quinta-feira, 27 de novembro de 2025

DSBM: oito passos (e mais alguns) para a depressão

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suicidal
black
metal

um resumo


Shining
«Sou bipolar e esquizofrénico e, infelizmente para mim, tenho que viver constantemente sob um stress enorme devido ao meu trabalho intenso», contava Niklas Kvarforth à extinta Ultraje Magazine em 2017.
Fundador e mentor dos suecos Shining, Niklas é tido como pioneiro do black metal depressivo e suicida, sobre o qual também se pronunciou em 2017: «Primeiramente, é óbvio que desprezo o que a maioria das bandas faz e nenhuma da sua música proclamada depressiva me diz alguma coisa, o que me leva a arrepender ter cunhado o termo “suicide black metal” em 1996. Por outro lado, ao longo dos anos tenho visto pessoal completamente normal e estável a tocar em temas de loucura e comportamentos suicidas, e, no fim, acabaram, eles próprios, suicidas. Enoja-me ouvir bandas destas e faz-me querer perder contacto com o resto do mundo para evitar ser insultado por tamanha merda quase-intelectual e chorosa.»
Conhecido pelo seu lendário comportamento obsceno e violento, Niklas é uma força autodestrutiva tanto em palco como fora dele: automutilação, agressões, insultos, vómitos, masturbação – há de tudo para todos os gostos.
Em julho de 2006, o sueco havia desaparecido, correndo o rumor de que se teria suicidado. Em agosto seguinte, os Shining anunciavam um novo vocalista que dava pelo nome de Ghoul, alguém que tinha sido expressamente requisitado por Niklas como um dos seus últimos desejos. A 3 de fevereiro de 2007 realizava-se um concerto de Shining na cidade sueca de Halmstad e o público acabaria por descobrir que Ghoul se tratava verdadeiramente de Niklas, incarnando uma personagem decrépita que parecia ter retornado do mundo dos mortos. Escusado será dizer que o espetáculo – que contou com a participação de Atilla Csihar (Mayhem), Maniac (ex-Mayhem) e Nattefrost (Carpathian Forest) – foi de uma natureza violenta à moda de Shining.
Outro momento memorável, desta vez fora de palco, é o trailer do álbum “Redefining Darkness” (2012), em que o sueco elabora uma performance decadente num quarto de banho. Completamente nu e dentro da banheira, Niklas está coberto de sangue, ou pelo menos de um líquido vermelho, que vai bebendo de uma caveira. Vê-se também “I wish you were here” escrito na parede e uma faca é, por momentos, vislumbrada na sua mão. Há música de fundo, murmúrios impercetíveis e tosse agonizante, mas é a vertente sexual que surge com maior evidência ao observarmos Niklas a apalpar-se a si próprio, a manusear dildos e a envolver-se em sexo oral com uma genitália feminina artificial.

Inverno Eterno
Em Portugal, durante nove anos, esta banda deixou uma marca e um legado incontornável na cena depressiva com os álbuns “Póstumo” (2008) e o de título homónimo (2011).
Cessaram atividades em 2014 e, no ano seguinte, o vocalista Nada prestava declarações à Ultraje Magazine sobre esse fim: «A honestidade com que as coisas eram feitas requereu demasiada energia empregue e bastante tempo despendido, e tudo isso, pelo menos para mim, estava a ser excessivamente desgastante e esgotante.»
Três anos depois, a banda reunia-se para celebrar os 10 anos de “Póstumo” num concerto em Lisboa com Black Howling e Gaerea, para, segundo o artista, «fechar um capítulo de forma condigna, pois ao longo destes anos sentia sempre algo incompleto, por encerrar e ficar em paz».
Nesse ano de 2018, Nada contava ainda como se sentia em relação à necessidade de se desligar: «Não sei qual a palavra que posso aplicar, pois dizer que tenho saudades não será o mais sensato para mim, tendo em conta onde fui dar – foi um período de tempo ao qual a maior surpresa foi continuar neste mundo. Cheguei ao estado em que nem a ideia de morrer me dava esperança de coisa alguma; aí começou, literalmente, a viagem ao inferno e lentamente o ponto de viragem. Algo tinha imperativamente de mudar, então afastei-me e desliguei-me de tudo. Teve de ser, não havia outra opção senão aquela. Escrevo isto de forma um pouco abreviada e, possivelmente, pouco ilustrativa ou explícita, porém, foi o âmago de todo o processo de mudança.»

