sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Os sonhos e a inexplicável obsessão por uma mochila

Sonhar é incrível. Até pesadelos valem a pena. Gostava de uma de duas coisas, ou mesmo as duas: ter talento para desenhar e assim trazer para este lado o que vejo nos sonhos ou que existisse uma máquina que extraísse os sonhos para um ecrã.

Tenho memórias de sonhos de quando era mesmo muito criança e tenho pena de ter esquecido milhares de outros sonhos – mas já aí volto.

Sonho fértil e abundantemente, mas nunca usei essas experiências nos meus contos e livros – e não percebo porquê. Nunca calhou? Esqueço-me da maioria dos sonhos e pesadelos? Sim, porque a imagem vívida que tenho dum sonho ou pesadelo ao acordar no momento, esfumou-se de manhã quando acordo de vez. E também não estou para apontar tudo às 2 ou 3 ou 4 da manhã – quero é voltar a dormir com a esperança de que me vou lembrar daquilo horas depois. Pois, não resulta...

Música e outros autores são o que me inspira e influencia diariamente. Os Vulture Industries abriram-me o portal para escrever sobre um inferno que se repete todos os dias, os At the Gates puseram-me a escrever sobre a futilidade da nossa existência, os Katatonia auxiliaram-me na ideia de um desaparecimento, Bernardo Santareno deu-me relatos para escrever sobre a vida no mar, “Bartleby” de Herman Melville desbloqueou-me a trama da imagem que me pairava na cabeça para o meu “o enforcado de cabeça para baixo”, Miguel Torga convida-me a um soturno mundo rural, Kafka inspira-me a escrever sobre o sofrimento e Voltaire ensina-me ironia e sarcasmo.

Conversas também me inspiram. Por exemplo, no outro dia – e falha-me o contexto –, uma amiga com espírito revolucionário mandou-me uma mensagem a dizer “bring guilhotinas back”. Escrevi de volta: “Fazia um date contigo numa execução por guilhotina. Duas pessoas à procura do amor enquanto um capitalista crápula perde a cabeça, literalmente.” Ao que me respondeu: “Ou public hanging de milionários, sei lá.” Bem, se isto um dia não for amor, o que será? Pelo menos, uma boa história.

E os sonhos? Dali não tiro nada. Lembro-me de sonhar com estátuas de pedra que tinham cara humana, uma grande quantidade de mel a escorrer por um armário, uma bruxa com maquilhagem e penteado à The Cure a fazer-me poses shakespearianas, ser sugado por um túnel e pensar que estava a entrar no inferno, descobrir que eu próprio era o diabo depois de um rapaz ter assassinado o tio (paralítico, viciado em pornografia, fechado num sótão) à pancada com uma frigideira. Em criança, lembro-me de sonhar que a minha mãe tinha morrido. Aquilo chocou-me! Recordo-me que sempre que sonhava que alguém tinha morrido e contava ao meu pai, ele dizia-me que estava a dar anos de vida a essa pessoa. Ainda hoje acredito nisso inocentemente.

Com isto tudo, quero chegar às três recentes noites da minha vida.

Há três noites sonhei que estava deitado com ela (e ela sabe quem é, porque eu conto-lhe tudo). Apalpava-lhe as mamas e apertava-lhe o pescoço levemente enquanto ela se masturbava e gemia baixinho. Sexy.

Na segunda noite, o cenário mudou. Sonhei que estava a enfiar um gajo meio morto num caixote de madeira, seguidamente embrulhado num saco-cama, pronto a ser expedido sabe-se lá para onde. Não faço ideia do que nos fez, mas não deve ter feito coisa boa para acabar meio morto num caixote. Sabia que a polícia estava no nosso encalço, mas não havia retorno possível.

Sexo e mortes violentas – nada que já não tenha abordado nas histórias que escrevo. Nada de novo...

E agora a terceira noite e o terceiro sonho...

