domingo, 2 de agosto de 2026

Julho e Outubro - lamento e perdição

Ela chama-se Julho e ele Outubro. Em Agosto dormiram juntos e em Setembro ela a ele não lhe saiu dos pensamentos.

De todas as pessoas sobre quem já escrevi, para último tens ficado, minha Julho quente que se esquiva de mim, qual ser escorregadio, todos os outros meses e imensos anos. Para o fim tens ficado, porque para ti tencionei reservar algo mais cerimonial e lírico. Tarefa árdua esta de deixar para memórias futuras um testemunho sobre ti, que tão pouco tempo ficaste mas que por tantas temporadas me atormentas. Por isso, por parecer ser difícil firmar-te em palavras, inspiração devia pedir às musas, ninfas e outras potestades fantásticas, que moram ora nos longínquos bosques helénicos, ora nas margens de um qualquer rio esquecido mais perto de nós. Mas não, inspiro-me antes diretamente em ti, que existes, em quem já toquei e de quem já de viva voz ouvi.

Soa tudo solene, com pretensões epopeicas, mas nem isto é poesia – para a qual não tenho talento ou engenho –, nem é sobre uma viagem aventureira à moda de Odisseu que vinte longos anos esteve longe da sua pátria, nem sobre um Satã caído no profundo Inferno, por inveja sua ao Unigénito, que prometeu arruinar a Humanidade quando, tornado Serpente, aquela maçã, detentora de alegado conhecimento sobre tudo, deu a provar à ingénua Eva. Ainda assim, e incorro já em me apropriar demasiado de Homero e Milton, tens sido, ao longo das Estações, o meu lótus e eu o teu lotófago, que provei e mais não quis regressar a casa, e o meu Paraíso, depois Perdido, que profanei ao desejar conhecer melhor com toque, saliva e gemido.

E após uma pausa, retomo a tua lembrança, que tanto me faz arder o peito como me resfria a barriga. Uma pirosice, bem sei, como tudo isto, aliás. Um embaraço, que poderá vir a ser público, armado em romancista de cordel, coisa que não intento ser. Aqui estou, porém, a recordar aquela a quem chamo Julho, porque nessa e dessa Lua nasceu. E se do estio brotou, décadas mais tarde havia de se cruzar com um ente outonal – eu mesmo, Outubro, o mês dez, de maestria, que na realidade é oito, de infinito.

Esta mania, para não me esquecer e não ser esquecido, de pôr por escrito passageiras vivências, um dia há-de trazer-me dissabores quando, com alguém que tomarei por certa e duradoura, decidir assentar e seguir em união – mas a quem o obreiro deve justificações? A ninguém. Poderei sempre dizer que foram só frutos da imaginação... E assim me desmascaro já, porque está bem à vista desarmada que não se trata apenas de imaginação fértil. Invejas e inseguranças, que venham elas. Depois cuidarei disso, pois agora prefiro cuidar de não esquecer Julho.

«Hoje podes fazer de mim o que quiseres», disseste. E eu, parvo, não absorvi inteiramente esse aviso. Esperei, sem saber de verdade se ias ficar ou ir embora, até à nossa privacidade. Podia antes, durante as horas em que estivemos no meio de pessoas, logo ter-te puxado, de vez em quando, para mim suavemente e quiçá a medo, começado a explorar as tuas linhas corporais ocultadas pela roupa e antecipado ou preparado, com sedução leve, o resto de noite que possivelmente iríamos ter.

Pois que Outubro é astuto e justo, mas ponderado e, mais vezes do que menos, receoso. E esta Julho, que não sei ao certo se é como as outras, é misteriosa e efémera, ainda que «hoje podes fazer de mim o que quiseres». Estúpido, eu.

Quando as nossas línguas se enrolaram, no escuro, com Julho esbelta em cima de Outubro surpreendido, nenhuma sensação igual outrora tinha experimentado. Estupefacto pela destreza daquele molhado e macio músculo feminino, senti-me dominado e comandado. Por mim, num total estado de entusiasmo e compromisso, desceram milhões de mínimos choques elétricos que, unificados, se tornaram num só explosivo – poderoso e divino. Aquele beijo serpenteado, com veneno erótico, matou-me ali, rendi-me, e aprisiona-me em celas de anseio sempre que o relembro. Lá virão as futuras possíveis zangas com quem quer que se atravesse comigo para ficar de vez, mas admito: nunca ninguém me invadiu assim. E gostei. Relembro Julho e o seu beijo dominante com pasmo e carinho, com vontade de regressar e repetir.

