estremunhada, vê que quem lhe liga é o namorado. Atende, e fala com voz de muito sono: «Estou...» Os primeiros sons que lhe chegam ao ouvido são ruidosos, como um formigueiro da televisão. «Estou...?», repete. «Não sei se...», diz-lhe do outro lado, com a frase a ser cortada por ruídos a fritar a ligação.

(Indeterminadamente indisponível no blog. Texto incluído na compilação "o enforcado de cabeça para baixo - e outros contos moribundos", o novo livro do blogger, disponível a partir de 1 de julho de 2026.)

A carta que nunca vais ler

Quantas e quantos de nós quisemos dizer o que está aqui e não dissemos?
Ou dissemos e rebentámo-nos em pedaços?
É uma carta de amor. Usa-a: fica com ela para ti ou dá-la a alguém.

Esta é a carta que nunca vais ler, porque nunca ta vou enviar, mas vai ser partilhada por aí e mesmo assim não a vais ler. E como não a vais ler, também não saberás que é para ti.

A ingenuidade das primeiras tímidas palavras e o ocultar dos primeiros olhares cruzados, sempre a pensarmos que o outro não percebia, criaram uma fatuidade aparentemente ilógica – isto não estava a acontecer, não podia acontecer e não ia acontecer.

Cheguei a aquecer por dentro e depois a gelar também. Acabaram-se os tempos dos impulsos, das palavras desmedidas, das emoções repentinas e sem filtro. Ganha razão, tem de ganhar a razão. Mas nem sempre foi assim. Voltei a aquecer. O gelo regressou depois. E aqueci novamente. E o meu âmago é uma crise climática constante – todo alterado e adolescente, que, a muito custo, tende a assentar e a ser um adulto racional.

A nossa sorte é que nunca houve promessas, sempre com medo dos estilhaços que nos cortariam os pés se alguns compromissos, inicialmente cheios de empenho, fossem quebrados. Rimos muito, dissemos parvoíces, apanhámos bebedeiras e até tentámos debater filosofia – o que é o estoicismo, o pessimismo e o que somos e andamos a fazer afinal connosco e com os outros nesta curta, preciosa e tão feliz quanto sofredora passagem por este planeta. Somos assim tão únicos no infinito do Universo? Não haverá mais vida complexa na vastidão de milhões e milhões de galáxias? E será que somos assim tão únicos, por cá, que não há mais ninguém por quem nos apaixonarmos?

Vou falar, não vou falar. Vou convidar, não vou convidar. Vou admitir, não vou admitir. O tempo é a resposta: para apagar ou para acicatar ainda mais irresponsavelmente. Quis limpar essa lousa, em que tinha escrito pensamentos, sentimentos e resoluções, e consegui – não durante muito tempo. Ri contigo, ao teu lado ou à distância, enquanto me doía não dizer o que queria – por medo, por respeito, por querer defender a inocência dos risos e das piadas, até dos olhares.

Batemos numa parede quando admitimos, e essa parede ruiu comigo, por uma ribanceira. Não ponderei as minhas hipóteses, aceitei a queda – e lá fui eu por ali abaixo, ao rebolão. E os ossos não seriam o maior problema. A alma é que se partiu toda. Mas também não vamos ser melodramáticos ao ponto de encenarmos uma peça de teatro regada por lágrimas falsas e gritos desesperados que não são mais do que profícua atuação. Isto era só paixão – mas porque não pensar em amor? Não agora, mas depois, talvez um dia destes, pé ante pé, com os mesmos risos, parvoíces, debates filosóficos sobre a música, os filmes, os genocídios e a própria vida, mas com beijos à fugida, apalpões firmes e noites passadas na mesma cama. E se dá merda? Nunca saberemos. Nem estás a ler isto sequer, portanto não importa.

Admitimos, primeiro respirei de alívio e depois, quando acordei, dei por mim espatifado contra um poste de eletricidade que aguenta, intacto, o maior dos camiões – não vai dar, sabemos que é melhor nem irmos por aí. Admitimos, mordemos a língua e vamos sufocar com o nosso próprio sangue. Não é o que te desejo, calma. Mas é o que nos aconteceu. Nem há choradeira, e esse sangue também é só uma metáfora – afinal isto é só uma carta de amor que nunca vais ler, não é um conto de terror sanguinolento.