Fui parar a uma festa numa propriedade que supostamente ficava em Ílhavo, mas, na ideia geral do grupo, aquilo ficava realmente em Aveiro. No edifício principal estava o Presidente da Câmara a discursar e a condecorar pessoas num corredor cada vez menos iluminado, ao ponto de ficar mesmo escuro. Saído dali, comecei a dizer que ia escrever no jornal sobre esta pouca vergonha.

À medida que ia anoitecendo, o pátio, antes vazio, foi-se transformando numa feira com venda de roupa e com fornalhas de metalurgia. Aproximámo-nos de uma dessas fornalhas, que estava a ser lavada, e dela surgiu um abundante jato de água na nossa direção. Fugimos a correr e perseguiu-nos uma espumosa e flutuante matéria amarela que se desfazia no ar em pedaços gelatinosos. Uns bocados pegaram-se à minha barba e fiquei pegajoso, até que desapareceu definitivamente depois de tanto tentar arrancar aquilo com as unhas e os dedos.

Perdi o casaco várias vezes, perdi a mochila e andei imenso tempo com uma que não era minha. Percebi que aquela mochila não era minha porque me assentava mal nas costas e estava mais pesada do que devia. Comecei a tentar mentalizar-me de que se calhar nem sequer tinha trazido a mochila e, assim, não a havia perdido. Entrei em alguns compartimentos cheios de mochilas guardadas, mas nenhuma era a minha. Fartei-me de perguntar aqui e ali pela minha mochila, mas ninguém queria saber.

No pátio, cada vez mais gigante, havia um bairro. Fiz sons agressivos e provocadores a um cãozito que veio direito a mim e acompanhado de uma criatura com corpo de bebé e cara de homem adulto, mesmo rufia. Vinham ferozes (o cão era pequeno, preto, quase sem pêlo e com um dente canino de fora; a criança-homem era mulata e vinha com um cigarro no canto da boca) e ambos tinham piercing no septo. A mãe, cabo-verdiana, apareceu muito bem vestida, com trajes tradicionais daquelas ilhas africanas, e achou que o cão e o filho é que tentaram armar confusão comigo e não eu com eles – safei-me de boa. Tentou vender-me uma bebida alcoólica transparente – provei e gostei, mas não tinha dinheiro. Uma pena.

Ainda pensava na mochila, e nem sabia ao certo o que tinha nela. Decidimos ir embora quando estava imensa gente a chegar à festa – amigos e ex-namoradas, do bom e do reles, portanto; mas ignorei tudo e todos. Queria a minha mochila e ir embora, era tarde e tinha de ir trabalhar de manhã.

Como, na minha ideia, a festa era em Ílhavo, sabia que estava perto de casa – era só subir a ladeira e virar à esquerda. Mas não, era em Aveiro e, por conseguinte, mais longe de casa – tinha de arranjar boleia para regressar.

Demos umas voltas por umas ruas e alguns dos meus companheiros ainda entraram num carro, mas dei por mim a tocar uma campainha e a entrar sorrateiramente. Quem me abriu a porta foi a minha vizinha que só sabe gritar com o marido demente, e de repente estávamos nas traseiras da festa donde tínhamos saído.

Procurei outra vez pela mochila e nada. Perguntaram-me se queria erva, ao que respondi: “Só se for para comer...!” De facto, tinham-me acabado de enfiar na boca um bolo que se desfazia em finas espigas de trigo tão reais que até as cuspia e espetavam-se na porta, como flechas.

Estava meio deitado num sofá e rodeado de pessoas. Estávamos a cantar, aos berros, uma música de Dragon Ball, que estava a dar na televisão. Era uma música que nem existe e o refrão era “Sofrerei! Sofrerei!” com ritmo e melodia a fazer lembrar a “Jerusalem” do Bruce Dickinson, quando ele canta “Let it rain! Let it rain!”.

Um som de vibração fez-me despertar dali, e despertei também deste lado da realidade. Acordado, perguntei-me logo pela mochila e por onde tinha andado. Liguei o ecrã do telemóvel e nada de notificações – não sei donde veio aquela vibração. Pelo relógio, estava a dormir há uma hora... e já tinha sonhado isto tudo...

...depois como é que uma pessoa pode ser normal e ciente, não é?

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