Mas Julho é fugidia. Escapa-me irritantemente e aparece-me em sonhos, mais do que devia. Foi até, devo confessar, num sonho que dei o nome Julho a ela e Outubro a mim. Foi nesse sonho, enquanto escrevia com ela a meu lado, que recordei o nosso leito partilhado em Agosto e o infame Setembro que prometia ser o cenário para finalizar o que tínhamos começado e nunca aconteceu.

Janeiro é frio, Fevereiro traz falsos enamoramentos, Março tem um temperamento imprevisível, Abril promete liberdade, Maio reserva-se ao trabalho, Junho é antecipação, Novembro é chuvoso e Dezembro é demasiado distante. Resta-nos aquilo que somos: Julho e Outubro, cada um com os seus traços peculiares e próprios que teimam no afastamento, mais ela do que ele. Sem esquecer Agosto, que fugazmente nos juntou, e Setembro, que muito jurava a reunião mas que, enfim, nos separou e me deixou à deriva.

Por mais momentos juntos, mesmo que passageiros e rápidos, voltava a Julho sem hesitação, quantas vezes fosse intimado a tal. E assim dou-te um poder que a ninguém devia dar: manietas-me os movimentos em direção a ti e obrigas-me a abafar desejos, não me dás a liberdade de te ter mais uma e outra vez. E foges-me sempre. Mas, também, admitamos: se voltasse mais e mais, como depois escreveria lamentos e perdições sobre ti?

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Saudades da Galiza...

...d’A Coruña; de Tebra; da La Gata Manda; d’A Cabana; da viagem de carro com a Cassie, que ouviu as minhas gotiquices; de termos descoberto a estação de rádio Los 40 Dance e de ficar essa a expressão como mote para tudo e todos os momentos; dos gatos ao pé do aeroporto; dos Hazing Lungs; da cara confusa do Bongas quando lhe disse que era o mais bonito da banda e que ia dormir com ele se não encontrasse antes uma galega; da paixão repentina e fugaz pela Bea, que voltei a ver por duas vezes meses mais tarde; dos Cruzeiro, que voltei a ver por uma vez meses mais tarde; das carnes grelhadas na La Gata Manda; dos concertos dos Hazing Lungs e dos Cruzeiro; da Bea começar a falar para mim do nada durante Hazing Lungs e eu não perceber patavina, porque barulho e castelhano não conjugam; da música que os Hazing Lungs me dedicaram por eu não gostar dela e que afinal passei a gostar; de quem falava galego; da espanhola que se estava a fazer a mim nas barbas do namorado; da simpatia do namorado dela; dos dez minutos que passei com a Bea, e praticamente calados, no banco de trás do carro da Cassie, a pensar se ela vinha passar o resto da noite connosco;

da mansão quasi-abandonada, com salas, salinhas e salonas, onde dormi com o Bongas de um lado e o Abrantes do outro; dos snacks e da cerveja que estavam à nossa espera nessa casa; de dançar Covenant às quatro da manhã; de dizer que não me ia foder todo na primeira noite e afinal era o mais bêbado; de explorar o casarão; de fazer uma tour matinal pela mansão e filmar, para mandar à Ingrid, para ela ver que eu não estava a mentir; da piscina, que com tanto verdete já tinha em si criado um novo microcosmos, e do campo de basket, decrépito e a fazer lembrar filmes de terror; de uma das casas-de-banho da moradia, que era alcatifada e tinha um rádio embutido na parede (que não funcionava) e uma campainha; do pequeno-almoço com bolo doce de Vale de Ílhavo e Um Bongo; do Abrantes se lembrar que queria tomar banho no preciso momento em que estávamos a sair para ir almoçar; do Zé não esperar por nós e arrancar, mesmo com a Cassie a ter acabado de dizer para esperar, porque eu tinha de fechar o portão da mansão; das selfies com o Coutinho, só por irmos despejar o lixo ao ecoponto mais próximo; das conversas com o Coutinho; do passeio pelo forte militar no meio da água, n’A Coruña; da propaganda anti-regime-central de Madrid colada nas paredes e escrita em galego;