Se calhar íamos prometer rosas e ficaríamos, pouco depois, com os espinhos cravados nas pontas dos dedos, nas palmas das mãos, nos pescoços, nos lábios, até nos olhos caso nem nos pudéssemos ver à frente. Às tantas íamos achar que conseguiríamos viajar por vários sistemas solares, em movimento de translação à volta de diversos sóis que éramos realmente nós próprios, mas se calhar nunca iríamos sair deste plano terrestre e o primeiro passo dado seria para pisar uma mina e outra e outra, até não haver mais carne e espírito para se ver a despedaçar no ar e a cair desfeito, aos bocados, no chão.

Houve dias em que achei que encaixávamos como puzzles – senti esse fascínio utópico. Mas isso já não é estar-se apaixonado? Não quero. Mas houve desses dias – e alegrei-me, renasci momentaneamente, imaginei cenários, obtive coragem. Só que aterrei, enfim, com o peso da razão que é tão forte como a gravidade. Lá se foram os sistemas solares, as galáxias, os beijos e o arrebatamento, mas ao mesmo tempo também desapareceram as minas e as explosões que nos iam destruir a simplicidade de podermos continuar a ver-nos e a falarmos sem rancor – talvez com alguma tristeza ou passageira relutância, mas nunca com aversão.

Os dias passam e a sagacidade da paixão murcha. E está tudo bem. Tem de estar tudo bem. E não quero voltar a sentir frio na barriga, nem quero ficar com o teu cheiro na minha camisola quando me dás um abraço acompanhado de um sorriso lindo.

E o pior de tudo é que mesmo assim, decididos a não tentarmos nada em nome da paixão, da tesão ou mesmo do amor (porque não?), estilhacei-me como vidro frágil. Acho que vou sangrar mais do que tu. Silêncio.


(31/12/2024)

A Decadência

(Escrito em dezembro de 2022,
reorganizado e livre de heterónimos em dezembro de 2024)
(contém linguagem ofensiva)


Já dizia o poeta que na hora da trova todo o medo estorva. Que poeta? Nenhum poeta, pá! Fui eu quem disse isto, agora mesmo.

Eu, estudioso inveterado da decadência pós-isto, pós-aquilo e do caralho que vos foda, namorado do vernáculo, prometido do álcool e noivo do vínculo à morte certa que me escapa, pelo menos até ontem e até este momento.

Chorem as putas e os pobres, as amantes e as comadres, os snobes dum raio e as elites da merda. Mas riam também, seus burros de carga da sensibilidade oca – riam de quem está ainda mais fodido, não tenham medo de ser cancelados. Até porque cancelados estamos desde que nascemos – a morte é o objetivo da vida.

A decadência não é mais do que rir da desgraça do outro e no fim, sozinhos na cama, à noite, no escuro, choramos como desalmados porque também somos uns desgraçados de merda que nos pavoneamos na rua, mas a sopa é comida na solidão e a punheta não há quem a bata a não ser nós próprios. Ou então choras tu, que eu cá não verto uma lágrima. Que se fodam as lágrimas e a solidão, quero é risota e farra até de manhã! E para quê? Para passado umas horas acordar sozinho, cheio de dores, boca seca como uma cona frígida e ser um roto como qualquer outro sobre quem aqui mal estou a falar.

Ai a decadência, essa mula velha que teima em querer voltar a levantar-se. Chorem para aí, espantalhos esburacados pelos bicos do consumismo, virem até a página e emocionem-se com tristezas bacocas.

Eu cá vou beber até cair, contar histórias aparvalhadas, gozar com os cocainados que já nem têm nariz e rebaixar os ignorantes, esses abençoados do desconhecimento que vão viver mais anos do que eu porque não pensam em lá grande coisa, só nos cinco cêntimos de nada que trazem no bolso sem fundo.

Fodam-se, que eu também me fodo.


(28/12/2024)

Ajuda-me a desaparecer

Escrito em 2021 ou 2022, não sei...
Recuperado no final de 2024.


(Excerto)
«Quem és tu?», perguntou-me um velho que me encontrou a atirar pedras ao rio. Eu não falava com ninguém há meses, até perdi a conta. Aliás, não falo sequer, nem comigo próprio. Por alguma razão que me transcende, decidi falar imediatamente. A minha resposta foi longa e o velho ouviu-me com atenção e aparente carinho.