Lifelover
Fundada em 2005, a banda sueca cedo angariou muita fama no panorama depressivo, e, ao longo de seis anos, foram editados quatro álbuns de considerável preponderância no meio, nomeadamente “Pulver” (2006) e “Konkurs” (2008).
Inseridos na cena DSBM, os Lifelover viam-se como narcotic metal assente numa base black metal trespassada por melodias alegres, a fazer lembrar pop e post-punk, deixando quem ouve num estado de confusão e perplexidade. A ideia era muito simples: mais do que possivelmente ridicularizar o estilo musical, era objetivo suavizar, ridicularizando também, problemas do foro mental, como a depressão, com as letras a funcionarem como um tratado à depravação sexual, à decadência urbana, ao suicídio, aos medicamentos, ao álcool e às drogas.
Com origem nas mentes de Jonas Bergqvist e Kim Carlsson (Hypothermia, Kall, Ritualmord), a banda terminou abruptamente em setembro de 2011 quando o primeiro, com 25 anos, foi encontrado morto. Bergqvist, também conhecido por B, morreu durante o sono devido a uma overdose acidental provocada por medicamentos prescritos. Pontualmente, os membros sobreviventes reúnem-se para concertos comemorativos.

Hypothermia
Antes de Lifelover, Kim Carlsson já tinha iniciado a sua negra aventura nas artes performativas e sonoras com o gelado projeto Hypothermia.
Kim foi, em tempos, conhecido pela sua performance autodestrutiva e sanguinária – as cicatrizes nos braços não enganam –, e é a mente de uma sonoridade repetitiva mas envolvente e hipnótica, como se pode verificar em “Skogens hjärta” (2010), uma demo de uma só faixa que se alonga até aos 68 minutos de duração. “Rakbladsvalsen” (2007) deverá ser considerada a obra-prima da fase mais diretamente relacionada ao DSBM, tendo em conta que a banda evoluiu para uma sonoridade mais post-rock/metal, ainda que sempre muito crua, honesta, melancólica e soturna.

Xasthur
Considerado o mais proeminente projeto DSBM oriundo dos EUA, Xasthur foi criado por Scott Conner em 1995. Inspirado musicalmente por nomes como Burzum, a estética e sonoridade podia ser igual à do restante black metal, mas destacava-se, ainda assim, com temáticas que andavam à volta da escuridão, solidão, desespero e suicídio. A intenção de levar uma vida solitária e pouco dada às luzes da ribalta e da sociedade em geral é mostrada no documentário “One Man Metal” (Noisey, 2012), em que, para além de Scott Conner, participam também Jeff Whitehead (Leviathan) e Russel Menzies (Striborg).
Em 2010, o norte-americano anunciava que “Portal of Sorrow” seria o oitavo e último álbum de Xasthur, dedicando-se depois a um rumo acústico e folclórico que deu pelo nome de Nocturnal Poisoning. Cinco anos depois, Conner alterava o nome do projeto para a nomenclatura seminal Xasthur, escrevendo no Facebook: «Trabalhei arduamente na construção de ambos os projetos, iniciando ambos do nada e de lado nenhum, mas estou a recuperar o que é meu. Xasthur não pertence aos hipsters gananciosos que ordenham o negócio do metal; pertence a mim (...).»