da viagem entre A Coruña e Tebra, confortável no banco de trás do carro da Cassie, meio ressacado, meio relaxado; das estradas no meio do mato a chegar a Tebra, que nem sei como o GPS as reconhece; de ouvir Scooter nessas mesmas recônditas estradas; do cheiro de Tebra; do cheiro do mato que envolvia A Cabana; das flores cor-de-rosa que caíam de uma árvore; de finalmente ter-me reencontrado com a Super Bock; de ter conhecido o Moura; da hospitalidade do Moura; do chavalo chapado dos Deadworms; do outro chavalo dos Deadworms que não viveu o boom do post-hardcore, mas que adorava a cena e gostou das histórias que lhe contei sobre isso; dos Deadworms; da cara surpreendida de um galego quando eu disse que já tinha cagado cinco vezes naquele dia; da decoração da casa-de-banho d’A Cabana, com as paredes vestidas de revistas parolas dos 90s e cartazes de romarias populares; do jornal anarquista A Batalha prostrado na casa-de-banho d'A Cabana; do retrato de Buenaventura Durruti pendurado n’A Cabana; das carcaças de animais a secar, ainda com bocados de carne putrefacta; das conversas sem fim, regadas a álcool e alimentadas por substâncias várias, na esplanada d’A Cabana depois dos concertos de Deadworms, Cruzeiro e Hazing Lungs; do cão muito velhinho que se arrastava com grande dificuldade; do cãozarrão que andava por lá e nos alertava de qualquer barulho vindo do mato, para nos proteger; de me deitar às quatro e tal da manhã e às sete fazer uma curta caminhada com o Coutinho, a levar com a brisa da aurora na venta; de voltar a adormecer na tenda, que se sentia tão confortável; de almoçar atum e salsichas com a Cassie à beira da tenda; de fazer palavras-cruzadas enquanto contemplava a paisagem verde; de passar duas ou três horas em silêncio, no meio do monte, sem nada para fazer;

da viagem de volta, sempre nas calmas; de termos encontrado o Red no Porto; de termos jantado todos juntos (eu, os Hazing Lungs, a Cassie e o Red); do Benfica ter vencido o Sporting, mesmo que o jogo já não contasse para praticamente nada; de chegar a casa todo roto, mas feliz; de tomar um banho; de me deitar na minha cama; de recordar tudo o que se passou naqueles últimos três dias; de me ver ali convosco.

sábado, 18 de julho de 2026

Quem diz a verdade não merece castigo

Já se escreveu ou fizeram filmes sobre sociedades em que não se conhecia o conceito de mentira ou que toda a gente votou em branco ou que a morte tirou férias e ninguém morreu, mas nunca se escreveu ou fizeram filmes - que eu saiba, porque nunca li todos os livros, nem vi todos os filmes, nem nunca lerei, nem nunca verei - sobre a estupidez da verdade e a sua recompensa, qualquer que seja o antecedente.

Pois que haverá uma sociedade em que a honestidade anda de mão dada com a estupidez, e toda a verdade, seja ela qual for, será recompensada.

Um homem saiu de casa todo ensanguentado e com uma enorme faca na mão. A sua família, lá dentro, estava morta. Foi preso e levado a tribunal.

Juiz: Como se declara o réu?
Réu: Culpado.
Juiz: Então, é verdade que matou toda a sua família?
Réu: É verdade.
Juiz: Ilibado. Pode sair em liberdade.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Lifelover: ridicularização em estado puro

álcool e medicamentos

depravação sexual e ansiedade
sangue e cicatrizes


Lifelover veio ao mundo em junho de 2005. O vocalista Kim “( )” Carlsson e o guitarrista Jonas “B” Bergqvist conheceram-se, embebedaram-se, começaram a compor música, gravaram e divulgaram imediatamente material de promoção repleto de sons ambiente e guitarras soltas – a miséria improvisada que lhes toldava as mentes.

