quarta-feira, 28 de maio de 2025

A minha rua é uma (triste) alegria

Uma apreciação semi-ficcional
sobre
bêbados,
drogados
e
felizes infelizes
ou
infelizes felizes,
não sei bem,
é uma das duas.


(Excerto)
São nove da manhã de segunda-feira e estou a abrir a porta do meu emprego. Trabalho numa revista mensal de utilidades para a casa, desde como se pregar um prego bem pregado à melhor receita de bacalhau, desde como melhor se envernizar uma porta de madeira ao melhor arranjo de flores. Dá para homens e mulheres, e sobretudo tem rendido muito às funerárias. É que os nossos assinantes são maioritariamente de idade avançada, o que não é bom para nós, porque vamos ficar sem subscritores, mas é bom para as funerárias. É tão bom que até temos duas páginas de publicidade com orçamentos para enterros, caixões e toda uma parafernália de coisas que servem mais para alimentar as vistas de quem cá fica do que para o corpo, brevemente em pó, de quem vai. Bem vistas as coisas, também rende para nós, porque nos é comprada publicidade. Ficamos todos a ganhar. Se bem que mortos nunca acabarão, e esta revista tem os dias contados. Cá nos aguentamos. Do lado esquerdo existe uma mercearia que está sempre para fechar mas fica mais um mês e do lado direito há um pequeno restaurante que está sempre às moscas. A única animação vinda do restaurante é ouvir o dono ao telemóvel a discutir com a irmã. Ao que parece, a tipa é interesseira e o irmão, que é mais velho, não consegue que ela atine. «Quando isto dava no verão, estavas sempre aqui a mamar do irmão, agora que não dá, passas meses sem pôr aqui os pés!», berra ele para toda a rua ouvir o espetáculo.

(Indeterminadamente indisponível no blog. Texto incluído na compilação "o enforcado de cabeça para baixo - e outros contos moribundos", o novo livro do blogger, disponível a partir de 1 de julho de 2026.)

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