(Excerto)
São nove da manhã de
segunda-feira e estou a abrir a porta do meu emprego. Trabalho numa
revista mensal de utilidades para a casa, desde como se pregar um
prego bem pregado à melhor receita de bacalhau, desde como melhor se
envernizar uma porta de madeira ao melhor arranjo de flores. Dá para
homens e mulheres, e sobretudo tem rendido muito às funerárias. É
que os nossos assinantes são maioritariamente de idade avançada, o
que não é bom para nós, porque vamos ficar sem subscritores, mas é
bom para as funerárias. É tão bom que até temos duas páginas de
publicidade com orçamentos para enterros, caixões e toda uma
parafernália de coisas que servem mais para alimentar as vistas de
quem cá fica do que para o corpo, brevemente em pó, de quem vai.
Bem vistas as coisas, também rende para nós, porque nos é comprada
publicidade. Ficamos todos a ganhar. Se bem que mortos nunca
acabarão, e esta revista tem os dias contados. Cá nos aguentamos.
Do lado esquerdo existe uma mercearia que está sempre para fechar
mas fica mais um mês e do lado direito há um pequeno restaurante
que está sempre às moscas. A única animação vinda do restaurante
é ouvir o dono ao telemóvel a discutir com a irmã. Ao que parece,
a tipa é interesseira e o irmão, que é mais velho, não consegue
que ela atine. «Quando isto dava no verão, estavas sempre aqui a
mamar do irmão, agora que não dá, passas meses sem pôr aqui os
pés!», berra ele para toda a rua ouvir o espetáculo.
(Indeterminadamente indisponível no blog. Texto incluído na compilação "o enforcado de cabeça para baixo - e outros contos moribundos", o novo livro do blogger, disponível a partir de 1 de julho de 2026.)
Sem comentários:
Enviar um comentário