O primeiro álbum “Pulver”, gravado entre abril e maio de 2006 e lançado logo em julho seguinte, seria tido posteriormente como um disco pioneiro. Ainda que o estatuto de criadores do black metal depressivo possa estar reservado aos também suecos Shining, fundados por Niklas Kvarforth em 1996, não é de somenos sublinhar a importância dos Lifelover neste campo mais obscuro de um subgénero musical já de si negro, pois a base black metal era trespassada por melodias alegres, a fazer lembrar pop, deixando quem ouve num estado de confusão e perplexidade. A ideia era muito simples: mais do que possivelmente ridicularizar o estilo musical, era objetivo suavizar, ridicularizando – passo a redundância –, problemas do foro mental, como a depressão. E embora algumas músicas, como a famosa “M/S Salmonella”, tivessem essa tal toada (pseudo)alegre, as letras eram um tratado à depravação sexual, à decadência urbana, ao suicídio, aos medicamentos, ao álcool e às drogas – daí ter surgido o termo “narcotic metal”. Depois há ainda a icónica capa: a mulher, Eleanor, nua e ensanguentada, rodeada por primaveris anémonas-dos-bosques.

A sátira – que começava logo no nome, com B a revelar que a ideia surgiu de um homem que lhe chamou «amante da vida», possivelmente devido às aventuras alcoólatras e medicamentosas – prosseguia e passava eficazmente dos discos para os palcos, com Kim Carlsson, banhado em sangue e cravado de cicatrizes, a fazer danças inocentes e joviais, ou com o uso de chapéus de cowboy adornados por pelinhos e luzes a contrastar de maneira alarmante com a negritude sonora.

Na discografia seguir-se-ia “Erotik” (2007), “Konkurs” (2008), o EP “Dekadens” (2009) e “Sjukdom” (2011), até que, sem saberem, deram o último verdadeiro concerto a 26 de agosto de 2011, no restaurante Boules & Tapas, em Estocolmo. «Por que é que um restaurante que tinha um estranho nicho de boule e tapas recebeu a maior banda de desajustados do mundo, nunca saberemos», escreveu o guitarrista Henrik “H.” Huldtgren, dez anos depois.

Cerca de duas semanas após essa noite, os Lifelover anunciavam pela internet que «na sexta-feira de manhã, 9 de setembro, B não acordou do seu sono». Dado que se sabia que B sofria gravemente de ansiedade, tudo aliado à galvanização da morte, os fãs suspeitaram de overdose acidental ou até mesmo de suicídio. Não estavam completamente errados: se por um lado foi provado que B não tirou a própria vida de forma violenta, por outro a autópsia revelou «envenenamento e overdose».

Falecido aos 25 anos, foi também partilhado numa rede social que B tomava Benzodiazepinas desde os 18, sendo a teoria da família a seguinte: «Acreditamos que uma vez que o corpo se adaptou à medicação, ele tomou doses cada vez mais altas e talvez tenha tomado um ou dois comprimidos a mais. O corpo também piora no processamento dos medicamentos com o tempo, então a “dose normal” pode ser mortal quando tomada durante muitos anos.»

Nesse mês de setembro, os restantes membros de Lifelover puseram fim à banda, porque era «o correto a fazer-se, considerando que B era o principal compositor» e que «estes últimos dias têm sido muito difíceis para nós e para toda a gente que conhecia o B».

A editora alemã Prophecy Productions também se juntou às vozes enlutadas ao deixar claro que «Jonas não era apenas um artista muito criativo, mas também uma pessoa simpática e entusiástica», sublinhando ainda a «sua paixão e a sua linguagem musical única».

Em oposição, a Avantgarde Music utilizou o momento penoso para lançar farpas menos positivas. Apesar da maioria das memórias ser «boa», a editora italiana classificou os Lifelover como «irrequietos, frustrados e insatisfeitos». Terem lançado cinco trabalhos através de cinco editoras foi para a Avantgarde Music algo que «significa não terem planos, não terem direções e não terem expetativas objetivas».

Falar dos mortos é fácil, e para algumas culturas é até desrespeitoso, mas a editora não se deixou ficar ao escrever que os «Lifelover eram demasiado inconsistentes quando se tratava de todas as atividades para além de compor e gravar música: queixavam-se da falta de promoção, mas não eram capazes de responder a três entrevistas em três meses... Ou a história engraçada sobre a t-shirt de “Konkurs”: exigiram merchandise e depois queixaram-se que tínhamos lançado uma t-shirt falsificada – a t-shirt sobre a qual assinaram um contrato e que o próprio B tinha concebido, e cujos ficheiros de Photoshop ele me tinha enviado pessoalmente por e-mail umas semanas antes. Isto diz muito do mundo ideal/irreal – fantástico/caótico de Lifelover. Tão verdadeiro na sua incongruente existência».