(Indeterminadamente indisponível no blog. Texto incluído na compilação "o enforcado de cabeça para baixo - e outros contos moribundos", o novo livro do blogger, disponível a partir de 1 de julho de 2026.)

Rosália, a corta-pilas

Spoiler alert:
é o que o título diz

Nunca na Rua de São Lázaro, tendo em conta a ironia do seu nome em relação aos eventos aqui contados, tanta mortandade, e macabra, aconteceu como no ano passado. A velhice colheu uns, o crime ou o acidente colheu outros.

Primeiro o Zé do Assobio, encontrado a boiar num poço. «Então o Zé do Assobio foi encontrado no poço a caminho do ribeiro?», perguntou um homem da rua, na manhã seguinte, enquanto bebericava um café na padaria. «É verdade... Não quero cá pôr culpas em ninguém, e se calhar até caiu com a bebedeira, mas às tantas foi alguma que o atirou dali abaixo», respondeu o empregado. É que o Zé do Assobio, para além de bêbado, tinha a mania de assobiar e mandar umas larachas às mulheres, velhas e novas, que ali passavam, perto do poço, em direção ao ribeiro para irem lavar roupa. «Coitado... Olha, já não assobia mais...»

Uns meses depois, comentava-se na rua que o Tó Crispado, que ninguém lhe podia dirigir a palavra que ele crispava-se logo todo, tinha sido encontrado morto em casa pelo irmão mais novo. «Então o Tó Crispado foi encontrado morto? Envenenado, disseram-me...», cochichou uma velhota. «Pois, parece que sim», respondeu a Rosália. «Olhe menina, também para as coisas que ele dizia às moçoilas quando elas passavam por baixo da janela...» «É assim a vida...», disse a Rosália a afastar-se da coscuvilhice.

A Rosália era uma jovem mulher, solteira, filha única, já sem pais. Vivia sozinha num pequeno apartamento na Rua de São Lázaro, que era a única coisa que os pais lhe tinham deixado – e já não foi mau. Isso e o emprego numa fábrica. «Um teto e um trabalho? Olarilolé!», respondia o vizinho de baixo, um reformado que ainda fazia uns biscastes, quando a velhota de cima lhe sussurrava que só era pena a Rosália estar solteira.

Bonita e sempre bem educada, poucas vezes se via a Rosália. «'Tadita da miúda... Sozinha, é só casa, trabalho, trabalho, casa», também se dizia pela rua. E onde ela mais detestava ir era à loja do Sr. Agostinho. Nunca gostou dele. Desde catraia que ouvia impropérios daquele homem que tinha idade para ser seu pai – tais como: «Olha a Rosália, sempre linda e aperaltada. Se não ficares para o meu filho, quando te fizeres mulher cá te caço!» Rosália sentia nojo desde sempre. O filho do Sr. Agostinho estava emigrado, a mulher tinha morrido com um cancro e a filha tinha-se suicidado, o que não abonava nada em favor dele, porque se apalavrava baixinho pela rua que a menina, acabada de terminar o liceu, se tinha matado por causa do pai. Mas dentro de cada casa, cada um sabe de si.

Certo dia, a Rosália, enquanto pagava as compras, meteu ao bolso um saco de rebuçados, mesmo nas barbas do Sr. Agostinho. «Vá, desta vez escapa. Por seres tão arranjadinha, eu perdoo. Leva lá os rebuçados.» Na semana seguinte, um saco de sal; noutro dia, um pacote de arroz – sempre sem o Sr. Agostinho ver. E noutra ocasião, a Rosália, que já não podia com o cheiro da mercearia e do homem, quis levá-lo ao extremo da paciência e resolveu fazer um número à séria. Entrou com pressa, foi direita à prateleira dos vinhos, pegou em duas garrafas, virou-se e seguiu em direção à saída. «Então até para a semana, Sr. Agostinho!» O homem não queria acreditar naquilo! A menina, a mais educada e airosa da Rua de São Lázaro, tinha acabado de lhe roubar duas das mais caras garrafas de vinho. Não saiu do balcão para correr atrás de Rosália, mas ficou a moer naquilo... «Ai na próxima vez que cá vieres...»

E houve uma próxima vez.

