terça-feira, 30 de setembro de 2025

strepitus mundi

Ter-vos-emos de joelhos perante o barulho do mundo
e as vossas inquietações não serão mais parte de nós.

(Excerto)
Habituamo-nos a que o barulho do mundo ribombe quando tudo rui, quando ficamos debaixo dos escombros, quando não há saída e quando as lágrimas são o único sustento. A derrota pode ser romântica, mas nunca gloriosa – e não nos contentemos com isso. Baixar os braços e os ombros, caminhar a olhar para o chão e empalidecer a cada afronta, tudo isso abafa o verdadeiro barulho do mundo.

(Indeterminadamente indisponível no blog. Texto incluído na compilação "o enforcado de cabeça para baixo - e outros contos moribundos", o novo livro do blogger, disponível a partir de 1 de julho de 2026.)

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Finitude

Antes olvidado do que miserável.


É sob os céus cinzentos da ignorância e do egoísmo que decido ir-me embora. A eletricidade citadina apagou-se em mim.

Num canto da cidade, uma árvore plena e verde – tive de a abandonar. A tristeza era esmagadora demais para me manter protegido pela sombra aconchegante daquele ser magnífico que testemunhou indizíveis alegrias.

Sem sombra, de beiral em beiral, com um cigarro incandescente entre os dedos, houve dias em que o sol desceu sobre mim quente e agreste. Voltar à frescura da sombra da árvore viva e verde estava fora de questão. Desaparecer era a única maneira de encontrar alívio.

Merecedor de um bom e bonito fato, vejo-me deitado numa caixa estreita onde caibo perfeitamente. Camisa e colete cor de vinho tinto, casaco e calças negras, sapatos pretos engraxados. Enrolado nas mãos sobre o ventre, um prateado relógio de bolso sem ponteiros. Cabelo rapado, barba aparada com o maior dos cuidados.

No início do outono eu já estava desaparecido. Nunca fui encontrado, o meu corpo nunca foi recuperado... até agora.

Fui enterrado num outro sítio que não o meu – sozinho, sem choros e sem cerimónias.

Enterrado numa cova sem nome e sem lápide, entre monumentos e debaixo das copas de árvores tão lindas e verdes como aquela da minha cidade. Entre estátuas e fontes, uma nova vida sem vida podia começar para mim, neste tão exato dia que marca o fim do velho caminho que percorri.

Será que terei saudades vossas? Será que terão saudades minhas, num tempo e espaço em que já ninguém procura nada e onde não há nada para ser procurado? Quando todos tivermos morrido e ido para o silêncio da eternidade, seremos esquecidos e perdidos nas lembranças da Terra. Antes olvidado do que miserável.

Não passámos juntos os anos que devíamos ter passado.

Esperar por algo que nunca chegaria foi uma escolha minha. Extinguir-me também. Embora o mundo tenha ficado completamente desaustinado, creiam que me fui pacífico e calmo, convosco firmes no meu coração.


(24/09/2025)

terça-feira, 16 de setembro de 2025

O pesadelo do Ser e o eterno inverno da Razão

 Cair, levantar, antecipar, alucinar – repetição.
Ninguém quer saber.


(Excerto)
É um horror cerebral pensarmos que não nos lembramos de nada antes de nascermos – nem mesmo dos primeiros anos em que já respirávamos e chorávamos por leite materno enquanto as primeiras cores, agora esquecidas, nos invadem os olhos – e temermos para onde poderemos ir quando cessarmos a nossa existência física. Pois que não tenhamos receio – será igual depois ao que foi antes: oco, vazio, inerte, indolor, nada.

(Indeterminadamente indisponível no blog. Texto incluído na compilação "o enforcado de cabeça para baixo - e outros contos moribundos", o novo livro do blogger, disponível a partir de 1 de julho de 2026.)