E quando podemos ainda esperar por uma palavra mais amigável naquela hora de perda, já que algumas memórias até eram boas, a editora revela que sempre achou que «eles não iriam longe com a sua carreira», terminando com: «Triste, mas verdade. Tão verdade que esta morte não me surpreendeu de todo. Parece-me que estava tudo escrito nas estrelas, desde o início... Bon voyage B e respeito pelo Kim e pelos outros rapazes se realmente acabarem com a banda.»

Os membros sobreviventes viriam a formar Kall em 2012. Kim Carlsson também continuaria em paralelo com Hypothermia, formados em 2001, que até já passaram por Portugal. Voltariam a reunir-se em palco como Lifelover em 2015, de modo a assinalarem os 10 anos da sua primordial fundação, com concertos no conceituado Prophecy Fest na Alemanha, depois nos Países Baixos, em Inglaterra e, por fim, no Canadá.

À data da publicação deste texto, durante o ano de 2025, os Kall subiram a vários palcos europeus para interpretarem músicas de Lifelover – uma exigência constante dos fãs e que a banda tem, pontualmente, garantido.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Laibach: transgressão, um Estado Abstrato, um suicídio ritualista e Coreia do Norte

Banda de rock, industrial e eletrónica, os Laibach fundaram-se em junho de 1980.

Laibach é, antes de tudo, o nome ancestral de Ljubljana, a capital da Eslovénia, e por mais antigo que seja, remontando à Idade Média, a designação da banda está ligada à ocupação nazi do país durante a II Guerra Mundial. Em 1980, a Eslovénia ainda fazia parte da Jugoslávia, um super-estado comunista, e o nome da banda aliada à sua postura militarista e autoritária não conjugava muito bem com aquela sociedade. «Escolhemos esse nome exatamente pelo seu conteúdo problemático, explosivo e conflituoso», disseram numa entrevista.

A postura e a atitude ainda atiçava mais a fogueira. Ambiguamente, os Laibach sempre se rodearam de parafernália militarista e autoritária, nunca se sabendo ao certo que tipo de ideologia defendem. O truque está aí: a banda defende a sua própria ideologia, criada artisticamente para subverter o país de origem e depois o mundo. O seu Estado ficou conhecido como Neue Slowenische Kunst (NSK), uma soberania abstrata com o seu próprio manifesto e passaportes, uma região intelectual que justapõe música rock, industrial e hínica, arte Dada e Suprematista (movimento fundado pelo russo Kazimir Malevich), e imagética da Alemanha nazi misturada com a da Jugoslávia comunista. Confuso? Imagine-se então na década de 1980... Para o célebre filósofo marxista Slavoj Žižek, «a singularidade do NSK é a ideia do ‘Estado sem Estado’», disse à BBC em 2017.

As letras, essas não vão por um caminho diferente. Uma das suas músicas mais famosas intitula-se “Tanz mit Laibach” (“Dança com Laibach”), do álbum “WAT” (2003), e numa das estrofes pode ouvir-se: «Dançamos com Ado Hinkel / Benzino Napoloni / Dançamos com Schiekelgrüber / E dançamos com Maitreya / Com totalitarismo / E com democracia / Dançamos com fascismo / E anarquia vermelha». Tão específico como, novamente, ambíguo. Anos mais tarde, em 2014, lançaram o fabuloso “Spectre”, um álbum em que aprimoraram a sua ala pop e em que, outra vez, deixaram ao sabor da maré aquilo que defendem politicamente ao criarem um conceito estatal anticapitalista que tanto pode apelar a comunistas como a nacionalistas – o que irrita toda a gente, de um lado e do outro. Ainda assim, no website oficial da banda, na secção Volkskunst, onde é partilhada a arte dos fãs, encontra-se uma peça com símbolos antifascistas em que se pode ler “Antifascist Action – Laibach”.

Mas regressemos aos anos 1980. Milan Fras pode ser a cara mais reconhecida em Laibach pela sua pose reta e voz profunda, mas, e antes de ser quem é, houve alguém ainda mais extremo: Tomaž Hostnik. Co-autor do manifesto e escritor da “Apologia Laibach” (uma versão poética do referido documento), Tomaž (ou Ivo Saliger quando sob pseudónimo) teve uma das mais memoráveis atuações no festival Novi Rock, em Ljubljana, em setembro de 1982, quando surgiu a envergar um uniforme do exército jugoslavo e com grandes parecenças a Slobodan Milošević, que ascendeu ao poder anos mais tarde. Durante o concerto, uma garrafa foi-lhe arremessada, cortando-lhe a face, mas foi até ao fim.

