(Excerto)
Estou velho. Nem sei se estou
cansado do corpo ou da vida. Os meus cabelos são brancos e raros, as
minhas pernas custam a mexer e os joelhos chiam como dobradiças
enguiçadas, os meus braços tornaram-se finos como palitos, as
minhas mãos são o dobro do tamanho do que deviam ser, cheias de
calos nos dedos e nas palmas, as unhas crescem grossas mas acabam por
se partir como palha seca. A minha respiração é calma, mas está
longe de me trazer serenidade. Custa-me ter os olhos abertos, mas
quando os fecho vejo coisas que não quero recordar. A visão
romântica do mar e nele navegar é uma mentira. É uma prisão, uma
desgraceira, uma imundice, uma incerteza. A minha pele é tão rija,
tão áspera e tão adusta que não há sol que me faça mais
enegrecido. Mas não é só por fora que estou chamuscado.
(Indeterminadamente indisponível no blog. Texto incluído na compilação "o enforcado de cabeça para baixo - e outros contos moribundos", o novo livro do blogger, disponível a partir de 1 de julho de 2026.)
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