Rosália entrou no estabelecimento, disse boa tarde e dirigiu-se à secção das especiarias como se nada de mal tivesse feito na semana anterior. O Sr. Agostinho foi atrás dela e, encurralada no fundo do corredor, viu o homem a tirar o cinto das calças. «Agora vais aprender a não ser ladra!» Agarrou-a com toda a força, que também não era precisa muita dada a fineza de Rosália, virou-a de peito contra as prateleiras e deu-lhe três chibatadas no rabo. Rosália não só não chorou como ainda gemeu quase sem se ouvir, largando um sorriso maroto e um olhar de soslaio por cima do seu ombro. O Sr. Agostinho não conseguia acreditar naquilo!

Numa insana falta de noção e de pau feito dentro das calças, pegou em Rosália e levou-a para o armazém. De vestidinho cor-de-rosa – leve, curto e com alças finas –, Rosália foi empurrada, com o ventre para cima duns caixotes, e, sem delongas, estava quase a ser penetrada por um velho tresloucado quando lhe disse com voz macia e harmoniosamente sedutora: «Quer comer-me o cuzinho, Sr. Agostinho?» O homem não podia mesmo acreditar no que ouvira! Nem era tarde, nem era cedo! Nunca tinha visto, nem sentido, um rabinho tão redondinho e espichado. «Que ricos vinte aninhos», dizia o homem a arfar. Rosália ria, agora menos inocente. «Quer na boquinha, Sr. Agostinho?» Agora é que o merceeiro se ia mandando ao ar! Nem as mais atrevidas que lhe tinham passado pelas mãos sugeririam tal coisa!

Rosália agachou-se perante um Sr. Agostinho baboso e de olhos a revirar. Agarrou no marsápio enrugado com mais de cinquenta anos, deu-lhe duas, três esgalhadelas e ZAU! Com a outra mão tinha tirado do decote uma faca de ponta e mola bem afiada.

Perplexo, num misto de dor e de espanto, o Sr. Agostinho perdeu as forças nas pernas e caiu, agarrou-se ao que lhe restava da pila, que esguichava sangue a bom esguichar, e berrava de boca bem aberta. Aproveitando isso mesmo, Rosália enfiou-lhe aquele bocado de carne rançosa na boca e espetou-lhe a faca várias vezes numa coxa para o imobilizar o máximo possível. Atirado ao chão, a gritar de agonia, Rosália, com a mesma arma, fez-lhe dois furos na garganta. O hediondo e abusador Sr. Agostinho ali ficaria até ao último gargarejar, afogado com o próprio sangue e sem meio caralho.

Rosália, lançando um último olhar àquela criatura que ela achava imunda e asquerosa, lavou as mãos no lavatório do armazém enquanto ouvia o moribundo a sufocar, arranjou-se como pôde, desamarrotando o vestido cor-de-rosa, e saiu daquele espaço escuro e cheio de humidade, quiçá com ratos e baratas. Depois de ter pegado em mais duas garrafas de vinho, como já tinha feito noutra ocasião, perto da porta de saída deu de caras com uma freguesa que lhe perguntou pelo Sr. Agostinho, pois não era hábito ele não estar junto à caixa registadora.

Rosália respondeu: «Espere um bocadinho. Pode ser que ele (se) venha rápido.»


(29/11/2024)

O morto-vivo de Ílhavo

(adaptação baseada num texto publicado em 1922,
sobre uma estória de 1856)


Corria o ano de 1856, e, reinando D. Pedro V, corria também pelo país a cólera-morbus, que atacava, sem parcialidade, novos, adultos e velhos com cãibras, diarreia e vómitos fortes. Desenvolvendo-se em Lisboa, a região norte e centro virada para o mar também teve a sua quota-parte de pestilência, de Viana do Castelo à Figueira da Foz.

Ílhavo, terra de homens que pescam no mar o sustento ou a morte e de mulheres que amanham em terra o peixe ou a sepultura no peito dos que lá ficam entre ondas e redes, não escapou ao terrível flagelo que dizimou centenas de criaturas. Sem escolher especificamente entre jovens e velhos, ricos e pobres, pescadores e agricultores, a mortandade espalhou-se com um terror e um desânimo profundo que ia, surpreendentemente, abalando as almas fortes dos ílhavos.

