Ela chama-se Julho e ele Outubro. Em Agosto dormiram juntos e em Setembro ela a ele não lhe saiu dos pensamentos.
De todas as pessoas sobre quem já escrevi, para último tens ficado, minha Julho quente que se esquiva de mim, qual ser escorregadio, todos os outros meses e imensos anos. Para o fim tens ficado, porque para ti tencionei reservar algo mais cerimonial e lírico. Tarefa árdua esta de deixar para memórias futuras um testemunho sobre ti, que tão pouco tempo ficaste mas que por tantas temporadas me atormentas. Por isso, por parecer ser difícil firmar-te em palavras, inspiração devia pedir às musas, ninfas e outras potestades fantásticas, que moram ora nos longínquos bosques helénicos, ora nas margens de um qualquer rio esquecido mais perto de nós. Mas não, inspiro-me antes diretamente em ti, que existes, em quem já toquei e de quem já de viva voz ouvi.
Soa tudo solene, com pretensões epopeicas, mas nem isto é poesia – para a qual não tenho talento ou engenho –, nem é sobre uma viagem aventureira à moda de Odisseu que vinte longos anos esteve longe da sua pátria, nem sobre um Satã caído no profundo Inferno, por inveja sua ao Unigénito, que prometeu arruinar a Humanidade quando, tornado Serpente, aquela maçã, detentora de alegado conhecimento sobre tudo, deu a provar à ingénua Eva. Ainda assim, e incorro já em me apropriar demasiado de Homero e Milton, tens sido, ao longo das Estações, o meu lótus e eu o teu lotófago, que provei e mais não quis regressar a casa, e o meu Paraíso, depois Perdido, que profanei ao desejar conhecer melhor com toque, saliva e gemido.
E após uma pausa, retomo a tua lembrança, que tanto me faz arder o peito como me resfria a barriga. Uma pirosice, bem sei, como tudo isto, aliás. Um embaraço, que poderá vir a ser público, armado em romancista de cordel, coisa que não intento ser. Aqui estou, porém, a recordar aquela a quem chamo Julho, porque nessa e dessa Lua nasceu. E se do estio brotou, décadas mais tarde havia de se cruzar com um ente outonal – eu mesmo, Outubro, o mês dez, de maestria, que na realidade é oito, de infinito.
Esta mania, para não me esquecer e não ser esquecido, de pôr por escrito passageiras vivências, um dia há-de trazer-me dissabores quando, com alguém que tomarei por certa e duradoura, decidir assentar e seguir em união – mas a quem o obreiro deve justificações? A ninguém. Poderei sempre dizer que foram só frutos da imaginação... E assim me desmascaro já, porque está bem à vista desarmada que não se trata apenas de imaginação fértil. Invejas e inseguranças, que venham elas. Depois cuidarei disso, pois agora prefiro cuidar de não esquecer Julho.
«Hoje podes fazer de mim o que quiseres», disseste. E eu, parvo, não absorvi inteiramente esse aviso. Esperei, sem saber de verdade se ias ficar ou ir embora, até à nossa privacidade. Podia antes, durante as horas em que estivemos no meio de pessoas, logo ter-te puxado, de vez em quando, para mim suavemente e quiçá a medo, começado a explorar as tuas linhas corporais ocultadas pela roupa e antecipado ou preparado, com sedução leve, o resto de noite que possivelmente iríamos ter.
Pois que Outubro é astuto e justo, mas ponderado e, mais vezes do que menos, receoso. E esta Julho, que não sei ao certo se é como as outras, é misteriosa e efémera, ainda que «hoje podes fazer de mim o que quiseres». Estúpido, eu.
Quando as nossas línguas se enrolaram, no escuro, com Julho esbelta em cima de Outubro surpreendido, nenhuma sensação igual outrora tinha experimentado. Estupefacto pela destreza daquele molhado e macio músculo feminino, senti-me dominado e comandado. Por mim, num total estado de entusiasmo e compromisso, desceram milhões de mínimos choques elétricos que, unificados, se tornaram num só explosivo – poderoso e divino. Aquele beijo serpenteado, com veneno erótico, matou-me ali, rendi-me, e aprisiona-me em celas de anseio sempre que o relembro. Lá virão as futuras possíveis zangas com quem quer que se atravesse comigo para ficar de vez, mas admito: nunca ninguém me invadiu assim. E gostei. Relembro Julho e o seu beijo dominante com pasmo e carinho, com vontade de regressar e repetir.
Mas Julho é fugidia. Escapa-me irritantemente e aparece-me em sonhos, mais do que devia. Foi até, devo confessar, num sonho que dei o nome Julho a ela e Outubro a mim. Foi nesse sonho, enquanto escrevia com ela a meu lado, que recordei o nosso leito partilhado em Agosto e o infame Setembro que prometia ser o cenário para finalizar o que tínhamos começado e nunca aconteceu.
Janeiro é frio, Fevereiro traz falsos enamoramentos, Março tem um temperamento imprevisível, Abril promete liberdade, Maio reserva-se ao trabalho, Junho é antecipação, Novembro é chuvoso e Dezembro é demasiado distante. Resta-nos aquilo que somos: Julho e Outubro, cada um com os seus traços peculiares e próprios que teimam no afastamento, mais ela do que ele. Sem esquecer Agosto, que fugazmente nos juntou, e Setembro, que muito jurava a reunião mas que, enfim, nos separou e me deixou à deriva.
Por mais momentos juntos, mesmo que passageiros e rápidos, voltava a Julho sem hesitação, quantas vezes fosse intimado a tal. E assim dou-te um poder que a ninguém devia dar: manietas-me os movimentos em direção a ti e obrigas-me a abafar desejos, não me dás a liberdade de te ter mais uma e outra vez. E foges-me sempre. Mas, também, admitamos: se voltasse mais e mais, como depois escreveria lamentos e perdições sobre ti?
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