O seu último concerto aconteceu a 11 de dezembro, em Zagreb, Croácia. A 21 de dezembro, Tomaž suicidou-se num ato ritualista, enforcando-se num dos mais poderosos símbolos nacionais eslovenos, o kozolec (uma espécie de palheiro facilmente encontrado na Eslovénia). Entretanto retirado, no website da banda esteve escrito: «Laibach reprovou o seu ato de suicídio e postumamente expulsou Hostnik do grupo, fazendo-o regressar à sua identidade privada.» Os Laibach continuam a referir Hostnik, que, imutavelmente, faz parte da sua história.

Em abril de 1983, os Laibach recomeçaram as atividades e, com isso, mais uma tempestade de polémicas. Depois da cobertura mediática aos concertos com os ingleses Last Few Days e 23 Skidoo, os Laibach sabiam que tinham de elevar a fasquia. Mais uma vez em Zagreb, numa atuação que ficou conhecida como “Mi kujemo bodočnost” (“Nós construímos o futuro”), a banda projetou simultaneamente pornografia e o filme “Revolucija še traja” (“A revolução continua”). Pior: o grupo acabou por ter que sair do palco quando um pénis foi projetado ao mesmo tempo que o falecido líder da Jugoslávia, Josip Broz Tito. Os Laibach seriam banidos.

Esse desterro fez com que se fixassem noutras zonas, como o Reino Unido, onde, para além de trabalharem em tudo o que desse para trabalhar, começaram a conquistar o submundo global. Participaram no filme “Full Metal Jacket” de Stanley Kubrick, gravaram para John Peel, assinaram pela Mute Records e galvanizaram-se com versões – ou subversões – de temas como “Life is Life” (Opus), “Let It Be” (The Beatles) ou “Sympathy for the Devil” (The Rolling Stones).

Super-estrelas do submundo, os Laibach, que já passaram várias vezes por Portugal, foram parar à Coreia do Norte em 2015, para participarem nas comemorações dos 70 anos da libertação do poder japonês. Isto resultou em dois concertos, numa menção no mundialmente famoso “Last Week Tonight with John Oliver” e no alucinado documentário “Liberation Day”.

A banda comentou: «Os norte-coreanos não sabiam nada sobre nós até a algumas semanas antes de chegarmos, quando alguém da Europa os informou sobre todas as controvérsias que Laibach é capaz e que estava a produzir. Mas já era tarde para cancelar o convite – já estávamos praticamente no país. Talvez por causa de todo aquele rebuliço, eles receberam-nos até com mais cuidado e bondade, e até com um pouco de humor.»

Sobre a atuação, explicaram: «A Coreia do Norte é um lugar muito diferente do resto do mundo. A receção do público ao nosso concerto (...) foi muito ‘cultural’. Os norte-coreanos, aparentemente, nunca ouviram tal música (como Laibach) antes, então não sabiam mesmo o que pensar sobre aquilo, mas reagiram educadamente, aplaudindo após cada música, e no final do concertos aplaudiram-nos de pé (ou talvez estivessem apenas felizes por ter acabado; o embaixador da Síria estava certamente – ele não gostou muito do programa –, comentando que ‘estava muito alto, quase como uma tortura’). Choe Jong-Hwan, um visitante coreano mais velho, fez uma declaração após o concerto, dizendo: ‘Não sabia que esta música existia no mundo e agora sei.’»

Criadores de música, iconógrafos, explícitos, transgressores, semeadores da discórdia – os Laibach são tudo isso em nome do Neue Slowenische Kunst, só e apenas. «Analisamos a relação entre ideologia e cultura e entre arte e política, a nossa linguagem é política, mas não somos ativistas políticos e não lidamos com a política diária.» Para a história fica uma célebre frase que lhes és atribuída: «Somos tão fascistas como Hitler era pintor.»

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

O Parto do Fim do Mundo

Em nome da Mãe, do Filho e da Destruição.