À doença, já por si calamitosa, juntou-se a fome que redobrou a aflição e a angústia, causando, nas gentes ribeirinhas, coletivos e abafados suspiros de desalentada esperança. Os barcos-do-mar imobilizaram-se, porque os braços que remavam e puxavam as redes quase não se viam a trabalhar ou a acenar no regresso à praia. Esses braços, fortes e morenos, salpicados pelo salitre, estavam agora pendurados no rebordo de padiolas ou estirados em denegridos caixões. Havia ainda os que, já desolados pelos sintomas, com medo de serem acusados de cobardia, se faziam ao mar na mesma, para, no pico da fraqueza, simplesmente baldearem da embarcação. «Ó Zé, agarra a corda, home!» Muitas vezes, o mar nem estava assustadoramente bravo e salvar-se-ia, com relativa facilidade nessas condições, um pescador forte e obstinado como o Zé, ou outros. O que os companheiros não sabiam é que o Zé – e outros, para não serem enxovalhados pelos veteranos ou ameaçados pelos arrais mais atrozes –, foi ao mar sob agudas fisgadas que lhe perfuravam a barriga sem ferida e sangue aparentes. Caídos às águas, deixavam-se afundar, sem luta. A boina a boiar era o que, por mais uns minutos, sobrava do desafortunado. E depois, só mar. Remava-se de volta ao areal em silêncio sepulcral, ouvindo-se apenas a marejada e o ranger dos remos. Os que o mar não levava, lutavam em terra – e cediam, por fim, estrebuchando até à morte.

Aquele junho, que costumava antever o verão quente de julho e as romarias de todas as Nossas Senhoras de agosto e setembro, era um mês de ceifa humana. As gosmas dos moribundos subiam-lhes pelas gargantas até às bocas em vómitos esverdeados com um cheiro nauseabundo. Quem não sufocava com a lama viscosa vinda das entranhas, sobrevivia mais um bocado com o peito a arder de tanto tossir e escarrar com a ajuda da heroica e magnânima Leocádia Ferraz, que ia auxiliando os atacados com sucessivas abluções de água a ferver.

Na casa que viria a ser do senhor Cartaxo, na Rua Direita, improvisou-se um pequeno e humilde hospital para onde traziam os desgraçados sem família. Muita dor se mitigou ali, muitos doentes morreram a ouvir palavras de esperança e sentido carinho. «O seu filho está a vir do Brasil, tenha calma.» «Claro que vai voltar a ver o mar, agora descanse um pouco.» «Nosso Senhor Jesus dos Navegantes não a vai abandonar.» Havia quem já nem ouvisse a frase completa.

Para os lados da Costa Nova, a noite ia alta, assim como os ais e os roncos de desespero que ecoavam pelas sombrias vielas dos palheiros. Quando não havia berros e choros, de doença ou de perda, ouviam-se vozes mais serenas e passos apressados de pescadores valentes que carregavam para as bateiras os corpos mortos dos flagelados, a fim de os transportar para a outra margem, onde ficam as Gafanhas e o cemitério de Ílhavo. Já indiferentes e automatizados pela tarefa, os homens firmavam os seus pés no ventre dos cadáveres empilhados para a remada ser mais forte. Tamanha era a descarga de força que, várias vezes, os corpos – uns ainda moles, outros mais hirtos – rebolavam para cima dos vivos a remar ou borda fora. Os que estavam mais no fundo da pilha assustavam quando, do nada, esgazeavam os olhos mortiços e nublados.

Com os pés na areia, seja a da Costa Nova ou das Gafanhas, o padre Fernando, tido pela comunidade como um santo levita, há muitos dias que não tirava a sotaina e o sobrepeliz, pois andava de povoação em povoação, fosse dia ou fosse noite, sem descanso, a abeirar-se dos doentes, a confessar este e a consolar aquela.

A 30 de junho, pela meia noite, viu-se a si mesmo no sul da Costa Nova, num miserável palheiro, a afagar com orações um pescador às portas da morte. A hora era já adiantada quando o antigo marítimo, com voz fraca, humildemente balbuciou: «Adeus, senhor padre Fernando...» E morreu.

De pé, no topo das dunas, o padre Fernando era uma estaca. A batina dançava, flutuava, livremente à sua volta por causa da aragem branda que vinha do sul, perfumada de maresia. Virado para o mar – que não não via, mas que sentia através da audição e pelas narinas –, tinha os olhos rasos de água e o coração oprimido. Com tristeza, mas ainda com mais fé, elevava a Deus os seus pensamentos, implorando a misericórdia da Senhora da Saúde, que, como cria o padre Fernando, nos céus velava a sua Costa Nova. E chorava a bom chorar, sozinho e sem timidez.