Dødsferd
Fundada em 2001, esta banda grega vai do black metal mais cru ao mais punk, mas também tem enveredado por ambiências depressivas, como se testemunhou em álbuns como “Wastes of Life” (2015) e “Diseased Remnants of a Dying World” (2018).
«Dødsferd é o diário de toda a minha vida. A minha maior inspiração é a estupidez humana e o fracasso da humanidade. Com [esses] dois álbuns quis expressar novamente o meu ódio e nojo através de uma atmosfera mais depressiva», contou o mentor dos helénicos à Ultraje em 2018. Para o compositor é «como um funeral para o fim da humanidade». «Este mundo está morto para mim», afirmou, pois «não há futuro e podemos ver todos os dias como é que esses parasitas corrompidos evoluíram».
Sobre as relações com o rótulo DSBM, Nikos Spanakis comentou: «Nunca segui qualquer tipo de tendência, nem nunca vendi as minhas crenças para fazer parte das massas e ser apreciado por elas. Estes dois trabalhos são genuínos álbuns de Dødsferd – não pertencem a lugar nenhum, nem mesmo à tendência do DSBM. Os meus verdadeiros seguidores sabem disso e respeitam.» «Este mundo deveria sufocar e afogar-se no sofrimento eterno», referiu ainda durante a entrevista.

Nocturnal Depression
Nome relevante da ala mais obscura do black metal francês, Nocturnal Depression tem deixado a sua pegada ruinosa por toda a Europa com uma sonoridade envolta em tristeza, mágoa e nostalgia com títulos e letras que fazem constante referência a sepulturas, pulsos cortados, solidão, suicídio e despedida.
Grupo fundado em 2004 por Lord Lokhraed e Herr Suizid, somos expostos à particularidade do primeiro ligar-se fisicamente à decadência da sua música devido à ectrodactilia, uma deformação manifestada na sua mão esquerda, e do segundo nunca ter atuado ao vivo.
Ao longo da carreira, a banda nunca abandonou a inclinação óbvia ao DSBM mas foi evoluindo no que à produção dos seus discos diz respeito.

Ofdrykkja
Nascidos do caos em 2012, os membros deste coletivo sueco são consumidos por uma dor aparentemente interminável, procurando ventilar a sua condição através da música.
Décadas de dependência e doença mental foram esculpidas no primeiro álbum “A Life Worth Losing” (2014). Desesperados por escapar da agonia que era aquele estilo de vida destrutivo, compor música tornou-se uma terapia.
Detido pela polícia em 2014 devido a um tumulto público, Drabbad passou três anos na prisão e a base para a maioria das músicas do segundo álbum “Irrfärd” (2017) foi escrita dentro dos muros da cadeia. Atingindo o fundo do poço, a banda estava pronta para encontrar uma saída do deserto escuro em que se perdeu. Após a gravação do álbum, o vocalista Pessimisten (ex-Apati), também conhecido por enfrentar dificuldades mentais e de dependência, deixou a Suécia para se aventurar numa jornada pessoal que o levou a conhecer o mundo durante três anos.
Para trás fica ainda na História do DSBM um episódio com Drabbad e Bödeln (falecido em 2020) que envolve escarificação. Alterados, os dois amigos queriam cravar na carne as palavras “griftefrid” e “jordfäst” o resultado foi um apartamento alagado de sangue, presença da polícia e uma ida ao hospital.
Depois de lançamentos associados a um DSBM urbano, narcótico e notívago, os suecos modificaram o seu som para ambiências mais bucólicas e folclóricas em trabalhos como “Gryningsvisor” (2019).


Menções honrosas:
Apati (Suécia)
Ars Diavoli (Portugal)
Austere (Austrália)
Defuntos (Portugal)
Forgotten Tomb (Itália)
Ghost Bath (EUA)
Gris (Canadá)
Happy Days (EUA)
Harakiri for the Sky (Áustria)
Lyrinx (Reino Unido)
Make a Change... Kill Yourself (Dinamarca)
Mortualia (Finlândia)
None (EUA)
Psychonaut 4 (Geórgia)
Silencer (Suécia)
Thy Light (Brasil)
Todeskult (Alemanha)
Trist (Chéquia)
Vanhelga (Suécia)
Woods of Desolation (Austrália)


(Nota: estes meus textos foram originalmente escritos e publicados na extinta Metal Hammer Portugal em 2019, recorrendo aos arquivos da também extinta Ultraje Magazine. Uma pequena parte dos textos originais foi revista e levemente alterada em 2025 para este post.)

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