(Excerto)
Numa cave profunda, sozinha, sentada numa poltrona quase a desfazer-se e alumiada por uma fraca lamparina alimentada a azeite, estava a Mãe a contorcer-se com inimagináveis dores – prestes a parir.

(Indeterminadamente indisponível no blog. Texto incluído na compilação "o enforcado de cabeça para baixo - e outros contos moribundos", o novo livro do blogger, disponível a partir de 1 de julho de 2026.)


quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Valfar, ein Windir - Filho de Sogndal

Terje “Valfar” Bakken
03/09/1978 – 14/01/2004


«Crescemos perto um do outro, éramos os melhores amigos, fazíamos tudo em conjunto para além da música. Éramos muito próximos», recordou Jarle Kvåle, baixista de Windir e Vreid. Falava, portanto, de Valfar, nascido Terje Bakken em 1978, no município de Sogndal, Noruega.

Profundamente apaixonado por música – com gostos que iam do heavy metal ao folclore, passando por eletrónica –, pela tradição da sua terra e pelas sagas heroicas dos seus antepassados, fez nascer, ainda na adolescência, a sua banda black/folk metal de um homem só: Windir.

Apesar de rodeado por amigos, com quem tocava versões de Metallica e Slayer e com quem ouvia as novidades da época, como Darkthrone e Enslaved, Valfar preferia mais o seu quarto, o seu computador e as suas composições do que a sala de ensaio, onde se encontravam os companheiros, que, na altura, tinham a sua banda Ulcus. Nem mesmo as notícias alarmantes que chegavam de Oslo e de outras partes da Noruega, como os incêndios de igrejas e homicídios, lhes tirava o foco, conforme assinalou Jarle: «Nunca fizemos parte de uma cena, nem estávamos em grande contacto com outras bandas, éramos mais fechados.» E foi assim que, no seu território inviolável, com um programa de computador primitivo, Valfar compôs os dois primeiros álbuns de Windir: “Sóknardalr” (1997) e “Arntor” (1999).

«O Valfar cansou-se do metal durante uns tempos», revelou Jarle, «fez música eletrónica, mas depois voltou a sentir a necessidade. Falámos em sair das duas bandas para criarmos algo novo. Pensámos nisso durante um tempo, mas depois decidimos que fazia mais sentido se uníssemos forças em Windir». Assim, seguiu-se “1184” (2001) e “Likferd” (2003), sendo este o último trabalho do grupo.

A 14 de janeiro de 2004, Valfar foi a pé até à cabana da família, em Fagereggi, e nunca mais regressou. Três dias depois, o seu corpo foi encontrado em Reppastølen, no vale de Sogndal. Nessa caminhada, o jovem pioneiro, que cunhou o seu estilo de música como sognametal, foi surpreendido por um clima adverso e o seu corpo não resistiu – a hipotermia levou a melhor. Tinha 25 anos. Sepultado a 27 desse mês, os Windir terminaram oficialmente em março. «Foi um choque total e fomos parar a um sítio completamente negro. Perdemos o nosso melhor amigo, foi como perder um familiar. Decidimos imediatamente que não podíamos continuar Windir sem ele, não fazia sentido», confessou Jarle.

A derradeira aparição da banda aconteceu a 3 de setembro de 2004, dia do aniversário de Valfar, num concerto de homenagem ao amigo, com a participação do irmão Vegard como vocalista em alguns temas e de bandas como Enslaved, Finntroll, Notodden All Stars, Weh, E-Head e Mindgrinder. Para além do DVD “Sognametal”, que eterniza esse último espetáculo, o legado de Valfar pode ser também encontrado na compilação “Valfar, ein Windir”, que inclui uma seleção de músicas suas e versões interpretadas pelas bandas que lhe prestaram tributo pela última vez naquele concerto em Oslo.

Jarle Kvåle, Sture Dingsøyr e Jørn Holen continuaram as suas carreiras, tendo fundado Vreid em 2004. Stian Bakketeig só se juntaria à nova banda em 2010. À data, os Vreid continuam no ativo, têm vindo a lançar discos desde a sua fundação e nunca esqueceram o amigo Valfar: no tema “Into the Mountains”, do álbum “Wild North West” (2021), pode ouvir-se um trecho em teclado gravado por Valfar em 2002.


(As citações foram recolhidas do meu arquivo pessoal, sendo originais de uma entrevista antológica publicada na Metal Hammer Portugal em 2021.)