Subitamente, vindo do fundo, um barulho brusco cortou o silêncio – só ouvir as ondas também é estar em silêncio – e sacudiu a postura estoica do sacerdote. Numa correria trágica e rápida, esquecendo as lágrimas, salgadas como o mar que evaporavam da face, desceu a ladeira e travou à beira da luz duma candeia de azeite. Dois homens rodeavam um pestilento. Um amarelo de bílis escorria-lhe pelos cantos da boca ressequida pela febre. Suava muito. Num último ato de bondade, o padre Fernando sentou-se no chão e colocou a parte superior do corpo do doente no seu regaço, como se de um bebé se tratasse. Depois de ter respirado muito fundo e estremecido, a cabeça do enfermo tombou. «Levem-no, que está morto», disse o padre.

Os outros dois homens pegaram no defunto e levaram-no para a bateira mais próxima. Remaram para o outro lado da margem e, na Gafanha, já na zona da Mota, transladaram o morto para uma padiola. Um à frente e outro atrás, carregaram o corpo pelo antigo caminho de areia em direção a Ílhavo.

Os dois vivos, atrevidos pescadores labregos que pouco conheciam da sua própria terra, caminhavam silenciosos e abatidos em contraste com as extraordinárias façanhas que operavam no mar e que tantas vezes encorajou a ralé. Em cima dos possantes ombros, a maca rudimentar tremia e fez com que o morto se revirasse, descaindo-lhe uma das pernas. Para aliviar o fardo, pararam junto a uma mouteira de tramagueiras. Ambos fizeram um cigarro e, ao acendê-los, iluminaram sem intenção o rosto do morto.

«Parece que o homem abriu os olhos», disse um, ao que o outro respondeu: «Qual abriu nem meio abriu! Tu não ouviste o senhor padre dizer “levem-no, que está morto”? Antão está. Pega que se faz tarde, são duas horas.» «Põe-lhe a perna para cima», ordenou o primeiro.

Ergueram a padiola e continuaram a caminhar, atirando para o ar prolongadas fumaças dos cigarros que ainda duravam. Pesadas nuvens, que pareciam feitas dum negro veludo, encobriam um raquítico luar que, quando aparecia, esbatia a figura do morto na areia branca das dunas. Voavam aves agoirentas, chegavam rumores do mar, como alguém a gemer, mas nem uma casa ou uma luz se via, muito menos gente. Caminharam mais, a modos que sem rumo, pisando o solo, pé ante pé, com temor, através de um carreiro duvidoso até serem primeiro alarmados e depois paralisados pelo sino que dava meia hora para as três da madrugada. Estavam, sem saber, junto à ponte Juncal. Do outro lado, Ílhavo.

Passaram a ponte e seguiram pelo estreito e delgado caminho da Barquinha, descendo depois o pequeno declive do Outeiro. Numa encruzilhada, viram-se novamente indecisos, sem saber por onde ir. «Ó que diacho! Qual será o caminho pró cemitério?»

Erguendo a cabeça na escuridão e apontando com a mão direita, o morto respondeu: «Quando eu era vivo ia por aqui, agora que sou morto, levem-me por onde quiserem!» E levaram, sem ais nem uis, seguindo a indicação do morto com vida…

Encontrado o cemitério, aí se abriam profundas covas, como é costume em tempo de epidemia. Numa espécie de vala comum, sepultavam-se três, quatro ou mais cadáveres. Trabalhava-se todo o dia e toda a noite.

O homem da padiola que os dois pescadores da Costa Nova julgavam morto, mesmo depois de ter falado, foi estendido num robusto caixão de pinho e este lançado para uma sepultura onde já se encontravam outros dois. E nem uma lágrima, nem sequer uma reza. Só trabalho.

O coveiro, um tisnado e forte adulto rapagão, a quem a cólera parece não ter atingido, atirou-se à enxada e começou a lançar pazadas de terra vermelha, em contraste com a areia clara das praias ali tão perto, para cima dos caixões. A manhã rompia quando o coveiro alisava a campa improvisada. Retirou-se. Exausto, atirou-se para cima duma velha lousa, que certamente iria ser usada para tapar uma sepultura mais requintada, e adormeceu.

