quarta-feira, 28 de maio de 2025

Inocêncio - à espera da morte ou da revolução

(Excerto)
Inocêncio foi condenado à morte. Na sua cela há três dias, após lida a sentença, a espera pela chamada rumo ao cadafalso estava a alongar-se mais do que o julgamento, que fora operado numa questão de minutos após a sua detenção.

Julgava-se e sentenciava-se tudo e mais alguma coisa, grandes e pequenos delitos. As prisões estavam lotadas e o corredor da morte era um corrupio para lá e para cá. Havia tantas execuções diariamente que Inocêncio teve de esperar pela sua vez, ali na sua cela, a penar de ansiedades. Não havia hora marcada para subir ao cadafalso e receber a corda à volta do pescoço. Era como se tivesse uma senha e simplesmente esperasse pela sua vez, só que na lavandaria pode desistir e voltar mais tarde, aproveitando assim para ir tratar doutros assuntos. Mas enjaulado, a senha invisível que lhe tinham dado à força representava uma espera obrigatória para um fim imutável, não podendo optar por primeiro ir comprar o jornal e depois voltar à lavandaria para levantar o casaco que tinha mandado limpar a seco.

(Indeterminadamente indisponível no blog. Texto incluído na compilação "o enforcado de cabeça para baixo - e outros contos moribundos", o novo livro do blogger, disponível a partir de 1 de julho de 2026.)

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