«Crescemos perto um do outro, éramos os melhores amigos, fazíamos tudo em conjunto para além da música. Éramos muito próximos», recordou Jarle Kvåle, baixista de Windir e Vreid. Falava, portanto, de Valfar, nascido Terje Bakken em 1978, no município de Sogndal, Noruega.
Profundamente apaixonado por música – com gostos que iam do heavy metal ao folclore, passando por eletrónica –, pela tradição da sua terra e pelas sagas heroicas dos seus antepassados, fez nascer, ainda na adolescência, a sua banda black/folk metal de um homem só: Windir.
Apesar de rodeado por amigos, com quem tocava versões de Metallica e Slayer e com quem ouvia as novidades da época, como Darkthrone e Enslaved, Valfar preferia mais o seu quarto, o seu computador e as suas composições do que a sala de ensaio, onde se encontravam os companheiros, que, na altura, tinham a sua banda Ulcus. Nem mesmo as notícias alarmantes que chegavam de Oslo e de outras partes da Noruega, como os incêndios de igrejas e homicídios, lhes tirava o foco, conforme assinalou Jarle: «Nunca fizemos parte de uma cena, nem estávamos em grande contacto com outras bandas, éramos mais fechados.» E foi assim que, no seu território inviolável, com um programa de computador primitivo, Valfar compôs os dois primeiros álbuns de Windir: “Sóknardalr” (1997) e “Arntor” (1999).
«O Valfar cansou-se do metal durante uns tempos», revelou Jarle, «fez música eletrónica, mas depois voltou a sentir a necessidade. Falámos em sair das duas bandas para criarmos algo novo. Pensámos nisso durante um tempo, mas depois decidimos que fazia mais sentido se uníssemos forças em Windir». Assim, seguiu-se “1184” (2001) e “Likferd” (2003), sendo este o último trabalho do grupo.
A 14 de janeiro de 2004, Valfar foi a pé até à cabana da família, em Fagereggi, e nunca mais regressou. Três dias depois, o seu corpo foi encontrado em Reppastølen, no vale de Sogndal. Nessa caminhada, o jovem pioneiro, que cunhou o seu estilo de música como sognametal, foi surpreendido por um clima adverso e o seu corpo não resistiu – a hipotermia levou a melhor. Tinha 25 anos. Sepultado a 27 desse mês, os Windir terminaram oficialmente em março. «Foi um choque total e fomos parar a um sítio completamente negro. Perdemos o nosso melhor amigo, foi como perder um familiar. Decidimos imediatamente que não podíamos continuar Windir sem ele, não fazia sentido», confessou Jarle.
A derradeira aparição da banda aconteceu a 3 de setembro de 2004, dia do aniversário de Valfar, num concerto de homenagem ao amigo, com a participação do irmão Vegard como vocalista em alguns temas e de bandas como Enslaved, Finntroll, Notodden All Stars, Weh, E-Head e Mindgrinder. Para além do DVD “Sognametal”, que eterniza esse último espetáculo, o legado de Valfar pode ser também encontrado na compilação “Valfar, ein Windir”, que inclui uma seleção de músicas suas e versões interpretadas pelas bandas que lhe prestaram tributo pela última vez naquele concerto em Oslo.
Jarle Kvåle, Sture Dingsøyr e Jørn Holen continuaram as suas carreiras, tendo fundado Vreid em 2004. Stian Bakketeig só se juntaria à nova banda em 2010. À data, os Vreid continuam no ativo, têm vindo a lançar discos desde a sua fundação e nunca esqueceram o amigo Valfar: no tema “Into the Mountains”, do álbum “Wild North West” (2021), pode ouvir-se um trecho em teclado gravado por Valfar em 2002.
(As citações foram recolhidas do meu arquivo pessoal, sendo originais de uma entrevista antológica publicada na Metal Hammer Portugal em 2021.)
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