Tinham passado quinze dias, e a cólera tendia a desaparecer. O povo ilhavense, agora mais animado, juntava-se no adro da igreja a dizer preces e louvores em direção ao céu, agradecendo as melhorias ou a pedir que isto não voltasse a acontecer. Dali seguiam para o cemitério, para se chorar a perda dos entes queridos. Muitas pessoas não encontravam as sepulturas dos que muito amaram devido à quantidade de inumações desorganizadas que tinham acontecido nos últimos tempos, o que redobrava de amargura a sua profunda dor.

Entretanto, o coveiro-vígia, no cemitério em permanência, vinha notando há dias que, da cova onde se enterrou o da padiola, surdia por vezes um ruído vago e estranho, como um som de assobio fraco, à semelhança do sibilar do vento em ciprestes. «Que diabo seria aquilo?», cismava, franzindo a testa.

Certa manhã, a sua curiosidade já demasiado espicaçada, levou-o ao local em concreto. Deitou-se de bruços sobre o coval e colou o ouvido à terra. Agora, depois do cisma, não lhe restavam dúvidas: alguém falava baixinho. E ouvia soquear em tábua.

«Quem quer que seja, está aos murros no caixão», pensou o coveiro-vígia. E, de repente, com vigor, o morto gritou: «Eh gente! Eh de cima!» O coveiro deu um salto, tomou ar com o sobressalto, os cabelos ficaram eriçados como a rama de vassoura e, atirando o chapéu com violência, tornou a deitar-se, encostando o ouvido ao chão e berrando assim:«Eh de baixo! Quem chama é gente, ó quê?!»

«Eh! Jaquim Salimo, sou eu, homem! Então eu fico aqui eternamente?! Olha que já se me acabou hoje a broa de pão que trazia no bolso!», respondeu o morto, que afinal estava vivo.

Sem mais palavras, o de cima, vivaço e com pressa, pegou na enxada e, com a fúria de um leão ferido, começou a cavar até chegar à tábua. Nervosamente, com o olho da enxada deu tamanha pancada no caixão que as tábuas superiores saltaram em bocados.

Vagarosamente, pachorrentamente, o suposto morto esfregou os olhos, saltou dum pulo para cima e, agarrando-se ao Salimo, deu-lhe tal esticão às costelas que este, aflito e sem ar, resmungou: «Eh ti Salvador, parece que nem esteve quinze dias sem comer! Anda daí beber um quarteirão de aguardente, homem!»

E lá foram os dois, de braço dado, para a loja da ti Calçoa.

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Nota

O texto original (que não este – já lá vamos), assinado simplesmente por Jorge Manuel, foi publicado na edição de 14 de maio de 1922 do jornal “O Ilhavense”, sendo escrito em post-scriptum que “correu fama este facto” do morto-vivo e “houve nesse tempo quem risse e quem chorasse”. Sabe-se também que no ano da publicação, 66 anos depois da suposta ressurreição, ainda existia a casa onde habitou o ti Salvador, precisamente na Viela do Salvador, em Ílhavo. Após breve pesquisa toponímica, podemos dizer quase com certeza que o nome da viela, localizada perpendicularmente à Rua Serpa Pinto, nada tem a ver com o ti Salvador, existindo pelo menos desde o Séc. XVIII. Sabe-se ainda que a casa do morto-vivo ficava em frente à antiga habitação das tias Angélicas.

Terra de muitas histórias sobre o mar – umas escritas, outras transmitidas oralmente –, esta do morto-vivo contrasta com essa corrente, sendo uma das poucas lendas, ou estórias para ser mais correto, relacionadas ao terror e que está publicada de qualquer forma, neste caso num jornal.

Amante deste tipo de historietas, usando muito disto como inspiração para os meus livros anteriormente editados, decidi pegar no texto original e, sem mudar o rumo do enredo, dar-lhe mais corpo num formato mais livre que não esteja encurralado no espaço que uma página de jornal permite. Se me julgo no direito de o fazer, esse é outro assunto que penso não arreliar ninguém, muito menos os meus conterrâneos ilhavenses, que são, ainda assim e muitas vezes, propensos a arreliações imaturas.

