Em todas as cruzes
Tábuas partidas
Quarenta igrejas
Caídas
E dos conventos
Nem um lamento
Nem um sinal de vida
Todos os santos não chegaram
Faz dia em Portugal!*
Na manhã de 1 de novembro de 1755,
Lisboa foi arrasada por um terramoto, seguido de um maremoto. Sendo o
Dia de Todos-os-Santos, as ruas e as igrejas estavam cheias de fiéis,
o que contribuiu para o elevado número de mortos, que varia entre 10
e 50 mil. Cerca de 10 mil edifícios ficaram reduzidos a escombros.
Lisboa tremeu, ardeu, inundou e ruiu.
Portugal podia já ser falado por toda
a Europa desde pelo menos o Séc. XV, devido à expansão para o
Norte de África e pela descoberta de novos mundos a oriente e a sul,
mas nunca fora tão discutido como a partir daquele fatídico 1º de
Novembro. Para além de se considerar que a data marca o nascimento
da sismologia moderna, os debates filosóficos foram o regalo dos
grandes pensadores da época, como Voltaire, Jean-Jacques Rousseau e
Immanuel Kant. É que até então, a Humanidade, a viver sob o jugo
da Inquisição, relacionava este tipo de desastres à causa divina,
mas o Iluminismo ia mudar a Europa.
Voltaire, um defensor da liberdade de
expressão e duro crítico da Igreja Católica, utilizou esta
catástrofe para atacar um alvo específico: a filosofia otimista de
Leibniz e Alexander Pope, em que se defendia que este é o melhor dos
mundos possíveis e que não nos podemos queixar dos males porque
desconhecemos os grandes desígnios de deus, não havendo, portanto,
maldade. Ora, no seu magnum opus “Cândido, ou o Otimismo”
(1759), Voltaire, mestre da ironia, dedicou-se a desbaratar tais
conceitos, ridicularizando sociedades, governos, teólogos e
filósofos. E onde é que Lisboa entra nisto tudo? Logo no início do
conto, quando Cândido chega a Lisboa no dia do terramoto. Crente de
que a criação do universo foi operada por uma inteligência
superior que pode ser conhecida através da Razão, Voltaire fere a
Inquisição e a Igreja Católica com grande ironia e sentido cómico,
escrevendo: «(…) Os sábios do país não encontraram meio mais
eficaz, para prevenir uma ruína total, do que oferecer ao povo um
belo auto-de-fé; pois a Universidade de Coimbra tinha decidido que o
espetáculo de queimar a fogo lento algumas pessoas, com as
cerimónias e formalidades do estilo, era o segredo infalível para
impedir a terra de tremer.»
Antes, em 1756, Voltaire já tinha
atacado o otimismo com “Poema sobre o desastre de Lisboa”, em que
pergunta, ironicamente, como é que a bondade de deus permitiu tal
tragédia, rejeitando a ideia de que o mal não existe na governação
divina. Escreveu: «Lisboa, que não é mais, teve ela mais vícios /
Que Londres, que Paris, mergulhadas nas delícias? / Lisboa está
arruinada e dança-se em Paris.» Mais à frente aponta diretamente
aos seus adversários: «“Um dia tudo estará bem”, eis aí a
nossa esperança; / “Tudo está bem hoje em dia”, eis aqui a
ilusão.»
Sabido que Voltaire angariava algumas
amizades - como a imperatriz russa Catarina, a Grande -, era mais
propenso a ter inimigos. Um desses rivais era Rousseau, cujas ideias
influenciaram profundamente o Direito e conceitos como Estado, poder
e soberania, que nos chegam até à atualidade. Rousseau escreveu a
Voltaire a “Carta sobre a Providência”, em que defende o
otimismo, sem propriamente defender o mote de que este é o melhor
dos mundos possíveis e dando um novo tratamento à questão do mal,
deslocando-o de deus para o homem. Rousseau chega ainda a entrar em
território pessoal, ao referir a suposta hipocrisia de Voltaire por
este se preocupar com um terramoto numa cidade como Lisboa, onde
vivem as pessoas pelas quais temos consideração, e não querer
saber dos tremores que ocorrem em África.
Tentativas de explicação divina à
parte, Kant, que nos deu o imperativo categórico (algo como: realiza
contigo mesmo antes de impor um princípio aos outros), pretende ser
mais empírico e científico em vários textos que desenvolveu sobre
o terramoto de Lisboa. Achando que o subsolo era oco, tamanha a
facilidade com que tudo tendia a desabar, Kant aconselha a não se
construir mais ao longo do rio Tejo, já que é esse curso de água
que dita a direção dos tremores em Lisboa, não nos esquecendo que,
e auxiliando-nos em registos, a cidade já tinha sofrido quase uma
dezena de abalos nos últimos quatro séculos. Para Kant, a
Humanidade deve adaptar-se à Natureza e não o contrário. E
sublinha também a falta de racionalidade: «Como o terror lhes rouba
a reflexão, julgam que estas grandes desgraças são das tais que
não se podem minorar por qualquer precaução e supõem que a dureza
do destino só pode ser abrandada por uma submissão cega e
entregam-se completamente à misericórdia ou à cólera divina.»
Recorde-se ainda as palavras de Johann
Wolfgang von Goethe, nome maior da literatura alemã, que, crescido
numa família luterana, escreveu em adulto que a sua fé foi abalada
quando, logo aos seis anos de idade, soube dos acontecimentos em
Lisboa: «Talvez o Demónio do Medo nunca tivesse difundido tão
rápida e poderosamente o seu terror sobre a Terra.» De facto, o
medo instalou-se, com sermões fanáticos por toda a Europa e com
discursos inflamados sobre a ira e a vingança de deus a abaterem-se
sobre os pecadores. Contudo, a Ciência e o novo pensamento
prevaleceram, despertando nos mais iluminados uma viragem no seu
raciocínio outrora limitado por deus.
De 1 de novembro de 1755 ficam os
mortos, o apocalipse anunciado como inevitável ou as ruínas do
Convento do Carmo, mas também o renascimento da Lisboa pensada por
Marquês de Pombal, que ainda hoje se vislumbra, e o início da ideia
de que a Ciência se sobrepõe à Religião. E no passado dia 26 de
agosto [de 2024], a Terra lembrou-nos que aquele Dia de
Todos-os-Santos, agora tão longínquo, pode voltar a acontecer.
(Publicado originalmente no jornal "O Ilhavense", nº 1360, de 1 de novembro de 2024)
* Moonspell, faixa "Todos os Santos", do álbum "1755" (2017)