No fundo, este é um exercício de adaptação que há muito desejava fazer. Tomei a liberdade de adicionar alguns momentos de ação ou de paisagem emocional, assim como também pretendi utilizar expressões e estruturas frásicas presentes no texto original. Pensei até em aumentar o final, deixando no ar, por iniciativa própria, que hoje, em 2024 e nos anos vindouros, ainda se ouve o ti Salvador a andar pela viela, a rir-se da sua ressurreição e talvez a enxotar a morte, a gozar com ela. O que é certo é que, apesar de alguma piada que isso poderia trazer, não é o que se conta por Ílhavo; portanto preferi ser mais tradicional em relação ao escrito de 1922 e deixar como está, com um final infantil e patético, não no sentido da estupidez mas no da inocência e sem maldade – afinal, alguém morreu, ressuscitou ao fim de quinze dias e, sem perguntas, segue-se para a loja da ti Calçoa emborcar uma aguardente.

Por fim, acho também fascinante como o relato começa pesaroso e termina comicamente, como se isto fosse uma alegoria aos tempos conturbados da cólera que atacou no Séc. XIX, como se esta lenda, ou estória, fosse naquela altura o #VaiFicarTudoBem dos nossos tempos.


(19/09/2024)

A minha rua é uma (triste) alegria

Uma apreciação semi-ficcional
sobre
bêbados,
drogados
e
felizes infelizes
ou
infelizes felizes,
não sei bem,
é uma das duas.


(Excerto)
São nove da manhã de segunda-feira e estou a abrir a porta do meu emprego. Trabalho numa revista mensal de utilidades para a casa, desde como se pregar um prego bem pregado à melhor receita de bacalhau, desde como melhor se envernizar uma porta de madeira ao melhor arranjo de flores. Dá para homens e mulheres, e sobretudo tem rendido muito às funerárias. É que os nossos assinantes são maioritariamente de idade avançada, o que não é bom para nós, porque vamos ficar sem subscritores, mas é bom para as funerárias. É tão bom que até temos duas páginas de publicidade com orçamentos para enterros, caixões e toda uma parafernália de coisas que servem mais para alimentar as vistas de quem cá fica do que para o corpo, brevemente em pó, de quem vai. Bem vistas as coisas, também rende para nós, porque nos é comprada publicidade. Ficamos todos a ganhar. Se bem que mortos nunca acabarão, e esta revista tem os dias contados. Cá nos aguentamos. Do lado esquerdo existe uma mercearia que está sempre para fechar mas fica mais um mês e do lado direito há um pequeno restaurante que está sempre às moscas. A única animação vinda do restaurante é ouvir o dono ao telemóvel a discutir com a irmã. Ao que parece, a tipa é interesseira e o irmão, que é mais velho, não consegue que ela atine. «Quando isto dava no verão, estavas sempre aqui a mamar do irmão, agora que não dá, passas meses sem pôr aqui os pés!», berra ele para toda a rua ouvir o espetáculo.

(Indeterminadamente indisponível no blog. Texto incluído na compilação "o enforcado de cabeça para baixo - e outros contos moribundos", o novo livro do blogger, disponível a partir de 1 de julho de 2026.)

Inocêncio - à espera da morte ou da revolução

(Excerto)
Inocêncio foi condenado à morte. Na sua cela há três dias, após lida a sentença, a espera pela chamada rumo ao cadafalso estava a alongar-se mais do que o julgamento, que fora operado numa questão de minutos após a sua detenção.

Julgava-se e sentenciava-se tudo e mais alguma coisa, grandes e pequenos delitos. As prisões estavam lotadas e o corredor da morte era um corrupio para lá e para cá. Havia tantas execuções diariamente que Inocêncio teve de esperar pela sua vez, ali na sua cela, a penar de ansiedades. Não havia hora marcada para subir ao cadafalso e receber a corda à volta do pescoço. Era como se tivesse uma senha e simplesmente esperasse pela sua vez, só que na lavandaria pode desistir e voltar mais tarde, aproveitando assim para ir tratar doutros assuntos. Mas enjaulado, a senha invisível que lhe tinham dado à força representava uma espera obrigatória para um fim imutável, não podendo optar por primeiro ir comprar o jornal e depois voltar à lavandaria para levantar o casaco que tinha mandado limpar a seco.

(Indeterminadamente indisponível no blog. Texto incluído na compilação "o enforcado de cabeça para baixo - e outros contos moribundos", o novo livro do blogger, disponível a partir de 1 de julho de 2026.)